Rúben Góis estreou-se pela Seleção nacional de futsal em grandes competições com números de respeito. Foi um dos melhores marcadores de Portugal no último Campeonato da Europa, tendo apenas faltado o título de campeão para tudo ter sido perfeito.
Das conversas com Zicky à mensagem de quem o deixou outra vez pronto para a “guerra”, o pivot desfia as memórias de Ljubljana e explica o que é, afinal, «ser Portugal» em campo.
LEIA MAIS:
PARTE II - Rúben Góis superou calvário de lesões e confessa: «Pensei em desistir»
PARTE III - Rúben Góis jogou futebol no FC Porto mas «o futsal foi amor à primeira vista»
Mais de um mês depois de o Europeu ter terminado, que memórias ainda lhe vêm à cabeça do torneio?
A final, principalmente. Foi um jogo menos conseguido da nossa parte. Acabámos por ser vice-campeões (da Europa), mas tirámos boas ilações. Estivemos bem nos outros jogos, todos eles muito competitivos. Acabámos por perder na final e fica aquele amargo de boca, porque queríamos ter conseguido o mais importante, que era vencer o Campeonato da Europa. Não conseguimos, mas as coisas surgiram da maneira que tinham de surgir. Apesar de termos perdido a final, houve partes positivas que pudemos tirar.
Foi a sua estreia em grandes competições pela Seleção. A experiência foi tudo aquilo que imaginou?
Foi um sonho tornado realidade. Sonhava com isso há muito tempo, mas nunca pensei que acontecesse tão rápido. Felizmente, aconteceu. Foi a cereja no topo do bolo. Mesmo não tendo vencido (o Europeu), para mim já era uma conquista só por estar lá a competir com eles. Representar Portugal num Campeonato da Europa foi muito bom e quero dar continuidade ao processo.
Nesta sua primeira vez, houve algum momento mais marcante, para lá dos jogos?
Acabei por me habituar mais ou menos àquilo porque estou com eles na Seleção desde o início desta época, quando fui chamado pela primeira vez. Os estágios são muito idênticos. Os jogadores já se conhecem e isso torna tudo mais natural. Ainda assim, o estágio da Eslovénia foi diferente porque estávamos numa competição muito importante, da qual Portugal era bicampeão. É sempre diferente representar o país dessa forma, mas foi tudo surgindo naturalmente.
Como recebeu a notícia da convocatória para o Europeu?
Estava em casa há três dias, doente, com uma virose. Foi o meu treinador (no Rio Ave, Bruno Guimarães) quem me ligou a avisar da notícia. Foi numa quinta-feira e eles (os jogadores da Seleção nacional) já estavam em estágio, que tinha começado na segunda. Estava na cama, não treinava há três dias no clube, e o meu mister, que me ligava todos os dias, perguntou-me se eu estava melhor. Disse-lhe que estava relativamente igual, que tinha melhorado muito pouco, e ele disse-me que eu tinha de ficar pronto porque o mister (Jorge) Braz lhe tinha ligado a dizer que eu tinha sido convocado (para o Europeu). Perguntei-lhe se ele estava a brincar comigo, nunca pensei que me tivesse ligado para contar aquilo. Nem sabia o que fazer. Estava deitado e levantei-me logo, já me tinha passado tudo. Foi um dia muito especial para mim e para a minha família. Entretanto fui à sala, avisei os meus pais, mas nem conseguia falar direito. Foi um momento diferente em todos os sentidos. Foi mesmo muito especial.
O Zicky Té não pôde jogar o Europeu devido a lesão. Pediu-lhe algumas dicas?
Eu e o Zicky temos uma ligação muito forte, desde as seleções jovens. Somos da mesma posição e ele é meu amigo pessoal. Tenho uma admiração muito grande por ele, enquanto pessoa e, como é lógico, jogador. Ele dispensa apresentações. Falámos muitas vezes. Ele foi ver um jogo de preparação, com a Bósnia, e perguntei-lhe como estava a situação dele. Disse-me que estava a melhorar e ainda bem que já está a jogar. É isso que todos queremos porque é um jogador incrível, que faz falta tanto ao clube dele como à nossa Seleção. Também falámos um bocado antes da final, fomos sempre trocando algumas palavras.
Com quatro golos apontados, o Rúben foi um dos melhores marcadores de Portugal no Europeu, a par do Diogo Santos e do Pany Varela. Consegue escolher o mais importante?
Todos são importantes, mas escolho o primeiro e o último. O primeiro porque me estreei a marcar num Europeu, frente à Itália, o último por ter sido na final. Embora não tivéssemos conseguido ganhar, pensei que aquele golo podia ser um ponto de viragem porque estávamos a perder 2-1 e eu fiz o 2-2. Fazer um golo na final, com o pavilhão cheio, foi especial, também porque estava lá a minha família toda.
Das mensagens que recebeu ao longo do Europeu, alguma ficou-lhe na memória?
Fui recebendo muitas, de muita gente. Não sou muito de ligar a essas coisas, mas houve uma que me marcou muito. Foi do último médico que me operou o joelho, o dr. Noronha, que também é o médico da Seleção. Ele deixou-me uma mensagem que me comoveu um bocado. Deu-me os parabéns por estar ali e eu agradeci-lhe por me ter ajudado quando eu mais precisava. Foi ele que me meteu outra vez pronto para a “guerra”.
Só faltou o título para tudo ter sido perfeito. Já conseguiu perceber o que falhou na final?
Foi, se calhar, finalizarmos mais na baliza, sermos mais objetivos. Uma final é sempre difícil de gerir porque é um momento muito intenso. O que faltou mais foi, se calhar, sermos Portugal, como fomos durante o Europeu todo. Na final, faltou um pouco isso, embora ache que o jogo poderia perfeitamente ter caído para qualquer um dos lados. Infelizmente, deu para o lado da Espanha. Mas também temos coisas muito boas para tirar, tanto do Europeu como desse jogo. Agora temos de nos unir todos, dar continuidade ao processo e continuar a ser Portugal ao mais alto nível.
O selecionador nacional, Jorge Braz, foi repetindo a ideia de que lhe estava a dar um grande gozo liderar a equipa no Europeu. O que é que ele queria dizer com isso?
O mister Braz tem uma maneira de ver o futsal que é completamente diferente da dos outros treinadores. O gozo de que ele tanto fala é o de estarmos a ser Portugal, que é o que ele mais nos pede, em todos os treinos, estágios e jogos. E sermos Portugal é sermos nós próprios, darmos o nosso melhor, aproveitar o que cada um é forte a fazer e juntar isso tudo numa só equipa. Foi a isso que ele se foi referindo ao longo do campeonato.
E o que é que ele lhe disse depois do Europeu?
Disse-me que estive bem e que não é por termos perdido que temos de deitar tudo a perder, tiramos sempre coisas boas. Deu-me boas indicações daquilo que eu fiz e tem sido incrível trabalhar com ele. Ele deixa qualquer jogador que passe na Seleção confortável.
A sua revista digital