«É um registo fantástico, que devemos sublinhar como um feito de grande dimensão», diz ao Maisfutebol António Simões frisando que deve ser realçado «não só por ser a marca do mítico capitão do Benfica», mas por ser uma marca obtida «nos tempos de hoje«.

«Parabéns ao Luisão», disse Simões fazendo questão de acrescentar que «o Mario Coluna dir-lhe-ia a mesma coisa: pela sua elegância, ele daria os parabéns ao Luisão.»

«Esse «momento histórico, muito bonito para o Benfica e para o Luisão» foi obtido neste domingo no Clássico frente ao FC Porto, cujo empate a zero golos serviu os interesses do Benfica na luta pelo bicampeonato. O defesa central foi um dos melhores em campo sendo fundamental na obtenção desses interesses com uma exibição exemplar, sem defeitos, a coroar o recorde histórico.

 

Luisão está há 11 anos no Benfica e tem 453 jogos com a camisola das águias (jogou 40.467 minutos). Mário Coluna esteve 16 anos no Benfica: fez 519 jogos. São números de outros tempos, que não se imagina nos dias de hoje. Mas esta tem sido a marca de Luisão que, agora, ultrapassou o mítico capitão.

António Simões concede que «ninguém teria a leviandade de prever que isto aconteceria nos dias de hoje». «Não só no Benfica, mas em qualquer clube português», considera a antiga glória dos encarnados, que deixa um desejo: «Oxalá volte a acontecer uma marca destas – e apetece-me referir o Rui Patrício como alguém que pode chegar a um ponto destes, até pela posição de guarda-redes que o permite.»

Mas Simões reconhece da mesma forma que «é muito raro» numa sociedade de mercado como esta verem-se estes números de outros tempos ao serviço de um mesmo clube – e de um português, em concreto. «Com alguma ironia, digo que o jogador é como um avião: têm de estar sempre a transferir-se, como os aviões têm de estar sempre no ar (não podem estar em terra).»

«Agora [o futebol] é um negócio, que não é a causa, mas que vai impedindo que os jogadores se mantenham nos clubes – e, também ainda mais, em Portugal», porque, como diz o antigo extremo, «o sucesso desportivo vai ficando exposto ao poder económico».

António Simões não deixa de frisar: «É de enaltecer sempre que aparece um jogador a fazer uma carreira muito boa num clube português». «É uma exceção», considera aquele que sucedeu a Coluna como capitão do Benfica. «Sou eu que recebo do Mário Coluna essa responsabilidade», lembra-nos o sexto nesta lista com 244 jogos de braçadeira envergada.

«Não podia ser antes porque tinha o Mário Coluna à minha frente: era impossível tirar-lha», refere Simões contando que quando o seu perfil foi o escolhido isso se fez «com acordo», numa «sequência natural», num processo pensado» para «ser o substituto do Coluna» nessa função tão importante de líder da equipa.

«Percebi o que é ser capitão, o que é receber do Mário Coluna a braçadeira e percebo o que é para o Luisão ultrapassar o Coluna e a responsabilidade que tem», diz Simões repetindo o espírito do Benfica de então que, por estes exemplos, ainda se nota hoje: «Percebo o gesto que o Mário Coluna teria de dar-lhe os parabéns porque o Luisão era um jogador que ele apreciava.»

O mundo é outro, o Benfica é outro, mas Simões destaca que «o exemplo do Luisão mantém uma réstia de esperança em não abandonar a matriz de ter jogadores que fiquem tanto tempo» num clube. «E o Benfica tem-no conseguido», garante.