Hugo Pinheiro assina pelo Marinhense. Para aqueles que estão familiarizados com o nome do guarda-redes que se tornou célebre internacionalmente graças ao jogo Championship Manager (CM), a frase que abre este texto não fará sentido. Afinal, Hugo Pinheiro pertence ao Marinhense e é do clube da Marinha Grande que ruma aos maiores clubes do mundo.

Mas e se lhe dissermos que se trata de um regresso? Aí já faz nos entendemos, certo? Então, é mesmo isso: Hugo Pinheiro está de regresso ao Marinhense. Aos 37 anos, o guarda-redes volta ao clube onde a lenda começou a ganhar forma. O jogador foi apresentado esta semana pelo clube.

Regressa sem a carreira internacional recheada de títulos que era quase certa para quem passou horas a jogar o CM 01/02, mas com a vontade de fechar um ciclo, no clube onde se iniciou como sénior, na temporada 2000/01.

Orgulho na carreira conseguida… fora do mundo virtual

Contextualizemos. Na versão de 01/02 do conhecido simulador em que os jogadores assumem o papel de treinador, Hugo Pinheiro era um daqueles atletas que quase todos contratavam. O guarda-redes começava o jogo no Marinhense, mas dificilmente lá ficava até fechar o primeiro mercado de transferências.

Hugo Pinheiro tinha tudo a seu favor: era jovem, com uma enorme margem de progressão e era muito barato. E depois, tinha excelentes valores nos atributos que mais interessavam na sua posição específica: antecipação, bravura, decisões, impulsão, reflexos e, claro, jogo de mãos.

Era, no fundo, um verdadeiro achado. E isso tornava o guardião da equipa da II divisão B uma compra quase obrigatória. E partir daí, rapidamente Hugo Pinheiro chegava à seleção nacional e despertava a atenção dos maiores clubes, sendo habitualmente distinguido como melhor guarda-redes do mundo.

(Parte da equipa do Marinhense, na época 2003/04, a última de Hugo Pinheiro no clube. foto cedida pelo jogador)

Ora, na vida real, a carreira de Hugo Pinheiro foi bem mais modesta, mas isso nunca o incomodou, conforme confessa ao Maisfutebol. «Tentei chegar o mais longe, mas só surgiu essa oportunidade antes de chegar ao Marinhense, quando houve interesse da U. Leiria», recorda o jogador que fez a formação no Sport Lisboa e Marinha, o grande «rival» do Marinhense na cidade vidreira.

Mas não existe espaço para ressentimentos, bem pelo contrário. «Gostei muito da carreira que fiz, foi um percurso engraçado e divertido», reconhece o guardião que atuou em vários clubes da região, como o Portomosense, Rio Maior, Caldas e Fátima, onde alcançou uma subida à II Liga, com um tal de Rui Vitória como treinador.

Mas já lá vamos. Antes é obrigatório falar do impacto que o jogo teve na vida de Hugo Pinheiro e do qual, garante, nunca viu algo de negativo. «Essa visibilidade não me trouxe nada de mau. É verdade que também não me deu nada de muito bom, mas de mau, não teve nada», assegura.

Desde logo, tem-lhe trazido, ao longo dos anos, vários telefonemas de jornalistas - «devo ter dado umas dez entrevistas», revela entre risos -, mas também o ajudou sempre que chegou a um balneário novo.

«Era engraçado e uma boa forma de quebrar o gelo. Colegas e adversários perguntavam-me muitas vezes se eu era ‘aquele’ Hugo Pinheiro do jogo e era giro porque toda a gente conhecia o nome, mas não sabiam quem era a pessoa por trás dele», realça, assumindo que também chegou a jogar CM e a contratar-se para a baliza, apesar de não ser «um grande fã» daquele tipo de simuladores.

Elogios à liderança e métodos de Rui Vitória

Voltando à vida passada nas balizas, foi sob o comando técnico do atual treinador do Benfica que Hugo Pinheiro atingiu o ponto mais alto da carreira, com a subida aos campeonatos profissionais, onde jogou durante duas épocas. Exatamente o mesmo tempo que trabalhou com o técnico ribatejano e que lhe permitiu perceber que ele «tinha algo de diferente», ainda que não permitisse antecipar uma carreira com tanto sucesso.

«Acreditava que era um treinador que podia chegar à Liga, mas não o imaginava a treinar o Benfica», confessa Hugo Pinheiro, que, porém, só tem elogios para Rui Vitória. «Aquilo que mais se notava era que estávamos perante um alguém bastante metódico, com uma liderança próxima dos jogadores, para quem estava sempre disponível», recorda.

Nesse sentido, Pinheiro garante que ia sempre com vontade para os treinos. «Gostei muito de trabalhar com ele porque sentia que em todos os dias aprendia algo novo e isso faz com que os jogadores vão treinar sempre motivados», assegura, reconhecendo que «agora, nota-se que é ainda mais treinador».

Interrupção na carreira… porque a vida não é um jogo virtual

Apesar de ter jogador duas épocas seguidas na II Liga – a segunda iniciada sob o comando técnico de Diamantino Miranda, mas durante a qual conheceu três treinadores – foi nessa altura, no final da época 2010/11, que Hugo Pinheiro tomou a decisão de abandonar o futebol.

«Isso aconteceu porque nasceu o meu filho e tive de definir prioridades», confidencia. «Eu queria acompanhá-lo de perto nos primeiros anos e o futebol roubava muito tempo», justifica o guardião, que apenas regressou à competição no ano passado, seis anos após ter deixado o futebol.

O regresso fez-se pela distrital, onde defendeu a baliza d’ Os Vidreiros. E foi no cube de Picassinos, um lugar da Marinha Grande, que Hugo Pinheiro lançou a rede àquilo que pode ser o seu futuro como treinador… na vida real.

«Joguei até fevereiro, mas acabei como treinador», revela, explicando que a sua estreia aconteceu num contexto difícil. «Foi complicado porque tinha de andar sempre preocupado a saber quantos ia ter nos treinos porque não tínhamos jogadores, mas apesar de ter sido difícil, gostei da parte de planear os treinos e liderar uma equipa», sublinha.

Esta época, porém, é na baliza que vai querer afirmar-se, num clube que teve uma passagem fugaz pelo Campeonato Portugal na época passada, mas cujo objetivo é «voltar a subir o mais rápido possível».

E para os amantes de CM 01/02, há um dado importante no que vai ser a próxima época do Marinhense. É que não é só Hugo Pinheiro que está de volta ao clube. Pedro Emanuel, outro dos bons jogadores que se podiam contratar no clube Marinha Grande, voltou ao conjunto aurinegro depois de ter sido uma das figuras do sensacional Caldas, que, na época passada, chegou às meias-finais da Taça de Portugal.

Com alguma ginástica financeira - e imginação, vá - o Marinhense ainda pode pensar em reforçar-se com a dupla atacante Tó Madeira e Tsigalko e aí será difícil travar uma caminhada triunfal do clube da Marinha Grande.