Um jogo de sonho é isto, para quem tem 22 anos e está a tentar afirmar-se na Liga. Marcar os dois golos da vitória que mantém a equipa viva no campeonato até ao fim. O Tondela volta pela segunda época seguida a lutar até ao último suspiro pelo milagre e foi Pedro Nuno quem manteve a equipa a respirar, ele que vai construindo a imagem de aparecer em grandes ocasiões.

«Sempre trabalhei para que este momento pudesse chegar um dia. Felizmente chegou em boa hora», diz Pedro Nuno ao Maisfutebol depois do bis na vitória em Arouca, neste sábado, a caminho do treino no arranque de uma semana que será decisiva para o futuro do Tondela. Ele que é a Figura da Jornada 33 para o Maisfutebol, a única nota máxima da ronda que consagrou o Benfica como tetracampeão nacional e adiou para o último dia as decisões da descida. Dito isto, Pedro Nuno conta que antes do jogo nunca se imaginou a fazer algo assim: «Para ser sincero não...»

Foram dois belos golos, como destacou a análise do Maisfutebol à exibição de Pedro Nuno em Arouca: «Se o Tondela se mantiver no principal escalão, além de Pepa, também este médio criativo poderá merecer a construção de uma estátua na cidade do distrito de Viseu. Com um pé direito talhado para os grandes momentos, voltou a faturar no Municipal de Arouca, à imagem do que já havia feito na temporada transata, ao serviço da Académica. Dois belíssimos golos, em particular o segundo (na cobrança de um livre direto) e uma data de detalhes de pura classe.»

Agora noutra versão, os golos descritos em discurso direto por quem os marcou: «No primeiro foi tudo muito rápido. Lembro-me que a bola ressaltou num remate que o David Bruno tentou, sobrou para mim e naquele momento só pensei em rematar. Olhei, vi que a bola entrou e fiquei muito feliz. No segundo pensei em fazer golo e felizmente entrou. Treinamos sempre livres, mas em jogo é sempre diferente, com o ambiente, o público.» E costumam sair muitas vezes assim bem, quando bate nos treinos? Pedro Nuno ri-se: «Às vezes sai bem, outras vezes não corre tão bem.»

O jogo que fez em Arouca foi comemorado com quem lhe é próximo. «Festejei com a minha família, com a minha namorada», conta, já a olhar para a frente e para o jogo da última jornada com o Sp. Braga, para o qual o Tondela parte a um ponto do Moreirense, a última equipa acima da linha de água e que fecha a Liga frente ao FC Porto, e a três do Arouca, que também não está ainda salvo. «Sabíamos que ainda tínhamos uma esperança, agora resta-nos tentar ganhar o último jogo e esperar pelo resultado do Moreirense. Resta-nos preparar bem esta semana, em que temos um jogo muito importante. Provavelmente o jogo mais importante da minha ainda curta carreira», assume o médio que chegou a Tondela em janeiro, emprestado pelo Benfica.

O objetivo de jogar na Luz e a referência Aimar

É a segunda ligação de Pedro Nuno ao Benfica, ele que nasceu na Figueira da Foz e fez parte da formação na Naval, antes de seguir para o Seixal. Saiu ao fim de duas épocas, para rumar à Académica. E foi em Coimbra que se estreou na Liga, logo na primeira jornada da época 2014/15, num empate frente ao Sporting. Jogou oito partidas nessa época. E 12 na temporada seguinte, com quatro golos marcados. Um deles frente ao Benfica, à 29ª jornada, o outro ao FC Porto, duas rondas depois. Lá está, Pedro Nuno a aparecer em grandes ocasiões, mesmo que a Briosa tenha perdido ambos esses jogos com os «grandes», por 1-2, na temporada em que acabaria por descer de divisão. A despromoção ficou confirmada na penúltima jornada, a despedida foi o jogo que salvou... o Tondela, que venceu por 2-0 a Académica para se manter na Liga.

