A precocidade é consequência de quem tem qualidade. É transversal a qualquer área, faz cair recordes e interfere com a lógica. 

Apenas os mais distraídos não ficaram com o nome de Gonçalo Cardoso no pensamento. Aos 17 anos (!), o menino natural de Amarante estreou-se a titular pelo Boavista na Liga e acabou eleito como o melhor em campo para a SportTV

«Ao longo da semana soube que tinha a possibilidade de jogar [ndr: face ao castigo de Sparagna e à lesão de Raphael Silva]. Mas só tive a certeza na véspera. O jogo correu-me bem. Talvez tenha entrado um pouco nervoso, mas com o decorrer do jogo passou. Não mudava nada da minha estreia, foi um sonho», confessou, em exclusivo ao Maisfutebol.

O jogo de domingo foi especial para o defesa não só pelo facto de ter jogado o primeiro jogo como sénior. Gonçalo Cardoso superou a marca de jogadores como João Vieira Pinto e Nuno Gomes, tornando-se no segundo jogador mais jovem de sempre a jogar como titular pelos axadrezados na Liga (apenas atrás de Caetano), segundo dados do playmakerstats.

«É um orgulho poder representar o Boavista com esta idade. O facto de ter superado várias figuras históricas e de entrar para a história é um orgulho. Não é fácil. Ao mesmo tempo tenho mais responsabilidade para mostrar o meu valor e provar que aquele não foi só um jogo», sublinhou.

Da escola de futebol «Os Gonçalinhos» à Primeira Liga

Gonçalo Cardoso queimou várias etapas durante o crescimento. Cresceu no seio de uma família de desportistas - o pai foi jogador profissional de futebol e o irmão joga basquetebol no Guifões FC. E acabou influenciado pelo seu progenitor, Amadeu Cardoso. É o pai de Gonçalo que nos serve de guia para nesta viagem pelo tempo.

«O Gonçalo começou a jogar com sete anos, creio. Vivi 14 anos em Amarante e ele chegou a jogar na Escola de Futebol «Os Gonçalinhos». Depois mudei-me para o Marco, onde estou há 11 anos, e ele acabou por jogar aqui no clube», lembrou.

 

O jovem Gonçalo no AD Marco 09

«Jogou três anos no AD Marco 09. Depois, um antigo jogador do Penafiel e que hoje trabalha no clube, o Babá… sou muito amigo dele e cheguei a jogar com ele. O Babá viu o Gonçalo jogar e disse-me ‘Ó Cardoso, afinal o teu miúdo tem qualidade’. Por acaso, nesse jogo, o meu miúdo fez dois golos, um de penálti e outro de livre. Disse-lhe que o miúdo era muito jovem e que o importante era que fosse feliz. Ele queria que levasse o Gonçalo em dezembro para o Penafiel. Recusei, por respeito ao Marco», continuou.

O agora jogador do Boavista começou a carreira como lateral esquerdo. Vítor Ribeiro foi o primeiro treinador de Gonçalo e o responsável pela atribuição da função de defesa esquerdo. Recorda um miúdo «muito educado, introvertido, focado» e já «muito desenvolvido para a idade». 

«Notava-se que tinha qualquer coisa de especial, destacava-se pela capacidade para defender. Era muito forte. Interrogava-me quando não percebia, era curioso», lembrou, elogiando o acompanhamento que este tinha por parte da família.

No verão de 2012 Gonçalo e ao pai acabam por aceder ao convite do Penafiel. «O Gonçalo jogou sempre um ano à frente. Foi campeão de infantis A e depois começou a jogar pela equipa de iniciados de segundo ano. O mesmo aconteceu nos outros escalões. Jogou cinco anos no Penafiel e, num desses anos, jogou nos juvenis e nos juniores. Marcou golos, fez exibições impressionantes. Se entrevistarem o treinador ele vai concordar comigo (risos)», frisou o pai.

 

Gonçalo Cardoso com a camisola do Penafiel no Estádio 25 de abril

Com naturalidade, o interesse de outros clubes surgiu, embora Amadeu tenha preferido honrar o compromisso com o emblema penafidelense. 

«O Paços de Ferreira chegou a falar comigo e com o Penafiel para ele sair. Queriam que ajudasse a equipa de juvenis a evitar a despromoção do campeonato nacional. O Penafiel chamou-me e disse-me que de facto o miúdo tinha qualidade e ele acabou por ficar. Disse-lhes que se surgisse alguma coisa comunicaria logo», relatou.

