1978. Portugal deslocava-se ainda ao ritmo dos ventos quentes da revolução de Abril, agitando-se em alterações sociais e políticas procuradas sem muita ordem. O país acordava todos os dias livre e feliz por poder gritar uma desorganização que fez história. Chamaram-lhe PREC. Eram os loucos anos setenta, das calças à boca de sino e das camisas de enormes colarinhos. O retrato de um país que encontrava, nas palavras de Octávio Machado, um reflexo fiel no balneário nas Antas.
Conta o antigo jogador do F.C. Porto que o clube «era uma desorganização». Mais. «Era um grupo de meninos mimados» que «não ganhavam nada e sentiam-se muito importantes». Vivia-se os longos dezanove anos sem conhecer o travo doce de um título. Até ao dia em que sob a liderança de José Maria Pedroto a história fez a curva. Curiosamente foi num clássico com o Benfica disputado no estádio das Antas que o clube garantiu a conquista do título. «Foi um jogo dramático. Começámos a perder com um auto-golo do Simões. Logo depois o Humberto Coelho isola-se e atira à barra. Já perto do fim conseguimos empatar num golo do Ademir».
O encontro terminou em empate, o F.C. Porto mantinha os dois pontos de vantagem sobre o Benfica e partia para as duas últimas jornadas com a certeza de que um desastre seria curto para lhe roubar o título nacional dezanove anos depois. «Fomos empatar a Coimbra e goleámos o Braga em casa na última jornada. Quebrámos um jejum que se perpetuava há quase duas épocas», adianta Octávio. «Foi um jogo que há-de ficar para sempre na história do clube. O jogo da viragem. O jogo que colocou um ponto final na dinâmica de derrota reinante no clube». A festa, essa, foi inesquecível, diz. «Foi como tirar a rolha a um espumante bom».
O mito da ponte
Octávio revela que o longo tempo sem triunfar tinha um culpado, o próprio clube. «O F.C. Porto não estava habituado a ganhar. Era um clube de maus profissionais. Homens que se alimentavam das derrotas», diz. «Depois chegou o Zé do Boné e colocou ordem naquilo. Disse claramente que quem queria entrar nos eixos que entrasse e quem não queria que fosse embora. Virou tudo do avesso». E quebrou um mito: o mito da ponte. «Falava-se muito da ponte, do medo de passar a ponte, do medo de entrar a perder sempre que se tinha de se passar a ponte por cima do rio Douro». Tudo infantilidades, adianta. «Eu até dizia que o mito da ponte servia para desculpar tudo, principalmente o mau profissionalismo». Dia 28 de Maio a ponte caiu. «Após esse jogo morreu o mito».