A 'World Cup Experts Network' reúne órgãos de comunicação social de vários pontos do planeta para lhe apresentar a melhor informação sobre as 32 seleções que vão disputar o Campeonato do Mundo. O Maisfutebol representa Portugal nesta iniciativa do prestigiado jornal Guardian. Leia os perfis completos das seleções que participarão no torneio:

Autores dos textos: Dominic Fifield, Andy Hunter e Barry Glendenning 

Parceiro oficial em Inglaterra: The Guardian

Revisão: Filipe Caetano

Se a expetativa em relação às escolhas de Roy Hodgson para o Campeonato do Mundo já era grande, houve motivos para festejar quando chamou alguns dos jovens talentos que se destacaram recentemente na Premier League, mas restam dúvidas sobre até que ponto podem vir a ser apostas reais durante o torneio.

Espera-se que o plano de jogo seja mais ambicioso do que o aplicado pelo selecionador no Euro 2012, em que foi devidamente amparado pelo trabalho deixado por Fabio Capello. A verdade é que os ingleses continuam a permitir que os adversários mantenham a maioria da posse de bola, apostando mais incisivamente no contra-ataque.

Hodgson tende a evitar responder em público a questões sobre táticas. Na conferência de imprensa em que anunciou a lista de convocados voltou a não se elucidativo sobre o esquema a adotar no primeiro jogo do Mundial, contra a Itália: «Ainda não defini, não tenho de o fazer agora».

É um treinador pragmático, que faz as suas escolhas e abordagens consoante o adversário, mas é seguro dizer que deverá apostar no 4x3x3 ou no 4x2x3x1, a estrutura em voga, com Steven Gerrard a funcionar como âncora no meio-campo. Aposta-se no que poderá acontecer considerando que passou grande parte da época a observar jogadores do Liverpool e do Southampton (que juntos fornecem oito elementos), cuja pressão alta se mostrou tremendamente eficaz.

Ainda assim, talvez seja demasiado ambicioso transpor esta tática para o confronto com os azzurri no calor tropical da Amazónia. «Há vários jogadores móveis, atléticos e mexidos na equipa. Não quero ser citado a dizer que pretendo uma equipa que faça pressão alta, porque vão assumir automaticamente que sempre que o guarda-redes lança o jogo nós vamos logo a voar, subindo a linha defensiva para o meio-campo. Talvez essa não seja a abordagem mais correta, mas será importante fazer pressão e recuperar bolas no miolo do terreno. Isso posso garantir», disse o técnico.

Também existem dúvidas sobre o onze titular. Se Daniel Sturridge jogar no centro, onde costuma ser mais eficaz, será que Wayne Rooney vai assumir o papel de um número 10 com mais profundidade? E se assim for, será que a equipa tem de jogar em 4x2x3x1 com, potencialmente, Adam Lallana num lado e Raheem Sterling no outro? A alternativa é o 4x3x3 com Rooney no meio, enquanto Sturridge ou Danny Welbeck surgem na esquerda, o que deixa espaço para a crítica ao treinador por não usar os jogadores nas suas melhores posições.

Ainda no 4x2x3x1, como fica resolvida a questão do médio centro? Gerrard, o capitão, será a âncora como foi de forma exemplar ao longo da época no Liverpool, mas jogará ao lado do colega de clube Jordan Henderson, que só tem oito internacionalizações? O médio tem-se mostrado mais confortável na posição 6, com Gerrard e Lampard à sua frente, mas colocando-o nessa posição acaba por afetar toda a estrutura da equipa. Estes são dilemas que o treinador terá de confrontar.

A esperança é que coloque os jogadores nas posições em que se destacaram ao nível de clubes. Sturridge deve jogar ao centro, Sterling tem de ter liberdade para criar, Ross Barkey pode saltar do banco para assumir a posição 10, alimentando Rooney. Já muito tem sido pedido aos mais jovens, numa equipa que tem apenas cinco jogadores com experiência de campeonato do mundo, mas seguramente que a melhor abordagem será pedir-lhes para assumir papeis com que se sintam o mais familiarizados possível.

Que jogador vai surpreender neste Mundial?

Para um jogador que brilhou tão intensamente numa competição de alcance global como é a Premier League será difícil «surpreender», mas potencialmente Raheem Sterling pode elevar a sua reputação a outro nível. O adolescente, 19 anos, só tem duas internacionalizações, mas a época no Liverpool foi em constante ascendente, variando do flanco para o centro. «Raheem é um jogador ofensivo, que ataca, cria e trabalha no duro», disse o seu treinador, Brendan Rodgers. «Se lhe derem oportunidade para jogar como gosta, tanto no centro como nas alas, pode vir a ser uma das estrelas do Mundial. Se continuar a ter essa confiança de jogar sem medo, pode ser um jogador muito importante. A chave é se vão realmente pedir-lhe para fazer isso».

Que jogador vai dececionar no Brasil?

Há a usual expetativa em redor de Wayne Rooney, um jogador que só se destacou realmente num grande torneio e já foi há uma década (Euro 2004), mas o receio vai para os jogadores mais jovens. Daniel Sturridge, por exemplo, pode ser prolífico no Liverpool, mas ainda não convenceu na seleção, muito provavelmente porque é sempre colocado nas alas, onde normalmente rende menos, como ficou provado na sua passagem pelo Chelsea.

Qual é a expetativa real para a seleção no Mundial?

