1. Eusébio

O ano acordou com a notícia que ninguém queria receber: Eusébio morreu. Era dia 5 de janeiro, um domingo de manhã. Dia de futebol. Por isso uma multidão juntou-se no Estádio da Luz. Numa homenagem espontânea. Mas juntou-se também no minuto de silêncio em Old Trafford, nos fumos negros de David Luiz e Ramires no Derby County-Chelsea, na homenagem em todos os jogos da Taça de Portugal e até nas lágrimas de Óscar Cardozo junto ao caixão. Como Amália uns anos antes, Eusébio morrera sem desparecer: a memória do maior símbolo da alma portuguesa é mais forte do que a morte.

 

2. Cristiano Ronaldo

O ano de Ronaldo começou com lágrimas e acabou em sorrisos. As lágrimas caíram com a Bola de Ouro que ergueu ao mundo no dia 13 de janeiro. Foi o início de um ano quase perfeito, percorrido com títulos e muitos recordes. Os títulos da Liga dos Campeões, por exemplo. Mas também a Taça do Rei, a Supertaça Europeia e o Mundial de Clubes. Também houve recordes, claro: mais golos numa época de Liga dos Campeões, mais golos numa época europeia, mais golos em jogos de Europeus de futebol. Pelo meio a única mancha, num Mundial demasiado discreto. Um ano quase perfeito, lá está.

 

3. Jorge Jesus

O que sobra do ano do Benfica, afinal? Sobram sobretudo os títulos: quatro. É verdade que depois disso, convém não esquecê-lo, vieram duas eliminações difíceis de digerir: o afastamento das provas europeias e o afastamento da Taça de Portugal. Mas por muito difíceis que sejam de digerir, lá está, não chegam para fazer tombar Jorge Jesus de um pedestal. Depois de um ano cruel, que o fez perder três títulos em três finais, o treinador resistiu no fio da navalha e embalou para oito meses perfeitos: quatro títulos e uma final europeia perdida nos penálties. Dificilmente o Benfica pode não sorrir ao olhar para 2014.

 

4. Marco Silva

2014 foi um ano exigente para Marco Silva: o treinador começou por ter de reconstruir um Estoril que tinha perdido as maiores estrelas. Fê-lo com sucesso. Tanto, aliás, que o Estoril bateu os recordes do ano anterior e terminou a época no quarto lugar. Marco Silva saltou para o Sporting e encontrou a realidade oposta: muita exposição, casos, notícias: e um presidente demasiado extravagante. A relação  entre os dois foi-se deteriorando e atingiu um ponto em que não é definitivamente boa. Os dias tornaram-se por isso uma dor de cabeça, mas mesmo assim Marco Silva fez uma boa Liga dos Campeões e apurou a equipa na Taça. A Liga, essa, esteve longe de correr como devia. O Sporting falhou sobretudo nos jogos mais fáceis. A boa notícia para os sportinguistas é que as equipas de Marco Silva costumam melhorar com o tempo: desde que, lá está, tenham tempo.

 

5. Fernando Santos

Um castigo surpreendente de oito jogos, devido à expulsão na final do prolongamento, nos oitavos de final do Mundial, frente à Costa Rica, não chega para destruir o quadro de um ano perfeito para Fernando Santos. Antes de mais o Mundial, claro: um grande Mundial, que se tornou a melhor participação de sempre da Grécia nesta competição. Chegou aos oitavos de final e só foi eliminada nos penalties. Depois veio a concretização de um sonho: Fernando Santos tornou-se selecionador nacional. Pegou numa seleção em maus lençóis, recuperou vários jogadores, ganhou dois jogos e deixou-a a um passo da liderança do grupo. Sempre a sorrir, descontraído, entre uma ou outra piada, deu vida a uma equipa que insistia em olhar para as chagas de um Mundial demasiado mau.

 

6. Nani

Tornou-se numa das figuras do ano num só dia: precisamente a 20 de agosto. Nessa noite, já perto da madrugada de 21, aterrou no aeroporto da Portela e provocou uma explosão de alegria entre largas dezenas de adeptos. Nani estava de volta ao Sporting, e o futebol português mostrava que podia ter um jogador de nível mundial de regresso na fase mais importante da carreira. A partir daí, em casa, com o apoio da família, Nani mostrou que continua a ser um caso sério de talento e tornou-se um jogador à parte no futebol português: sete golos, muitas assistências e um futebol solto, vibrante, inspirado. Até na Liga dos Campeões. Quatro meses apenas de 2014 trouxeram Nani de volta às manchetes.

