Delfim está em Portugal desde Outubro de 2003 a recuperar de uma complicada operação à coluna. As muitas lesões que teve ao longo da carreira são «insignificantes comparadas com este tipo de lesão», diz. O inferno começou mesmo a 2 de Agosto de 2002, com um sono mal dormido, no autocarro, na viagem de Marselha até Lyon. 380 quilómetros que marcaram a carreira de Delfim. Desde esse dia multiplicaram-se as anestesias, as idas a salas de operações, as consultas, os diagnósticos contraditórios. Foi operado, como faz questão de dizer nesta entrevista ao Maisfutebol, «a supostas hérnias inguinais». E quando é que foram? Delfim sabe de cor, bem de cor, as datas da sua trágica história. «Foram feitas três operações em três meses, em Estrasburgo. A 24 de Outubro de 2002, a 14 de Janeiro de 2003 e 24 de Janeiro de 2003. Continuando sempre com dores», confessa com a tristeza estampada no rosto.

As dores arrastaram-se por meses a fio. A última vez que entrou numa sala de operações foi no dia 29 de Julho de 2003. Neste dia o motivo foi outro. Foi operado à coluna para fazer «uma fixação vertebral das vértebras L5 e S1». Os termos técnicos pouco interessam mas, Delfim sabe-os na ponta da língua.

Desde 3 de Agosto de 2002 que não sabe o que é jogar futebol, mas mais do que isso, desde 29 de Julho de 2003 que não sabe o que é fazer uma vida normal. Vive limitado. Vive em dor permanente e impedido de fazer o que tanto sonha: pegar os filhos ao colo. Quando o vai poder fazer não sabe. Apenas sabe que a vinda para Portugal em Outubro lhe deu nova esperança. Diariamente recupera na clínica FisioGaspar com António Gaspar, fisioterapeuta da Selecção Nacional e ex-fisioterapeuta do Benfica. Foi lá que falou abertamente ao Maisfutebol, num entrevista onde revela tudo. Ou melhor, quase tudo. Há coisas que só nos tribunais serão divulgadas.

Maisfutebol - Por que é que decidiu vir recuperar em Portugal?

Delfim - Após 16/18 meses em França achei por bem mudar de ares, tendo em conta tudo aquilo porque passei em Marselha. Vim por desacreditar na competência do Chefe do Departamento Médico do Olympique de Marselha.

MF - O Marselha aceitou bem a sua decisão?

D - Não muito bem mas não tiveram outra solução se não deixar-me vir para Portugal, com autorização prévia. Era ponto assente que a prioridade era recuperar em Portugal e logicamente eu não iria sair de França sem a autorização do Marselha.

MF - O Marselha soube que o Delfim queria vir para Portugal por não ter confiança no Departamento Médico do clube?

D - Fui frontal para com o presidente do Marselha e disse-lhe que desacreditava por completo nas capacidades do Chefe do Departamento Médico do clube, que já teve tempo mais que suficiente para me recuperar ou para ser frontal ao ponto de me dizer que não tinha capacidades ou condições para o fazer. Estar em Portugal junto da minha família e dos meus amigos, ajudar-me-ia imenso do ponto de vista psicológico nesta minha nova recuperação.

MF - Por que escolheu recuperar com o fisioterapeuta António Gaspar?

D - Eu não conhecia muito bem o António Gaspar. Já tinha trabalhado com ele uma vez na selecção principal e as referências de colegas meus, que já tinham trabalhado com eles, foram excelentes. O simples facto dele não estar ligado a nenhum clube, ter um espaço seu que se enquadra com o tipo de recuperação que necessitava, foi fundamental. Optei e estou contente.

MF - Nesta nova etapa dessa longa recuperação o que é que lhe foi dito? Com que objectivo está aqui?

D - Não foi dito. Eu é que disse e quis deixar bem patente que em nada o António Gaspar estava na obrigação de fazer o que quer que fosse em termos de me recuperar como profissional. Isso não era justo da minha parte pedi-lo e tão pouco eu o sentia. Debatemos única e simplesmente a possibilidade e prioridade de recuperar o homem, a integridade física, o perder a dor diária que me acompanhava há muitos meses.

MF - Quanto tempo mais vai demorar a recuperação?

D - A operação foi delicada. Os timings do neurocirurgião que me operou, e de outros que consultei, apontam para que antes dos 6-9 meses será prematuro exercer qualquer tipo de esforço excessivo. Tenho que evitar grandes esforços e rotações da coluna. Não faço ideia quanto mais tempo vou estar aqui.

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