A 'World Cup Experts Network' reúne órgãos de comunicação social de vários pontos do planeta para lhe apresentar a melhor informação sobre as 32 seleções que vão disputar o Campeonato do Mundo. O Maisfutebol representa Portugal nesta iniciativa do prestigiado jornal Guardian. Leia os perfis completos das seleções que participarão no torneio:

Autores dos textos: Kate Cohen e Joe Gorman

Parceiro oficial na Holanda: Guardian Australia

Revisão: Berta Rodrigues

A Austrália está num período de transição, com um novo selecionador e muitos dos jogadores da «geração de ouro» retirados ou não convocados. O novo treinador, Ange Postecoglou, imprimiu a sua própria marca na equipa e no estilo de jogo. Com pouco tempo – a Austrália apenas fez dois jogos desde a nomeação de Postecoglou – a sua principal mudança tem sido injetar sangue novo no cansado núcleo duro da equipa deixada pelo antigo selecionador, Holger Osieck.

Como Osieck antes dele, Postecoglou assentou no sistema 4x2x3x1 como base, mas no estilo e nas opções houve mudanças claras. Uma das maiores críticas durante o consulado de Osieck foi a ideia de um estilo de jogo negativo. Osieck atingiu o objetivo principal, qualificar a equipa para o Campeonato do Mundo, mas assentou a equipa num núcleo experiente e envelhecido, tentando explorar a força de Tim Cahill e/ou Josh Kennedy na frente, com ênfase nos cruzamentos e nas bolas paradas.

Apesar de Cahill e Kennedy continuarem a ser as duas opções de ataque, Postecoglou deu mais fluidez à linha de três jogadores atrás do ponta de lança, com ênfase em jogadores diretos e rápidos para explorar os espaços deixados abertos pelas defesas adversárias. Já mostrou gostar de Tom Rogic, um número 10 excecionalmente talentoso, para ser a opção criativa central. Rogic deve ser flanqueado por dois extremos rápidos, que tentarão ganhar a bola lá atrás e cruzar rapidamente para o número 9.

A lesão prolongada de Robbie Kruse deixou a ala direita à procura de opção, com Mathew Leckie ou Ben Halloran (ambos avançados rápidos) a lutar pelo lugar, enquanto na ala esquerda estará Tommy Oar, outro extremo com muito ritmo.

Mas foi mais atrás que aconteceram as maiores mudanças. Postecoglou é conhecido por descartar jogadores que não encaixam no seu estilo proativo, baseado na posse de bola, e isso ficou de novo demonstrado nas suas escolhas para o Mundial. Mark Schwarzer, 41 anos, e Brett Holman, 30, anunciaram a retirada internacional depois da nomeação de Postecoglou, enquanto o antigo capitão Lucas Neill, 36 anos, e o defesa central Sasa Ognenovski, 35, ficaram fora da convocatória alargada. Eram todos opções regulares com Osieck.

Sem Schwarzer, Neill e Ognenovski, a Austrália perdeu a experiência de 227 internacionalizações e o grosso da defesa usada por Osieck durante a qualificação. O que torna as escolhas defensivas de Postecoglou mais imprevisíveis. Ivan Franjic, 26 anos, que sob o comando de Postecoglou jogava como lateral ofensivo no Brisbane Roar, apareceu como candidato a jogar a lateral-direito, e Postecoglou também chamou defesas centrais que jogam regularmente e se sentem confortáveis a jogar desde trás como Matthew Spiranovic, Curtis Good e Ryan McGowan.

Quando o Campeonato do Mundo começar, não será realista esperar que a equipa consiga pôr em prática o estilo preferido de Postecoglou – a Austrália vai defrontar o Chile, a Holanda e a Espanha, três equipas que vão querer dominar as operações -, deixando a Austrália a ter de jogar predominantemente em contra-ataque. Mas podem esperar um bloco defensivo mais móvel, a corrigir questões tornadas abundantemente óbvias nas derrotas consecutivas por 0-6 frente ao Brasil e França, bem como avançados diretos e rápidos que procurarão desequilibrar as defesas adversárias quando tiverem oportunidade.

Que jogador pode surpreender no Campeonato do Mundo?

Mathew Ryan. Desde que Mark Schwarzer anunciou a retirada, tem havido uma batalha a dois entre Ryan e Mitchell Langerak pela camisola número 1. Enquanto Langerak é o segundo guarda-redes no Borussia Dortmund, Ryan tem jogado regularmente pelo Club Brugge, na Bélgica. O seu grande momento de forma motivou rumores de que despertou o interesse do Real Madrid, e a sua candidatura à titularidade da baliza dos Socceroos somou pontos depois do imprudente cartão vermelho que Langerak viu no início da segunda parte da derrota por 3-4 com o Equador.

