Recordando a atribulada saída de Cardoso Varela do clube, no verão de 2024 com apenas 15 anos, André Villas-Boas, presidente do FC Porto, voltou a defender a importância da denúncia do caso «para sensibilizar para o facto de que este tipo de abusos com menores continua a acontecer em todo o mundo».

Há sensivelmente dois anos, depois de ter disputado o Europeu de sub-17 pela Seleção Nacional, Cardoso Varela deixou o FC Porto, que pretendia oferecer-lhe um contrato de formação, sem aviso prévio, o que originou uma queixa na FIFA por parte dos dragões.

O jogador mudou-se para a Croácia, onde o seu pai estaria a trabalhar, tendo como destino o modesto NK Dinamo Odranski Obrez, que serviria de “trampolim” para uma mudança posterior para um grande do futebol europeu, situação que não é permitida pelas leis que regulam o mercado de transferências.

A FIFA deu razão ao FC Porto e impediu a inscrição do jogador, que só depois de ter completado 16 anos se estreou no futebol croata, mas já ao serviço do Dínamo Zagreb, que o contratou em fevereiro do ano passado.

Em entrevista à publicação alemã Kicker, André Villas-Boas continua a defender que «a transferência de Cardoso (Varela) para um clube amador da Croácia teve, no fundo, dois objetivos: afastá-lo do FC Porto sem que o clube tivesse direito a qualquer compensação financeira para o colocar o mais rapidamente possível noutro grande clube, provavelmente numa das cinco principais ligas».

O presidente dos dragões reforça a ideia de que «um jovem jogador deixar um clube como o FC Porto para ir para um clube amador na Croácia, sem historial e sem condições adequadas, é, no mínimo, muito estranho». Essa situação dá força à convicção de que se trataria de «uma “transferência ponte”, razão pela qual a FIFA inicialmente recusou autorizar a transferência internacional do menor».

«A partir do momento em que o jovem fez 16 anos, já nada podíamos fazer. Ainda assim, consideramos importante denunciar estas práticas», salientou o líder do clube portista, «para evitar que elas se repitam». «Vemos cada vez mais pessoas movidas pelo lucro financeiro a prejudicar carreiras de jovens e a destruir sonhos», acrescentou.

Confrontado com a possibilidade de o Barcelona vir a contratar Cardoso Varela, hipótese que foi avançada recentemente, André Villas-Boas revelou que «pelas conversas com Deco, uma lenda do nosso clube, isso não corresponde à verdade».

O presidente dos dragões salientou que, «tal como Rodrigo Mora, (Cardoso) Varela poderia já estar na equipa principal do FC Porto», e explicou o porquê de o contrato de formação que estava preparado para Cardoso Varela incluir uma cláusula de três milhões de euros.

«Não se pode esquecer que os clubes formam centenas de jogadores e investem muito neles, mas apenas alguns chegam ao profissionalismo. Para clubes fora das cinco principais ligas (europeias), é essencial obter receitas de transferências dos jogadores formados para continuarem a investir na formação. O problema é que os clubes formadores não estão suficientemente protegidos para recuperar esse investimento», justificou.

Considerando que existe um abuso sistemático do sistema de formação por parte de alguns agentes e clubes, Villas-Boas deu a Federação Argentina de Futebol como exemplo de combate a essa realidade.

«A federação argentina criou recentemente um precedente interessante: jogadores menores que se transferem para o estrangeiro sem o consentimento do clube formador não podem representar a seleção. Medidas assim fazem diferença e ajudam a combater a ganância de alguns agentes», acredita.