Longevidade exercida na ilha de São Miguel. Basílio Almeida, 48 anos cravados nos músculos, e ainda muitos golos por marcar. «Esta época já fiz oito, sobretudo na fase inicial da época. Quando paro? Se me disserem que daqui a 20 anos ainda estarei a jogar, bem... eu acredito.»

Avançado com nome e histórico relevante na I Liga, Basílio veste a camisola dos açorianos do São Roque e está absolutamente rendido aos prazeres insulares. Nado e criado em Vila Nova de Gaia, a Basílio aconteceu o que acontece quase sempre nestas situações inesperadas: o amor. 

«Em 2005 vim jogar para o Santa Clara e fiquei três anos. Entretanto, separei-me da minha esposa e comecei a namorar com uma açoriana. Foi ela que me fez ficar pelos Açores e vou continuar. Tenho uma qualidade de vida fantástica, todos me tratam bem e respeitam. Não tenho motivos para mudar.»

E do que fala Basílio quando fala em «qualidade de vida»? Leiam bem e roam-se de inveja.

«Acordo sempre cedo, tomo o pequeno-almoço e pouco depois das oito estou a jogar ténis ou golfe. Volto para casa, almoço e a seguir faço uma pequena sesta. Começo a trabalhar às 17 horas e volto a casa por volta da meia-noite.»

Quando não está com a camisola amarela do São Roque no corpo, Basílio é dirigente desportivo e funcionário municipal? «Além de ser vice-presidente do clube, sou assistente operacional no Pavilhão da Escola Roberto Ivens, em Ponta Delgada. Lido com todas as modalidades desportivas que possam imaginar, todos os dias. Adoro o que faço, não me imagino longe do desporto. Sinceramente, não nasci para estar no sofá.»    

VÍDEO: Basílio a marcar pelo São Roque (aos 35s, imagens RTP)

«Nem nos lembramos de que há um outro modo de vida»
 

Pergunta sacramental: onde é que um homem de quase 50 anos - com a devida vénia, caro Basílio - vai buscar as condições físicas e a motivação para treinar três vezes por semana, faça chuva ou faça sol, e ser muitas vezes um dos melhores em campo ao domingo? 

«O segredo é o prazer que retiro do ato de jogar futebol. Não tenho lesões há muito tempo, não me sinto limitado, sinto-me bem. Não é fácil largar isto. Agarramo-nos às rotinas e nem nos lembramos de que há um outro modo de vida.»

No momento da interrupção do campeonato distrital dos Açores, o São Roque seguia num ótimo quarto lugar. Basílio Almeida, também dirigente do clube, garante que o seu caso é uma exceção e que a aposta é a formação. 

«Já metemos a jogar um jovem de 16 anos. No meu caso, enfim, achámos que podia ajudar mais estando lá dentro. O Governo Regional atribui subsídios por cada atleta inscrito da região e eu como sou de Gaia até dei prejuízo ao clube nesse aspeto. Procuro compensar com os golos e a permanência neste escalão.»

«Bebemos um bocado e eu acabei a noite a fazer rali no relvado do Feirense»

Basílio Almeida é um nome familiar para quem segue o futebol português desde os anos 90. Apareceu em grande nível no Sport Comércio Salgueiros (1995/96, 27 jogos/8 golos) e foi contratado pelo Vitória de Guimarães. Fez três anos na Cidade-Berço e voltou ao Vidal Pinheiro. No total, oito temporadas no escalão máximo divididas entre portuenses e minhotos (152 jogos/48 golos no total). 

«Foi um prazer vestir as camisolas desses dois históricos. Melhor treinador? O senhor Mário Reis, no Salgueiros. Era um homem que percebia o que o atleta precisava de ouvir.»

Mário Reis foi o treinador que dispensou Basílio Almeida ao Feirense (1994/95) e que o foi recuperar a Santa Maria da Feira. Por falar em Santa Maria da Feira, foi lá que Basílio viveu uma das noites mais loucas da longa carreira. Pelo menos daquelas que podem ser reveladas. 

«Na festa do final da época celebrámos a manutenção e ficámos um bocado 'tocados'. Bebemos um bocado, claro. Já eram duas/três da manhã e lembrei-me de pegar no meu carro e ir fazer rali para o relvado do Feirense», conta Basílio, à distância de 25 anos. 

«O relvado era tão bom, que na manhã seguinte o nosso tratador da relva chegou lá e só viu umas marquitas. 'Pessoal, vocês sabem o que se passou aqui? Isto não estava aqui ontem'. O Feirense era assim, muito familiar. Gostei de trabalhar com o treinador Henrique Nunes.»

Basílio (quarto em baixo a contar da esquerda) jogou dois anos no Benfica

«Parece impossível, mas é verdade: morei no terceiro anel da Luz»

 

Antes, muito antes de ganhar fama na primeira divisão, Basílio era uma pérola das camadas jovens do Valadares. Em 1988 deixou os gaienses para jogar no Benfica. 

«Tinha só 16/17 anos e isso teve um impacto gigantesco em mim. Fiz os dois anos de juniores no Benfica e apanhei a geração campeã do mundo de Riade - Bizarro, Brassard, Paulo Madeira, Paulo Sousa - e no ano seguinte a geração campeã do mundo de Lisboa - Brassard, Rui Bento, Rui Costa, Gil.»

E Basílio? «É a grande mágoa da minha carreira. Fui chamado aos treinos das seleções sub-19 e sub-20, mas nunca joguei. Também por isso, e por não haver ainda uma equipa B, acabei o segundo ano de contrato com o Benfica e saí.»

Das águias sobram as boas memórias e uma casa muito especial. «Parece impossível, mas eu vivi dois anos no terceiro anel do antigo Estádio da Luz. O centro de estágio da altura ficava lá. De manhã treinava e à noite via as modalidades todas no pavilhão ao lado. Apanhei uma equipa fantástica de basquetebol, com o Carlos Lisboa e o José Carlos Guimarães.»

Na Luz, Basílio foi treinado por Nené, Arnaldo Cunha, Bastos Lopes e José 'Zé Gato' Henriques. É também neles que pensa quando deixa uma mensagem de despedida ao Maisfutebol. «Por favor, digam às pessoas para ficar em casa nas próximas semanas. Até eu, que detesto o sofá, estou a cumprir. É para o nosso bem.»