A 'World Cup Experts Network' reúne órgãos de comunicação social de vários pontos do planeta para lhe apresentar a melhor informação sobre as 32 seleções que vão disputar o Campeonato do Mundo. O Maisfutebol representa Portugal nesta iniciativa do prestigiado jornal Guardian:

Autor dos textos: Arthur Wandji  

Parceiro oficial nos Camarões: Camfoot

Revisão: Vítor Hugo Alvarenga

Não é fácil adivinhar as intenções de um selecionador mas é provável que Volker Finke utilize o habitual 4-3-3 durante o Campeonato do Mundo, recorrendo aos jogadores que estejam em melhor forma.

Os Camarões não chegam ao torneio da mesma forma em que 1990, quando foram a primeira nação africana a atingir os quartos-de-final. Os tempos mudaram, assim como o futebol e mesmo as expectativas. E no entanto, o atual grupo é estranhamente parecido ao de Roger Milla e companhia, já que tem a mesma determinação, capacidade de combate e desejo de fazer história. Estes são os atributos que Finke tem desenvolvido para tentar que a seleção passe a fase de grupos.

Desde que assumiu o cargo em maio de 2013, Fink privilegiou o 4-3-3, embora tenha experimentado ocasionalmente um 4-4-2 e mesmo um 4-1-3-2. Os jogadores variam com frequência mas é possível determinar alguns titulares.

Charles Itandje deverá ser o guardião das redes no Brasil, após uma boa temporada a nível internacional e no seu clube, o Konyaspor da Turquia, onde sofreu 45 golos em 33 jogos. Nicolas N’Koulou e Aurélien Chedjou são as hipóteses mais fortes para o centro da defesa, não obstante as épocas modestas nos clubes. Na esquerda, Henri Bédimo pode afastar Benoit Assou-Ekotto após uma excelente campanha no Ol. Lyon. Para além do rigor defensivo, demonstrou ser uma ameaça nas incursões ofensivas, terminando a época com um golo e oito assistências. Allan Nyom é o principal candidato à direita, perante a concorrência de Gaetan Bong e Dany Nounkeu.

No meio-campo há poucas certezas, mas Stéphane Mbia está bem cotado para a posição mais defensiva após uma temporada soberba no Sevilha. Ao seu lado estarão jogadores com maior mobilidade como Enoh Eyong, Jean II Makoun ou Alex Song do FC Barcelona. Salli Edgar, que foi determinante na subida de divisão do Lens, também luta por estas funções.

As principais armas dos Camarões, ainda assim, estarão na frente de ataque. Samuel Etoo, o capitão, deve liderar o ataque, embora a sua recente crise de golos seja uma preocupação. Vicente Aboubakar jogará na direita e recai sobre si uma enorme dose de esperança. O jogador brilhou na derrota frente a Portugal (5-1), comprovando a excelente forma demonstrada ao longo da época no FC Lorient. Surgem mais dúvidas à esquerda, onde Fink terá de escolher entre dois jogadores com caraterísticas semelhantes: Eric-Maxim Choupo-Moting e Pierre Wébo, que se lesionou e está em risco.

Que jogador pode surpreender no Campeonato do Mundo?

A revelação dos Camarões pode ser Stéphane Mbia, se estiver a cem por cento. Depois de uma passagem agridoce pelos Queen Park Rangers, o médio teve uma época fantástica no Sevilha, onde demonstrar uma qualidade técnica e um poder físico não antes vistos. Acredito que será um elemento crucial para os Camarões.

E que jogador pode desiludir as pessoas no torneio?

Temo que possa ser mesmo Samuel Etoo. É a estrela da Seleção mas não está em grande forma há algum tempo. Não é o mesmo jogador que em 2006 ou em 2010. Continua a ser o capitão e exerce uma tremenda influência no grupo, seja ela positiva ou negativa. Se os Camarões falharem, será ele o principal visado.

Qual é a expetativa real para a seleção no Mundial?

