Há um campeão do mundo de seleções a jogar no Feirense. Antonio Briseño, 24 anos, avança para a segunda época em Portugal e transporta jogo após jogo a adrenalina que sentia no enduro. 

Sim, o mexicano da Feira chegou a ser vice-campeão nessa categoria de motociclismo, quando ainda se dividia entre duas paixões. 

O futebol triunfou e trouxe-o para o Velho Continente, um sonho de criança. Na primeira temporada em Portugal acabou a titular e a marcar golos decisivos. 

Antonio Pollo Briseño parte para o segundo ano carregado de ambição e a pensar já em 2022. É nesse ano que se joga o Mundial do Qatar e o central azteca pretende marcar uma posição desde agora. 

Numa conversa com o Maisfutebol no Estádio Marcolino de Castro, Briseño revela episódios surpreendentes do passado, fala da profunda amizade com Miguel Layún, das dificuldades em lidar com o rótulo de menino rico e da felicidade inigualável que o nascimento da pequena Alessandra lhe trouxe. 

Em discurso direto, as confissões de Antonio Briseño, um dos bons centrais da liga portuguesa.

MF – Quando estava no México, que ideia tinha do futebol português?

AB – Um futebol cheio de executantes habilidosos, um país com uma das melhores ligas depois das «top-5»: Inglaterra, Espanha, Alemanha, França e Itália. Todos sabemos que temos de passar por Portugal antes de estar num desses maiores campeonatos. É uma importante porta de acesso à Europa. É uma excelente montra. Há excelentes equipas em Portugal, o futebol tem grande qualidade.

MF – É internacional mexicano em todos os escalões. Só lhe falta a seleção A.

AB – E quero corrigir isso (risos). Quero ajudar o meu país, quero jogar o próximo Mundial e estou muito determinado. Vamos passo a passo. Primeiro tenho de ser titular no Feirense, agarrar bem o lugar. Em setembro o México vai fazer alguns amistosos, pode ser que me chegue uma boa notícia.

MF – No Mundial de 2022 terá 28 anos. Os próximos quatro anos são muito importantes para a sua carreira.

AB – São os anos mais importantes, são os anos que determinarão se serei um jogador de topo ou não. Quero jogar o Mundial, quero estar na Gold Cup e, quem sabe, numa Copa America. O meu objetivo é estar no Qatar-2022.

MF – Não foi à Rússia. Viu todos os jogos do México?

AB – Vi e acreditei que podíamos fazer algo grande. Perdemos contra a Suécia, num jogo taticamente difícil, e acabámos por ter de defrontar o Brasil nos oitavos-de-final.

MF – Falemos do Feirense. Chegou, teve de esperar alguns meses para ser titular, mas acabou a jogar e a marcar golos. Que balanço faz do primeiro ano em Portugal?

AB – Não correu como eu esperava . Eu queria jogar sempre, mas o mister pretendia que eu melhorasse alguns aspetos do meu jogo. E assim foi, tive de ser paciente. Melhorei e posso dar muitas coisas boas ao Feirense. Estamos a fazer uma boa equipa e temos tudo para fazer uma grande época.

MF – O golo ao Sp. Braga, em cima do apito final, foi o melhor momento do Briseño?

AB – Foi um momento muito emocional, muito forte. Eu fui expulso contra o Benfica e perdi o lugar. Fiquei dois jogos no banco e nesse contra o Sp. Braga entrei a faltar dez minutos e dei o empate ao Feirense. Foi fantástico marcar contra uma equipa grande, foi importante para a minha afirmação. O Crivellaro veio falar comigo no fim desse jogo e disse que eu merecia esse momento.

Briseño a celebrar o importante golo ao Sp. Braga

MF – O que lhe passou pela cabeça?

AB – Fiz sacrifícios grandes para estar cá, até do ponto de vista financeiro. No México ganhava mais. Mas queria estar em Portugal, na Europa. E nesse jogo tinha a minha esposa grávida na bancada e alguns familiares. Comi muita porcaria para chegar até ao Feirense. No México era campeão do mundo, mas a verdade é que esse estatuto não me facilitou a entrada nos melhores clubes. Vivi muitos altos e baixos.

MF – O que lhe pedia o Nuno Manta quando chegou a Portugal, do ponto de vista técnico e tático?

AB – Pedia-me que não caísse para as linhas, que não saísse da zona central. E que me mantivesse sempre alinhado com os outros defesas. No México eu jogava mais recuado, como líbero, e tive de mudar isso. Passar mais rápido, ser mais agressivo.

MF – Que relação tem com o Nuno?

AB – Uma relação espetacular. É um treinador que está sempre perto dos jogadores, sempre preocupado com o nosso bem-estar. É muito humano. Fora do campo e no campo é um tipo disponível para nos ajudar.

MF – A liga portuguesa e a liga mexicanas são muito diferentes?

AB – Aqui os jogos são mais táticos, mais fechados. No México há mais clubes a lutar pelo título, os jogos são bastante abertos, com muitos golos.

MF – Qual foi o avançado que lhe deu mais problemas aqui em Portugal?

AB – O Marega. É muito forte, movimenta-se bastante. E o Jonas. É um avançado imprevisível, apesar de se mexer menos.

MF – No FC Porto estavam quatro mexicanos na época passada. Tinham ligação fora do campo?

AB – Sim, com todos. E são todos espetaculares. Pessoas de bem. E confesso-lhe uma coisa: eu, sem o Layún, não sei o que teria feito. Deu-me muitos conselhos, é um tipo especial. Nota máxima. Nem consigo explicar o quanto me ajudou, é um rapaz espetacular. Ele e a família dele. Foram uma parte importante para eu aguentar o impacto inicial da adaptação e estar onde estou agora.

MF – Já o conhecia antes de vir para Portugal?

AB – Não, só de nome e de vê-lo a jogar. Passei seis meses espetacular com o Layún. Depois ele teve de ir para o Sevilha. Não é fácil encontrar pessoas como ele.  

MF – Corona e Herrera continuam por cá.

AB – Falo bastante com o Herrera, às vezes saímos para jantar. Para a minha família é importante ter o apoio da família deles.  

MF – O que é o futebol para si?

AB – Tudo. Deu-me a minha mulher, num jogo que fiz em Monterrey. E deu-me a minha filha, por consequência. É tudo. Quero ser campeão do mundo como futebolista e como treinador. Já estou a tirar o curso de técnico na federação da argentina. Tenho 24 anos e pretendo ganhar tempo ao tempo. Quando encerrar o meu percurso de futebolista pretendo começar logo como treinador.

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