Aldair, 53 anos, antigo jogador do Benfica e da AS Roma. Um ano na Luz, 13 na Cidade Eterna, com 81 jogos e três golos pela seleção do Brasil lá pelo meio. Não é para qualquer um, não senhor. 

O Maisfutebol apanha-o em Vitória, estado do Espírito Santo, numa das muitas viagens que faz entre o Brasil e o seu país adotivo, a Itália. 

Central talentoso, com uma frieza desconcertante, Aldair deixou marca forte e profundamente vincada no adversário de terça-feira do FC Porto. É, aliás, o quinto futebolista com mais jogos oficiais pela AS Roma, só atrás de Francesco Totti, Daniele De Rossi, Giacomo Losi e Giuseppe Giannini.

Oportunidade única, então, para escutar quem melhor conhece a formação italiana.

PARTE 2: «Fui o melhor negócio que o Benfica podia ter»

Maisfutebol – O Aldair jogou 13 anos na Roma e o seu número de telefone é italiano. Continua a viver em Itália?Aldair – Tenho casa no Brasil, no Estado do Espírito Santo, a norte do Rio de Janeiro. Mas mantenho casa também nos arredores de Roma e passo a maior parte do tempo por lá. Nesta altura, curiosamente, estou no Brasil.

MF – Então não assistirá ao vivo ao Roma-FC Porto?

A – Não sei se chegarei a tempo. O jogo é na terça? Vai ser muito apertado. Vou muitas vezes ao Olímpico, mas este jogo se calhar vou ter de falhar.

MF – Conhece como ninguém o clube e esta equipa romana. O que falta à Roma para conquistar mais títulos?

A – O clube tem passado por muitas mudanças, tanto na direção como na estrutura do futebol. E isso não ajuda nada. Creio que as coisas melhoraram nos últimos anos, mas a forma de pensar ainda não é suficientemente ambiciosa. Não posso dizer que a Roma tem a dimensão europeia de outros gigantes, como o Barcelona ou o Real Madrid, porque lhe faltam títulos nacionais e mais presenças na Liga dos Campeões.

MF – Em 13 temporadas na Roma, o Aldair só venceu o campeonato de 2000/01. Isso demonstra a falta de consistência do clube?

A – Precisamente. Tivemos boas equipas, excelentes jogadores, mas a mentalidade não era suficientemente conquistadora. Nas minhas últimas quatro temporadas, ali entre 1999 e 2003, senti o clube a mudar, a crescer. Tivemos equipas fantásticas. Basta falar do Batistuta, do Totti, do Walter Samuel, do Montella… o potencial era gigantesco e o título de 2000/01 foi o corolário de todas essas grandes equipas romanas.

MF – Falou agora do Totti. O que mudou na Roma depois de ele deixar de jogar?

A – Ainda me é difícil ver a Roma a jogar e não ter o Francesco em campo. Ele nasceu e cresceu com o clube, esteve sempre ao meu lado no balneário. Posso dizer que ele foi ao limite das capacidades físicas, nos últimos tempos de jogador já treinava com limitações. O clube continua e todos sabem que o Francesco Totti será, no futuro, um dirigente de grande importância no clube. Nesta altura ainda não tem grandes poderes, mas está a aprender. É muito inteligente e ficará para sempre ligado à AS Roma.

MF – Voltemos ao Aldair. A sua ligação à Roma foi tão grande que o clube decidiu deixar de usar a sua camisola 6.A – Mas eu discordei sempre disso. Há vários nomes mais importantes do que eu na história da Roma. Ainda bem que o clube voltou atrás e a camisola 6 está aí de novo. Acho que foi com a contratação daquele rapaz holandês [Strootman, em 2013]. Adoro a Roma, tive uma ligação fantástica ao clube, mas não queria ver a minha camisola de fora. Prefiro vê-la lá no relvado. O pessoal do clube ligou-me a pedir autorização para utilizar novamente o número 6 e disse logo que sim. A Roma teve heróis como o Bruno Conti, o Falcão, o Giannini e nunca reformou os números deles.

VÍDEO: imagens de Aldair na AS Roma

MF – O que torna a diferença entre a Juventus e os outros clubes tão grande?A – O vício de ganhar, a estabilidade diretiva, a organização. Três coisas aparentemente simples. Não é à toa que a Juventus é campeã há sete anos seguidos e se calhar vai ser este ano outra vez.

MF – Com o Cristiano Ronaldo ficou ainda mais forte?

A – Claro, sem dúvida. Acredito mesmo que com o Cristiano a Juventus pode vencer finalmente a Liga dos Campeões. A mentalidade no Norte de Itália é essa, sempre muito ambiciosa. Em Turim e em Milão. Em Roma, se calhar, perdemos demasiado tempo a pensar na rivalidade com a Lazio. O clube tem de olhar para a Juventus e motivar-se com os resultados desse adversário para se chegar perto.

MF – Pela forma que fala, parece que não está otimista para a eliminatória contra o FC Porto.

A – Amo a Roma, sinto-me romano, mas o FC Porto é mais forte e está mais habituado a este tipo de duelos. O jogo no Olímpico de Roma vai dar-me mais luzes sobre a Roma na Liga dos Campeões. A equipa ainda está a tentar recuperar dos 7-1 sofridos em Florença para a taça, mas já gostei mais do que vi no empate contra o Milan [a entrevista foi feita antes da vitória em Verona].

MF – É verdade que em Itália começaram a tratar o Aldair por Pluto?

A – Parece que sim (risos). Alguém se lembrou que eu era parecido com a personagem da Disney e isso pegou. Enfim, não me importo. Sempre fui muito tranquilo, detesto chatear-me com alguém e deixei isso andar.