Pedro Nuno continuou na Académica, na II Liga, e em dezembro surgiu a mudança na carreira, o contrato com o Benfica. Assinou mas nem passou pela Luz, foi logo emprestado. Ao Maisfutebol diz que não chegou a falar naquela altura com Rui Vitória, o treinador «encarnado», mas o Benfica, ou o futuro depois de terminado este campeonato, é assunto que quer deixar para depois.

«Neste momento sinceramente não penso muito nisso, penso em ajudar o Tondela. O futuro logo se vê», diz. «Agora o Tondela é o mais importante.» E um dia mais tarde? «O meu objetivo sem dúvida que é jogar no Estádio da Luz. Deve ter um ambiente fantástico. Mas neste momento penso é no Tondela.»

Nesta altura Pedro Nuno prefere não pensar no que está para lá do próximo fim de semana. Embora reconheça que tem vários sonhos, como chegar um dia à seleção: É um sonho que tenho, sei que para isso tenho que trabalhar muito, há muito caminho. Quando se trabalha muito as coisas acontecem, pode ser que aconteça um dia.»

Estes foram os primeiros golos de Pedro Nuno pelo Tondela, ele que se estreou na derrota por 2-1 com o Arouca, precisamente há uma volta, naquele que foi por sinal o último jogo de Petit no banco do Tondela. A equipa terminou a primeira volta, já com Pepa ao comando, com 10 pontos, afundada no último lugar.

De fora nas duas rondas seguintes, Pedro Nuno foi ganhando espaço no meio-campo da equipa. Os resultados, esses, continuaram a não aparecer. Mas na reta final o Tondela recuperou. São quatro vitórias nos últimos cinco jogos, depois de quatro meses em que somou apenas uma vitória em 18 jogos.

E o Tondela voltou a acreditar, e a deixar toda a gente a interrogar-se se conseguirá repetir o milagre. Na época passada, o Tondela terminou a primeira volta com oito pontos. Dez jornadas depois tinha 14 pontos, 10 abaixo da linha de água. E à 28ª jornada foi ganhar a casa do FC Porto e começou uma recuperação incrível: cinco vitórias nas últimas sete rondas e salvou-se.

Pedro Nuno ainda não estava em Tondela. Mas aquela recuperação tem servido obviamente de motivação à equipa: «Não estava cá, mas assisti. Claro que os jogadores que já cá estavam falam sobre isso. Já disseram que no ano passado chegaram a estar muito pior e conseguiram o tal milagre.»

E por que é que o Tondela voltou a deixar esta alma para o fim? Até agora os resultados não apareciam, diz Pedro Nuno: «Seria melhor ter a manutenção garantida mais cedo. Tivemos sempre motivação de ganhar, mas não acontecia. Agora temos conseguido boas vitórias.»

A vitória sobre o Arouca foi a primeira do Tondela fora de casa esta época. A decisão da Liga está marcada para Tondela, onde a equipa tem conseguido bem melhores resultados esta época. Pedro Nuno acredita que o factor casa pode ajudar: Jogar em casa é sempre diferente. Estamos perante os nossos adeptos, é mais uma motivação forte. «Temos de agradecer o apoio dos adeptos em Arouca, deram-nos mais força para lutar em cada lance.»

Venha então o jogo «mais importante» da vida de Pedro Nuno, o médio que não gosta de falar de si próprio, mas a pedido do Maisfutebol lá vai dizendo como se vê como jogador: «Não gosto muito de falar de mim. Sou um jogador que gosta de assistir os colegas, fazer a equipa jogar. Mas não jogo sozinho, gosto de jogar para a equipa, que a equipa pratique bom futebol e, claro, que ganhe.»

Talvez por isso um dos momentos que partilhou na sua página no Facebook foi da assistência que fez esta época no jogo com o Sporting para o golo de Jhon Murillo.

Pedro Nuno também tem ídolos. Ainda em Coimbra, numa entrevista ao canal da Académica, falava em Ronaldo ou Kaká como duas das suas referências. Na conversa com o Maisfutebol acrescenta mais uma: «Tenho outros jogadores que admiro bastante. Por exemplo, na altura do Benfica, quando estava nos juvenis, adorava ver o Aimar jogar. Jogava muito simples. Às vezes o simples é o mais complicado.»