E que jogador pode ser uma desilusão?

Tom Rogic. O jogador mais entusiasmante que a Austrália produziu desde Harry Kewell e Mark Viduka, Rogic é um número 10 direto, com forte capacidade de drible, capaz de fazer os adeptos levantarem-se nas bancadas. Agitou a A-League quando jogou nos Central Coast Mariners, e ganhou uma transferência para o Celtic, mas não conseguiu cimentar um lugar no clube escocês e voltou para jogar por empréstimo nos Melbourne Victory, onde se tem debatido com lesões e má forma física. Agora com 21 anos, jogou pouco mais de 50 jogos nos clubes por onde passou, e no entanto carrega nos ombros o peso das expectativas dos adeptos. O seu talento é inquestionável, mas falta-lhe flexibilidade ou experiência para jogar noutra posição que não a número 10 e, se a Austrália tiver que defender durante longos períodos de jogo, terá dificuldades em fazer a sua magia.

Qual é a expectativa realista para a seleção no Mundial?

Cair a lutar. Não será realista esperar que a Austrália passe num grupo que tem a Espanha, a Holanda e o Chile, mas Postecoglou é um treinador com mentalidade ofensiva e disse que quer criar uma equipa «com a qual ninguém queira jogar». Com a Taça da Ásia de 2015 ao virar da esquina, Postecoglou estará a olhar para o futuro e a tentar construir um espírito de equipa que desafie as probabilidades. Com a perspetiva realista de três derrotas pela frente no Mundial, a Austrália não tem nada a perder e pode jogar sem medo, na esperança de provocar uma ou duas surpresas.

Curiosidades e segredos da seleção

Tim Cahill

O rosto mais famoso da Austrália no Brasil esteve perto de nunca jogar pelos Socceroos. Com 14 anos, foi chamado à seleção da Samoa com o irmão, Chris. Homem de família, Cahill explicou mais tarde que era uma boa oportunidade de conseguir uma viagem com as despesas pagas para visitar a avó doente na Samoa. Enquanto Chris Cahill continuou e se tornou capitão da Samoa, Tim iniciou uma batalha legal com a FIFA para jogar pela Austrália.Perdeu a hipótese de ganhar experiência com as seleções jovens da Austrália, mas quando a FIFA mudou as regras de elegibilidade, em 2003, Tim passou a poder representar em teoria cinco seleções diferentes. Felizmente para a Austrália escolheu o país onde nasceu. Por falar em formação, cada um dos clubes da juventude de Cahill reclama agora o seu legado. O Sydney United, clube de base croata nos subúrbios ocidentais de Sydney, mantém batalhas no Twitter com o Sydney Olympic, um clube de base grega um pouco mais a sul, enquanto o Belmore Hercules também aparece de vez em quando a reclamar a sua parte. O Milwall, o primeiro clube de Cahill em Inglaterra, deve ficar confuso a olhar para isto.

Jason Davidson

O pouco conhecido Jason Davidson joga na Holanda pelo Heracles Almelo (depois de já ter passado por Portugal). O seu pai, Alan, também foi um Socceroo, fez parte de várias equipas durante os anos 80 e em 2012 foi nomeado para a melhor seleção australiana de sempre. Não que Jason se tenha sentado à espera de beneficiar da reputação do pai. Com 14 anos foi enviado para um colégio interno de elite em Tóquio – a avó dele é japonesa – especializado em futebol. Como castigo por ter chegado um minuto atrasado ao primeiro treino raparam-lhe o cabelo – a ele e a todos os colegas de equipa. Davidson chorava todos os dias no início da sua mudança para o Japão, mas diz que o ajudou a tornar-se mais forte. «Era o Inferno», disse mais tarde ao jornal Melbourne Age: «Havia tipos a quem os treinadores partiam o nariz ou causavam todo o tipo de lesões. De certo modo, tive sorte.»

Mile Jedinak

É o filho favorito do Werrington Croatia FC e também o único jogador da seleção australiana que joga regularmente a titular pelo seu clube na Premier League. À medida que mais jovens australianos emigram para a Holanda, Alemanha e várias ligas asiáticas, Jedinak está a segurar as pontas para a Austrália no Crystal Palace. Foi uma ascensão improvável. Descartado no início pelos novos clubes da A-League em 2005, Jedinak jogou pelo Sydney United nas ligas de Nova Gales do Sul antes de conseguir um contrato com os Central Coast Mariners em 2006. Na época passada liderou as tabelas da Premier League em faltas e interceções.