 

7.Tiago

Aos 33 anos, mais maduro e experiente, Tiago tornou-se novamente figura: sobretudo no At. Madrid, que ajudou a guiar ao título de campeão de Espanha e à final da Liga dos Campeões. Peça fundamental no esquema de Simeone, foi ele por exemplo que iniciou dois golos na vitória (3-1) em Stamford Bridge que apurou a equipa para a final da Champions. Não esteve com Portugal no Mundial, mas Fernando Santos chamou-o de regresso à seleção numa fase complicada da equipa nacional e Tiago respondeu que sim. Curiosamente, com ele e outros veteranos, Portugal reentrou no caminho das vitórias.

 

8.Rui Jorge

Por muitos bons trabalhos que tenham existido em Portugal em 2014, nenhum atinge o patamar do que conseguiu Rui Jorge: seis jogos oficiais, seis vitórias. Uma campanha de apuramento para o Euro 2015, aliás, cem por cento vitoriosa. Durante a campanha perdeu jogadores como, por exemplo, William Carvalho, André Gomes, João Mário, Rafa Silva, mais recentemente até Raphael Guerreiro, em certo ponto até Ivan Cavaleiro, mas soube reinventar soluções e fazer Portugal acreditar que a geração do futuro vale muito a pena.

 

9. Paulo Bento

O ano de Paulo Bento fica marcado por fracassos: a má participação no Mundial, que não permitiu atingir o objetivo mínimo dos oitavos de final, e um início de fase de apuramento para o Euro 2016 desastroso, com uma derrota caseira com a frágil Albânia. Sentia-se que o ambiente na seleção nacional já não era bom e a imagem de Paulo Bento, sempre demasiado frontal e por vezes até conflituoso, estava desgastada. Por isso a Federação optou pela mudança. Paulo Bento saiu pela porta pequena, mas a memória não pode apagar o bom trabalho feito em circunstâncias difíceis em toda a campanha do Euro 2012.

 

10. Leonardo Jardim

Uma das figuras do ano nacional: antes de mais pela excelente campanha ao serviço do Sporting, que deixou no segundo lugar e apurado para a Liga dos Campeões. Discreto, simples, resultadista, devolveu ao clube o hábito de ganhar. O Sporting não encantava, é verdade, mas voltou a ser grande com ele. Talvez sentindo que esgotou as soluções para surpreender em Alvalade, agarrou o convite do Mónaco com as duas mãos. O salto para a liga francesa acabou por não ser tão grande como imaginava, encontrou um clube que do processo megalónamo já guardava pouco, mas mesmo assim, e depois de um início difícil, atingiu o sucesso de apurar a equipa para os oitavos de final da Champions. Ninguém o pode acusar, enfim, de não ter resultados.

 

E mais uma figura, de perfil mais discreto: um caso de sucesso em tempos de crise

 

11.Rui Vitória

O treinador de sorriso fácil, gestos afáveis e carácter cordial não encaixa perfeitamente na ideia que se cria de um líder de eleição: parece ser demasiado simpático para isso. Mas os resultados ajudam a desfazer o equívoco. Cumpre a quarta temporada em Guimarães e tem feito sempre bons trabalhos: sobretudo bons trabalhos com pouco. Num clube preso a rigoroso controlo financeiro, conseguiu deixar sempre a equipa a meio da tabela. Pelo meio ainda conquistou uma Taça de Portugal e jogou a Liga Europa. Em 2014 fez mais, porém: na segunda metade do ano, e depois de ter perdido nove prováveis titulares, reconstruiu uma equipa cheia de miúdos da formação. Somou oito vitórias, quatro empates e apenas três derrotas, para sair de 2014 no pódio do campeonato. Fantástico.

 

(porque nos identificamos com a forma de estar e com o sucesso de Rui Vitória, pedimos-lhe que fizesse as suas escolhas de 2014. Pode lê-las nesta edição da revista)