O grupo é estranho e tudo dependerá do jogo de abertura com a Itália, em Manaus. Espera-se que consigam o apuramento para a fase seguinte, mas os quartos-de-final já vão saber a triunfo. Tudo o que seja acima disso já excede as expetativas.

Curiosidades e segredos da seleção

Ben Foster

O segundo guarda-redes da Inglaterra é um cozinheiro certificado, que teve a oportunidade de trabalhar no Cafe Rouge do Leamington Spa, em Warwickshire, depois de deixar o liceu. Após ter assinado pelo West Brom, Foster anunciou que pretendia instalar um barbecue em casa, que seria uma espécie de santuário para os seus preparados. «Gosto de paz e calma, é por isso que gosto de cozinhar. Gosto de usar o barbecue no exterior, fecho a porta e tenho 10 minutos de paz e silêncio. Mandei construir uma zona grande em que posso usar o barbecue sem me molhar e fica junto à cozinha. A mulher pode decorar a casa como quiser, desde que eu tenha a minha cozinha e o barbecue. É um abrigo».

Leighton Baines

Apesar de no verão passado ter perdido o amigável de pré-época do Everton com o Blackburn Rovers devido a lesão, Baines viajou sozinho no seu carro para ver o jogo em Ewood Park e pelo caminho ainda deu boleia a dois adeptos. Foi um momento de bondade do qual se terá arrependido, pois os companheiros de viagem estavam demasiado excitados, como demonstrou a filmagem de telemóvel divulgada por um deles.

Rickie Lambert

Libertado pelo Blackpool em novembro de 2000 e a treinar com o Macclesfield Town ainda sem contrato, o atual avançado do Southampton começou a trabalhar numa fábrica de beterrabas no Merseyside, onde ficou com a importante tarefa de colocar as tampas nos frascos, recebendo 20 libras por dia. «Não recebi nada no clube durante quatro ou cinco meses. Foram tempos muito difíceis e por isso comecei a pensar no que poderia fazer fora de campo, mas nunca pensei em deixar de jogar», contou. A sua sorte mudou entretanto e curiosamente recebeu a notícia de que era chamado pela primeira vez à seleção no mesmo dia em que a sua mulher, Amy, deu à luz o terceiro filho do casal.

Frank Lampard

Ao contrário de grande parte dos seus colegas, o médio do Chelsea teve o privilégio de frequentar o ensino privado na Brentwood School, em Essex, onde se destacou tanto nas salas de aula como a jogar futebol e cricket. Tinha nota máxima a várias disciplinas, entre elas o latim, mas nunca teve dúvidas: «Não foi muito difícil tomar a decisão entre o futebol e o Latim».

Adam Lallana

Aos 18 anos apanhou um grande susto quando o departamento médico do Southampton descobriu que tinha um batimento cardíaco irregular e teve de ser operado, o que podia ter acabado com a carreira ainda antes de começar verdadeiramente. «Foi um período negro na minha vida, assustador. Houve um elemento de risco na operação, mas correu tudo bem e hoje sou uma pessoa saudável», contou.

Perfil de uma figura da seleção: Raheem Sterling

Parece estranho, dado o papel que teve na fantástica época do Liverpool, mas há nove meses Sterling estava à beira de se tornar mais um dos talentos ingleses desperdiçados. A reputação do adolescente crescia mais depressa fora do que dentro de campo e não favoravelmente, para além da sua má forma nos primeiros meses da temporada o ter atirado para o banco de suplentes. Mas um conversa com Brendan Rodgers mudou tudo.

Apesar da experiência no trabalho com jogadores jovens, o treinador do Liverpool viu a sua paciência ser testada com Sterling. Acusado de assédio sexual mais do que uma vez, viu os processos serem retirados, mas duas ações em tribunal no espaço de menos de um ano disparou os alarmes no clube. Rodgers deixou um último aviso e Raheem ouviu com respeito.

A resposta do jogador de 19 anos surgiu rapidamente, com o automático afastamento para a cidade costeira de Southport, seguindo os exemplos de Kenny Dalglish e Steven Gerrard. Terá sido um passo curto, mas significativo, na carreira do jogador que viajou para Londres quando tinha seis anos, proveniente de Kingston, na Jamaica. O seu talento cedo sobressaiu, atraindo a atenção de olheiros do Queens Park Rangers, mas o mau comportamento levou-o para um colégio interno. Os problemas continuaram e apesar de ter passado a representar o clube da capital, a sua mãe, Nadine, fez tudo para que o filho saísse de Londres. Cobiçado pelos maiores emblemas, como o Chelsea, o Arsenal o Fulham e o Manchester City, acabou por assinar pelo Liverpool, com a opção geográfica (para além do dinheiro) a assumir um papel importante na decisão.

Aos 15 anos já jogava num grande clube e aos 17 estreava-se na primeira equipa. Com Brendan Rodgers passou a ter o seu próprio espaço e viu o contrato ampliado por mais cinco épocas. O jovem está agora mais maduro e tem procurado melhorar a sua condição física, para além de trabalhar aspetos técnicos que o valorizam, como a eficácia no remate, que nesta temporada resultaram em dez golos. No Liverpool a sua influência em campo é cada vez maior.

É a vez de provar credenciais na seleção e Rodgers está confiante: «Não podemos esquecer que é um jogador com 19 anos que foi um dos melhores num dos melhores campeonatos do mundo. Já provou que pode estar entre os melhores e os seus melhores jogos foram contra as grandes equipas, como o Arsenal, o Manchester United e o Manchester City, por isso é mais do que capaz».