Quando todos nós sonhávamos com o melhor golo do mundo, Guti sonhava ser o homem-sombra desse mesmo lance. Onde todos víamos um espaço livre para rematar, Guti já tinha vislumbrado qual seria o melhor passe. O loiro esquerdino nasceu para aquele instante em que o estádio prende a respiração. Para o passe que ninguém consegue ver, exceto ele. Esta talvez seja a melhor forma de descrever o que foi José María Gutiérrez Hernández dentro de um campo de futebol.
Provavelmente, aquela assistência mágica de calcanhar, em janeiro de 2010, num jogo do Real Madrid frente ao Corunha, no Riazor, seja a mais mítica de todas. E se não a tiver na memória, eu descrevo-a. Guti, completamente isolado diante do guarda-redes, surpreendeu toda a gente ao tocar de calcanhar para trás, deixando Karim Benzema com a baliza aberta para marcar. Este lance é considerado um dos passes mais geniais e artísticos da história do futebol. Para ver e rever. As vezes que quiser.
Foram muitos os momentos em que o génio esquerdino inventou um espaço livre, enganando por completo as defesas adversárias. Feito de um recorte técnico ímpar, o médio natural de Madrid era um futebolista que me enchia as medidas. O futebolista espanhol cresceu dentro do Real Madrid, como se o clube fosse uma extensão da sua própria pele. Desde menino, aprendeu a linguagem invisível do futebol branco. A elegância, a exigência, o carisma e a responsabilidade de vestir uma camisola que pesa tanto quanto a história. No relvado do Estádio Santiago Bernabéu, não era apenas mais um jogador. Era um intérprete repleto de magia e de madridismo.
Enquanto muitos corriam, Guti pensava. Jogava de cabeça erguida e inventava caminhos onde só existiam muros. Ao longo da sua carreira partilhou o balneário com várias lendas do futebol mundial e é curioso recordar o que Zinedine Zidane dizia sobre ele. «Nos treinos, o Guti fazia coisas que eu nem ousava tentar nos jogos». Passes sem olhar, bolas de calcanhar, trivelas, invenções em espaços mínimos. Muitas dessas jogadas nunca chegaram à televisão. Ficaram apenas na memória dos seus colegas.
A sua carreira não foi feita apenas de aplausos. Houve críticas. Houve incompreensões. Guti era demasiado livre para caber em caixas táticas. Demasiado artista para ser operário. E, talvez por isso, nem sempre foi totalmente compreendido.
Mas para variar um pouco no tema das assistências, há também um grande golo de Guti ao serviço do Real Madrid que merece ser destacado aqui. Pese embora a carreira deste médio não se paute pelos números.
Num sempre intenso Real Madrid vs Villarreal, Roberto Carlos cruzou desde o corredor esquerdo, com a bola a sair alta e difícil. Mas Guti, ainda de fora da área, quando todos achavam que iria dominar de peito, fez mais uma Gutice: tematou de primeira, no ar, de pé esquerdo. Um disparo limpíssimo, cheio de classe, que entrou colocado sem hipóteses. Não foi força bruta. Foi leitura e elegância, bem ao estilo de Guti.
Quem o viu jogar, sabe. Ali estava um perfume muito raro que o futebol nos traz somente em alturas especiais. Hoje, quando revejo os seus passes de calcanhar, as bolas milimétricas, os golos improváveis, percebo que Guti não jogava apenas para ganhar. Jogava para encantar. Para nos lembrar que o futebol pode ser mais do que força, estatísticas, velocidade e pressão alta. Pode ser pura magia, tal como sonhávamos quando éramos miúdos.
Guti foi isso. Um sonhador num jogo cada vez mais pragmático. Um médio que preferia assistir a marcar. Um criador que se escondia atrás da jogada para depois aparecer no momento exato. Um homem-sombra que iluminava o jogo. E talvez seja por isso que, tantos anos depois, ainda falamos dele. Ainda sorrimos quando vemos um passe impossível e pensamos: «Só o Guti fazia isto.»
Porque alguns jogadores passam. Outros ficam. Guti ficou, para sempre, na memória de quem ama o futebol bonito.