«O Paços de Ferreira queria muito que ele fosse para lá e já o acompanhava há quatro anos. No final desse ano, o Sr. Joaquim Ribeiro (empresário) falou comigo, propôs-me o projeto do Boavista, garantiu-me que o Gonçalo continuaria a estudar e que a alimentação e a casa seriam pagas pelo clube. Falei com a minha esposa e com o Gonçalo. É importante frisar que o Gonçalo sempre foi um jogador mediano, sem dar muito nas vistas. O único conselho que lhe dei foi: diverte-te, mas lembra-te, se gostas muito de jogar futebol tenta ser melhor diariamente», acrescentou.

Com 16 anos, Gonçalo deixa o conforto da casa dos pais e muda-se para o Porto. Passou um ano a morar com outros colegas do Boavista antes de se mudar para casa do irmão, em Leça da Palmeira. O crescimento no Bessa, tal como no Penafiel, foi prematuro. 

«O ano passado o Sr. Jorge Simão chegou a chamar o Gonçalo para alguns treinos, ainda assim permitia-lhe ir às aulas. A partir de janeiro o treinador disse-lhe que ia passar a treinar diariamente com o plantel sénior do Boavista. Reconheceu-lhe qualidade e integrou-o no plantel. Não é fácil para um miúdo de 16 anos treinar com um plantel sénior…», disse o pai, orgulhoso.

A vida profissional prejudicou-lhe os estudos, naturalmente. Gonçalo completou três disciplinas, ficando duas por acabar, de acordo com Amadeu. No entanto, o jovem jogador «vai inscrever-se como aluno externo para as fazer, exijo que faça pelo menos uma delas este ano». 

 

O primeiro de vermelho da esquerda para a direita: Gonçalo Cardoso num jogo no AD Marco 09

Gonçalo Cardoso estuda, treina com o plantel sénior do Boavista e iniciou recentemente o processo para ter carta de condução. Após inúmeras viagens de metro de Leça até às imediações do estádio dos axadrezados, Gonçalo começou a receber boleias de várias colegas de equipa.

«Ele ia para os treinos de metro. Apanhava o metro junto ao Porto de Leixões e saía em Francos, perto do Estádio do Bessa. O David Simão e o Rafael Costa, que moram na Póvoa de Varzim, começaram a dar-lhe boleia. Eles fazem um pequeno desvio, apanham o Gonçalo numa rotunda, mas depois fazem questão de o deixar à porta de casa. O Gonçalo queria fazer pelo menos uma viagem de metro, mas eles não deixaram. Estou-lhes muito agradecido, foram impecáveis com o miúdo. A forma como o receberam e o integraram foi muito importante», esclareceu.

Amadeu Cardoso e a esposa sempre fizeram questão de acompanhar o filho para todo o lado e deixaram-lhe vários avisos ao longo dos anos. «Preocupávamo-nos com quem ele andava, pedíamos-lhe para respeitar toda a gente e para nunca criticar ninguém.Também lhe dizíamos que não havia bares nem discotecas para quem queria jogar futebol. Mas, no fundo, nunca foi preciso chamar-lhe a atenção para isso», destacou. 

O percurso foi longo e conheceu uma das etapas mais inesquecíveis no último domingo, 7 de outubro, no estádio do Bessa. «Guardei os recortes dos jornais. Confesso que vi o jogo com muita emoção e ainda tenho lágrimas nos olhos para a minha mulher. Sou humilde, sempre tentei ser correto e trabalhar. A minha mãe adora o Gonçalo. Fiquei muito feliz que a minha mãe de 90 anos só fale do Gonçalo. Gosta de todos os 18 netos, mas o Gonçalo é especial. Vivemos tudo com muita emoção. Fizemos muitos sacrifícios: levámos o Gonçalo aos jogos, pagámos mensalidades nos clubes, enfim. Tudo isto fica caro. Mas ele mereceu os sacrifícios. Ficámos felicíssimos, nem há palavras», descreveu Amadeu, qual pai babado. 

Vítor Ribeiro, o primeiro treinador de Gonçalo no AD Marco 09, encerrou desta forma a conversa com o nosso jornal. 

«Ainda bem que algum o colocou a central», atirou, entre risos. 

Após o jogo Jorge Simão referiu-se a Gonçalo Cardoso como «um caso sério». Veremos se o vaticínio do  treinador dos axadrezados se confirma.

Fotos: arquivo pessoal