Mark Milligan

Com lugar quase garantido no centro do meio-campo no Brasil, Milligan é um de muitos Socceroos que jogam em casa, na A-League. Em 2006, quando tinha feito apenas uma época pelo Sydney FC, «Millsy» foi a surpresa na lista de Guus Hiddink para a Alemanha. Não jogou no Campeonato do Mundo, mas esteve na Taça da Ásia um ano mais tarde. Nessa altura o jogador de 20 anos foi associado ao interesse de Manchester City, FC Porto, Arsenal e Werder Bremen. A mudança para a Europa nunca se materializou e em vez disso Milligan foi para a Ásia, onde jogou no Shanghai Shenhua e no JEF United Chiba. Um terramoto levou-o a voltar de novo para o Melbourne Victory, onde é atualmente o capitão de equipa.

Ange Postecoglou

Todas as atenções estão concentradas em Ange. O primeiro australiano a treinar os Socceroos num Mundial desde Rale Rasic em 1974, Postecoglou tem muito boa imprensa na Austrália. Há sete anos a história era bem diferente, depois de ter sido despedido pela Federação australiana, a seguir a falhar a qualificação para o Mundial sub-20. O Brasil não lhe é estranho, no entanto. Em 2000 levou o seu clube da juventude, o South Melbourne, ao Mundial de clubes. Perdeu com o Vasco da Gama, depois com os mexicanos do Necaxa, depois com o Manchester United e terminou com zero pontos. Catorze anos depois, a equipa de Postecoglou é de novo a menos favorita, mas desta vez vai tentar conseguir melhores resultados. 

Perfil de uma figura da seleção: Matthew Spiranovic

A especulação em torno do futuro de Lucas Neill dominou a discussão à volta dos Socceroos durante meses. Apesar de ser o capitão da seleção e a referência da defesa nos dois últimos Mundiais, Ange Postecoglou não vai levar Neill ao Brasil. 

Com a incumbência de renovar a seleção, Postecoglou tem em Matthew Spiranovic o substituto mais provável para Neill no centro da defesa.

Já se adivinhava há muito. Spiranovic deixou a Austrália cedo, mas aproveitou bem os anos de formação em Victoria. «Venho de um meio croata, cresci rodeado por futebol desde muito pequeno», explica Spiranovic: «A zona de onde venho, Geelong, produziu uma série de bons jogadores e uns quantos Socceroos.»

Foi Ange Postecoglou quem o treinou primeiro nas seleções, tendo-o chamado para o Mundial sub-17 em 2005 e para o campeonato de juniores da Ásia em 2006. É uma relação que pode voltar a dar frutos para a seleção no Brasil.

Spiranovic é um jogador que precisa que o treinador o compreenda. Fora de campo é tranquilo e educado. No campo destaca-se mais pelo toque com bola do que pela força bruta. Há quem tema que não tenha a agressividade esperada, numa cultura que tradicionalmente valoriza mais os lutadores na defesa. Em muitas formas, Spiranovic foge ao padrão.

Em 2007 estreou-se na Bundesliga pelo Nuremberga frente ao Bayern Munique, pela mão de Hans Meyer, mas quando o treinador foi despedido sentiu dificuldades em jogar com regularidade. «Meyer mostrou muita fé em mim, não teve medo de me pôr a jogar mesmo tendo apenas 18 anos. É o mais importante: quando somos jovens precisamos que o treinador acredite em nós», diz Spiranovic.

Outro treinador alemão, Volker Finke, levou-o para os japoneses do Urawa Red Diamonds em 2010, mas quando Finke foi despedido Spiranovic voltou a perder espaço.

Uma mudança de sonho para o Swansea, na Premier League inglesa, ficou sem efeito depois de Brendan  Rodgers ter saído para o Liverpool, e Spiranovic viu-se em vez disso a jogar pelo Al Arabi, nos Emiratos Árabes Unidos. Ouviu algumas críticas pela mudança, mas diz que era a melhor oportunidade para jogar regularmente.

No entanto, depois de muitos anos como emigrante, foi de volta a casa que Spiranovic, agora com 25 anos, encontrou estabilidade. Tem sido uma referência na defesa do Western Sydney Wanderers tanto na A-League como na Liga dos Campeões asiática esta época.

Quando a A-League foi criada, em 2005, um dos objetivos era proporcionar uma alternativa viável de carreira para os australianos emigrados. A repatriação de Spiranovic marca pontos nesse objetivo. Jogou a cada semana na época passada e a paisagem familiar ajudou-o, em vez de o limitar, em ano de Mundial.

O selecionador da Austrália há quatro anos, Pim Verbeek, disse um dia que Spiranovic «talvez fosse um pouco tímido de mais», mas o mantra de Postecoglou é que escolhe boas pessoas, não apenas bons jogadores. 

A Austrália tem um grupo incrivelmente difícil no Brasil, um treinador que nunca foi ao Mundial e muitos jogadores inexperientes. A autoconfiança e a ligação entre o grupo e a equipa técnica serão cruciais.