Não é fácil prever o que quer que seja em torno desta Seleção, já que os últimos quatro anos foram abismais, com ocasionais picos. Chegar à segunda fase não é impossível e os jogadores estão altamente motivados. Estão desejosos de colocar o passado recente, bastante caótico, para trás das costas. Brasil, Mexico e Croácia são grandes adversários mas não encarem os Camarões como ‘outsiders’.  

Curiosidades e segredos da seleção 

Alexandre Song

Em maio de 2013, Alex Song estava a celebrar o título espanhol - na sua primeira época no Barcelona – com um boxe amigável a par de Gerard Piqué no autocarro da equipa. Foi um escândalo nos jornais, considerando que o jogador estava a lutar com os companheiros de equipa. Afnal, não era nada disso. Era apenas uma brincadeira entre amigos.

Vincent Aboubakar

Vincent destacou-se com um golo soberbo na derrota frente a Portugal (1-5) em março e fez mais que isso: fez questão de celebrar o tento da mesma forma que Cristiano Ronaldo. Será que ele se estava a comparar ao vencedor da Bola de Ouro? Talvez. Foi um grande golo, isso é seguro. E não duvidem que ele possa fazer o mesmo no Mundial.

Jean-Armel Kana-Biyik

Após a vitória do Rennes por 2-1 frente ao Paris Saint-Germain na época passada, Jean-Armel Kana-Biyik foi suspenso perventivamente pelo seu clube por «tentar lutar com os adeptos do Rennes». Um grupo de adeptos do Roazhon Celtic Kop (RCK) proferiu insultos no parque de estacionamento e o jogador saiu do seu carro para os desafiar para uma luta. Desde então, é conhecido como ‘bad boy’. Jean-Armel Kana Biyik é sobrinho de Francois Omam-Biyik, o avançado que marcou o golo da vitória dos Camarões frente a Argentina no Mundial de 1990.

Landry Nguemo

O médio do Bordéus é um amante de pássaros e tem uma águia chamada ‘Mr George’ em homenagem a George Weah.

Perfil de uma figura da seleção: Vincent Aboubakar

Samuel Etoo é claramente a estrela da seleção dos Camarões. Têm uma grande experiência em Campeonatos do Mundo e vários títulos: foi campeão africano por duas vezes, venceu quatro Liga dos Campeões, é o melhor marcador de sempre na história da CAN, etc. Os olhos de milhões de adeptos estarão a segui-lo. Mas o homem que traz maior esperança aos camaroneses é outro: Vincent Aboubakar.

O avançado de 22 anos nunca foi campeão em África, nunca venceu a Liga dos Campeõs nem sequer a Liga de França, onde representa o FC Lorient. Mas ele começa a assumir-se como um grande nome no futebol camaronês. Vincent já era conhecido no país, pois era a estrela do Cotonsport Garoua e foi o único jogador do campeonato local a ser chamado para o Mundial de 2010.

Ele não jogou nesse Campeonato do Mundo mas foi contratado logo depois pelo Valenciennes, onde não teve grande impacto ao longo de três temporadas. Entretanto, mudou-se para o Lorient e fez uma época espectacular, levando a que surjam rumores de mais uma transferência, desta vez para um clube mais ‘glamoroso’. Vincent acabou a época como o terceiro melhor marcador da Ligue 1, com 16 golos e 5 assistências em 32 jogos. Ele esteve na ‘short-list’ para o prémio Marc-Vivien Foé, que distingue o melhor jogador africano em França.

Vincent Aboubakar foi uma das razões para o Lorient fugir da zona de descida e terminar na oitava posição da Ligue 1. O avançado tem agora a confiança total do selecionador Volker Finker. Aliás, o técnico anunciou em fevereiro que o jogador estaria garantidamente no avião para o Brasil.

«Ele melhorou bastante a nível de finalização e evoluiu ao longo do ano. A sua velocidade o seu instinto fazem de Aboubakar um jogador muito importante na equipa de Fink. É uma das nossas melhores armas e acho que os nossos adversários sabem disso», disse Henri Manga, um treinador camaronês. O golo magnífico frente a Portugal, no jogo amigável de março, serviu para demonstrar a sua qualidade.