O Clássico foi de Casillas, pois claro, e de Jonas, certamente. Porém, no duelo de titãs do passado sábado é difícil encontrar um papel mais simbólico e decisivo do que o de Maxi Pereira, que por isso mesmo é a Figura da Jornada 27 para a redação do Maisfutebol.

O lateral uruguaio que na época passada trocou o Benfica pelo FC Porto foi, como já havia acontecido há um ano, um dos focos da ira dos adeptos encarnados. No entanto, os assobios, muitos assobios mesmo, emudeceram ao minuto 49 do jogo, quando, em pleno Estádio da Luz, Maxi fez um golo (o seu primeiro esta época; segundo de sempre de azul e branco) que valeu o empate a uma bola para os dragões e um ponto importante na corrida pelo título.

Marcou e festejou, tapando o ouvido. Tal como viria a celebrar entusiasticamente uma defesa salvadora de Casillas numa prova de garra e de compromisso com o seu clube, logo em casa do rival que representou durante oito épocas.

«Agarrei-me à cabeça quando vi o golo dele! “Logo ao Benfica!”, pensei.

Percebia-se pelas imagens que estava quase todo o estádio a assobiá-lo. Não é fácil suportar isso. Mas ele tem uma grande força mental», confessa ao Maisfutebol Ricardo Meroni, alguém importante na carreira do lateral portista (já lá vamos a ele...).

Ao marcar, Maxi fez história, tornando-se no terceiro jogador, depois de Yuran e Serafim, a fazer golos em Clássicos pelos dois clubes.

Maxi, «Mono» ou… «Cantinflas»

Victorio Maximiliano Pereira Páez, 32 anos, chegou há uma década a Portugal. Foi capitão do Benfica, onde se sagrou campeão por três vezes (2009/10, 2013/14 e 2014/15), antes de no verão de 2015, em fim de contrato com os encarnados, rumar ao Dragão. Já agora: gosta passar tempo em família, de comer bom peixe, dos ritmos latinos da cúmbia, de ver grandes duelos de ténis entre Nadal e Federer ou jogos de basquetebol, além de futebol, claro.

Esses são aspetos mais ou menos conhecidos por cá. Mas, como era Maxi antes de chegar a Portugal, quando despontava no Uruguai pelo Defensor Sporting?

«Nunca dava uma bola por perdida.» Essa, de facto, será a sua melhor definição, que ganha peso nas palavras do já referido Ricardo Meroni, ex-treinador do lateral portista nos juvenis do Defensor, que recorda ao Maisfutebol um jogador raçudo que tanto podia jogar a médio interior como a lateral.

Conhecia-o dos escalões mais jovens, mas apanhei-o com 17, 18 anos e já era um futebolista muito parecido com aquilo que vemos hoje. Nunca baixava os braços, tinha um bom remate de meia distância e muito ritmo competitivo: era um jogador com pilhas para 90 minutos Como aqui no Uruguai o futebol é mais lento, ele marcava a diferença pela dinâmica. Inicialmente era n.º 8, um volante que atuava mais sobre a direita, depois passou a jogar pela ala, até recuar para lateral-direito.»

Recorda o técnico, uma instituição no futebol de formação do clube uruguaio, que como jogador ajudou em 1976 levar o Defensor à conquista do primeiro título do país que escapou ao domínio de Nacional e Peñarol. Maxi quase conseguiu igual proeza. Ele e outra dezena e meia de miúdos do Defensor que em 2004, ano em que o clube foi promovido ao escalão principal, subiu à primeira equipa e acabou o campeonato a lutar com os dois gigantes de Montevideu pelo título de campeão.

Desde criança que Maxi é El Mono (O Macaco), pelo modo de andar, contou em tempos numa entrevista. Essa é, aliás, uma das diversas tatuagens que lhe cobrem o corpo, tal como os nomes dos irmãos e dos pais.

«Era também conhecido por Cantinflas», revela Carmine Perdomo, recordando a personagem cómica de bigode escasso do ator mexicano Mario Moreno que fez sucesso também em Portugal.

Cantinflas, o ator Mario Moreno, que inspirou uma das alcunhas de Maxi

Carmine é pai de Jorge Fucile (que agora joga no Nacional de Montevideu), também uruguaio e lateral-direito do FC Porto, que foi rival de Maxi em Portugal, tal como havia sido em criança nas canchas da capital, e também companheiro na seleção uruguaia.

«Conheço o Maxi há muitos anos. Desde miúdo, ainda ele jogava a avançado. Era um rapaz sério, deixava tudo em campo, mostrava já a raça que todos lhe reconhecem. Ele jogava no Belavista, e já treinava no Defensor Sporting, o meu filho Jorge representava o River. Eram adversários, mas amigos. A alcunha dele? (risos) Mono, Cantinflas… Pelo modo de andar ou parecenças os miúdos no balneário arranjam sempre forma de se brincarem entre si.»

Mais internacional e exemplo para o Sporting

O maior amigo de Maxi nos tempos de juventude era Álvaro González, colega de Fucile no Nacional, médio internacional uruguaio (ex-Lázio), com quem enchia o meio-campo do Defensor desde os escalões jovens. Pablo Brandy, diretor de imprensa do clube, recorda-se bem das duas promessas que chegariam à primeira equipa e singrariam no futebol europeu. De Maxi tem a ideia sobre como as suas origens ajudaram a moldar a tradicional garra charrua: «Ele vivia em Belvedere, um bairro populoso, de classe trabalhadora, como os seus pais são. Essas são as suas raízes. Talvez isso se note na sua forma de jogar.»

Meroni completa o testemunho de Brandy sobre o jovem Maxi: «Atravessava Montevideu inteira todos os dias… Mas nunca faltava a um treino. E ficava depois de cada sessão a trabalhar mais um pouco, a tentar melhorar vários aspetos. Era um rapaz humilde, que tinha a ambição de jogar na Europa as só depois de se afirmar na primeira equipa do Defensor. Quis sempre dar passos seguros, sem precipitações.»

Foi passo a passo até afirmar-se na seleção. Desde 2016 que Maxi é o jogador com mais internacionalizações A na história do futebol uruguaio: 118. Um orgulho para Meroni, que o aponta como exemplo para os jovens que ajuda a formar «como jogadores e como homens».

«Digo-lhes “o Maxi saiu daqui, deste campo onde vocês estão a treinar.” Ele e outros da sua geração ainda mantêm contacto com o clube», recorda o antigo técnico que muitas vezes no final do treino dava boleia a Maxi até ao bairro de Belvedere: «Levava-o no meu carro e ele só queria pôr ouvir músicas do Vicentico.» Quem? «Um cantor de música latina. Ele gostava muito das músicas dele.»

Vamos conhecê-lo, então:

Los caminos de la vida, 

no son los que yo esperaba, 

no son los que yo creia, 

no son los que imaginaba 

Canta o artista argentino em Los Caminos De La Vida, um tema que certamente para Maxi é como um regresso às origens, quando era apenas um garoto de Belvedere com esperanças em ser futebolista profissional e jogar na Europa.

Sábado à noite, na Luz, quando aquele monumental coro de assobios se transformou no silêncio de quase todo o estádio, exeto no setor portista, que irrompeu em festa, nos ouvidos de Maxi o momento terá soado mais melodioso do que a voz de Vicentico.