O calvário das lesões levou Rúben Góis a questionar-se sobre se valeria a pena continuar a sofrer no futsal. A alma guerreira não o deixou cair e, hoje, é procurado por quem enfrenta o terror de uma lesão grave em busca de um conselho sobre como o superar.

Fá-lo enquanto ajuda o Rio Ave a dar nas vistas no ano de regresso à Liga, uma espécie de recompensa pela reabilitação que viveu em Vila do Conde, onde voltou a ser feliz na “quadra”.

Já há até rumores que apontam a um possível regresso ao Benfica, mas isso só será tema mais lá para o verão. Para já, o Rio Ave capta-lhe toda a atenção, com o play-off da Liga em ponto de mira.

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Entretanto, regressou a Liga portuguesa. Como é que se explica a grande campanha do Rio Ave no ano em que voltou ao convívio dos grandes do futsal nacional?

Temos um grupo de trabalho incrível. Conseguimos juntar um grupo de homens sérios para trabalhar e tudo o que o Rio Ave merece é estar ao mais alto nível. Merecemos muito estar aqui, não só pela época que fizemos no ano passado, mas por tudo o que o Rio Ave faz e pelas condições que nos proporciona para podermos ser melhores todos os dias. O Rio Ave tem vindo a melhorar muito de há uns anos para cá e o que se destaca na nossa equipa é a entrega e o querer de todos. Embora seja um ano de adaptação, porque o Rio Ave está de volta à Liga, queremos muito a manutenção, como é lógico, mas também um pouco mais, sem nos colocarmos em “bicos de pés” e conscientes do que podemos fazer melhor. Temos de dar continuidade a uma época incrível. Acho que temos ainda mais para dar.

Esse «mais para dar» passa por atingir o play-off da Liga?

Sem dúvida. Neste momento, o nosso pensamento é esse. Espero que possamos conseguir esse grande objetivo.

Subiu com a equipa à Liga, na época passada. Aí, já dava para perceber que o clube estava preparado para o nível competitivo que encontrou este ano?

No ano passado, cheguei cá num momento difícil da minha carreira. Não de saúde, felizmente, mas psicologicamente. Não estava bem e tinha de procurar o clube ideal para aquele momento. Pensei sempre que esse clube seria o Rio Ave e, felizmente, as coisas começaram a fluir bem. Fui recebido de braços abertos. O Rio Ave vai ser sempre um clube muito especial para mim. Desde que cá cheguei, a mensagem era a de chegarmos à I Divisão. Assim o conseguiu com a ajuda de toda a gente que por cá passa. Subirmos foi a cereja no topo do bolo, e mais ainda a época bem-conseguida que estamos a fazer.

Disse que chegou ao Rio Ave numa fase difícil da carreira em termos psicológicos. Faltava-lhe tempo de jogo, era isso?

Precisava de jogar. Na altura estava com poucos minutos, quase nenhuns, e qualquer jogador com 22 ou 23 anos, na flor da idade, quer jogar. Quando pedi para sair (do Leões de Porto Salvo), muita gente disse que eu estava a dar um passo atrás por sair do quarto classificado da I Divisão para jogar na II Divisão. Na minha cabeça, vir para o Rio Ave nunca foi um passo atrás, mas sim um à frente, e grande. Tudo o que conquistei aqui até agora confirma o que sempre pensei antes de vir para cá, tem sido incrível trabalhar aqui. O Rio Ave merece estar onde está e espero que aí continue durante muitos anos.

O Rio Ave é um dos melhores ataques da Liga. É sinal de uma equipa corajosa em campo?

Temos uma equipa de homens, que gosta de trabalhar, em que toda a gente quer e lutou muito para estar aqui. Somos uma equipa corajosa, “à Rio Ave”, porque queremos muito tudo: ganhar, pontuar. E isso conquista-se diariamente, em cada treino, com toda a gente a remar para o mesmo lado. No final, o Rio Ave tem de ganhar. É isso que é mais importante.

E a nível individual, como lhe têm saído as coisas?

O meu objetivo é sempre conseguir mais e melhor, nunca vou estar satisfeito. Fui obrigado a ser uma pessoa que quer sempre mais. Se faço um golo, quero marcar dois. A vida de um atleta profissional é assim, temos de querer sempre mais. A época está a correr bem, mas só o Rio Ave estando bem é que eu consigo estar bem. E isso é meio caminho andado para as coisas saírem melhor.

Uma época como a que está a viver pode ser vista como uma espécie de recompensa, depois de tudo o que teve de superar até aqui?

Estou a viver, sem dúvida, a melhor fase da minha vida. Estar com o Rio Ave no mais alto nível fez com que chegasse à Seleção e, assim, pudesse cumprir um sonho de criança. Espero que continue assim durante muito tempo. Estou muito feliz com o que tenho vindo a fazer, mas vou querer sempre mais.

Olhando para trás, como recorda o período difícil de três anos em que praticamente não jogou devido a lesões?

O que prevaleceu aí foi a minha força interior e a que a minha família me foi dando diariamente. Tinha uma chama dentro de mim, que me dizia que podia ainda chegar ao mais alto nível, embora tenha pensado muitas vezes em desistir e deixar de jogar. Mas eu tinha alguma coisa dentro de mim que me dizia que não, que as coisas iam mudar e o jogo ia virar. Foi sobretudo essa chama e os meus pais e o meu irmão, que nunca me deixaram cair. Quando eu duvidava, eles acreditavam, puxavam-me para cima. Na minha cabeça, tinha de superar, continuar a trabalhar e focar-me no que podia controlar, que naquele momento era a recuperação.

Hoje, é procurado por jogadores que também têm de lidar com lesões graves?

Há muita gente que me procura porque sabe o que passei, o calvário que foi. São amigos e muitas pessoas de fora, até jogadoras, que me perguntam como é que superei tudo aquilo, como foi lidar com a lesão e, depois, voltar. Tento sempre ajudar no que consigo. Tento fazer com que levantem a cabeça e digo-lhes que uma lesão não nos pode impedir de nada.

Aos 24 anos, e depois de um trajeto tão duro, sente que tudo é ainda possível no futuro?

Gosto de viver o meu dia a dia, não de pensar muito à frente. Como já disse, nem sequer pensava estar onde estou neste momento. Foi por fazer o meu trabalho diariamente que as coisas começaram a aparecer. Penso no que posso controlar e em evoluir todos os dias, porque é isso que vai fazer com que tudo seja possível daqui para a frente.

Já se fala até num possível regresso ao Benfica, na próxima época. Vai ser esse o próximo passo na sua carreira?

Neste momento, as coisas estão a correr-me bem e pode-se dizer muita coisa, mas estou muito focado no Rio Ave. Como é lógico, todos os jogadores querem dar o passo para um clube como o Benfica, um clube gigante, e eu não fujo à regra. Sou como todos os atletas, que são profissionais e querem tentar fazer disto, vida. Trabalhamos diariamente para esses voos. Se esse for o próximo passo, vamos ver. Mas neste momento estou 100 por cento focado no Rio Ave até ao final desta época.

Emigrar é também uma possibilidade?

Gosto muito da Liga espanhola, as de Itália e da Polónia estão a crescer muito também, mas não penso muito nessa possível ida para fora. O futuro só a Deus pertence.