Não pode dizer-se que foi uma surpresa. Há tempos que a equipa daquela cidade periférica, longe da urbe, estava a ameaçar imiscuir-se entre os crónicos campeões.

Não. O tema desta história não é o Leicester. É o Astra Giurgiu, clube onde militam os portugueses Pedro Queirós, Ricardo Alves, Geraldo e Filipe Teixeira, e que no domingo passado se sagrou campeão romeno pela primeira vez no seu historial, quando o tricampeão Steaua Bucareste foi travado em casa (1-1) pelo Pandurii de Pedro Mingote e do ex-portista Sapunaru. Os primeiros festejos aconteceram no hotel onde a equipa do Astra estava concentrada até à receção ao Dínamo Bucareste, na segunda-feira.

«Se o título foi surpreendente? O clube tem crescido nos últimos anos», diz ao Maisfutebol Ricardo Alves, no Astra desde o verão passado. «Vamos supor que o Sp. Braga era campeão em Portugal. É uma comparação semelhante. O Astra não é uma equipa como o Leicester, que em Inglaterra começou a época a lutar para não descer, mas obviamente que não éramos favoritos», acrescenta o defesa que passou pela formação do Sporting.

Em baixo (da esquerda para a direita): Junior Moraes, Geraldo, Pedro Queirós, Filipe Teixeira e Ricardo Alves

As origens de um clube sem adeptos

Fundado em 1921, é possível estabelecer um antes e um depois do Astra a partir de 1996. Nesse ano, o clube, então chamado Astra Ploiesti, foi comprado por Ioan Niculae, um magnata que começou a fazer dinheiro no setor agrícola mas que entretanto abriu horizontes de negócio para as indústrias energética, tabaqueira, química e do turismo. No ano passado tinha uma fortuna avaliada pela Forbes em 1,2 mil milhões de dólares (€1,06 mil milhões).

Bastaram dois anos para que o clube chegasse pela primeira vez na história à 1.ª divisão da Roménia, onde se manteve algumas épocas. Seguiram-se alguns anos marcadas por instabilidade e uma fusão com o maior clube da cidade, o Petrolul Ploiesti, para ser recuperado em 2005 com o nome FC Ploiesti. Mais tarde, com o regresso ao principal escalão em 2009, voltou a chamar-se Astra.

Desde esse ano, o clube assentou raízes na 1.ª divisão mas mudou-se em 2012 para outras paragens. Ainda treina em Ploiesti, mas joga em Giurgiu, pequena cidade situada numa das margens do Danúbio, na fronteira com a Bulgária. Na Roménia há cinco anos, Geraldo Alves acompanhou de perto o processo, até porque jogava no outro clube da cidade. «Saíram de lá porque a câmara só apoiava o Petrolul e o clube não recebia apoios. Foi para Giurgiu, onde o dono também tem empresas», explica o central de 35 anos.

«Giurgiu é uma cidade pequena. Tem poucos habitantes e o clube tem poucos adeptos. Antes torciam por outra equipa, mas que não tem muita tradição. Aos poucos, as pessoas estão a começar a gostar do Astra porque começou a bater-se pelos primeiros lugares. O estádio tem capacidade para umas 10 mil pessoas e em média temos 4, 5 mil. Ontem [segunda-feira, vitória sobre o Dínamo Bucareste por 4-2] foi o jogo em que tivemos mais gente. Estava cheio», conta Ricardo Alves.

O dono preso, a falta de água quente e os salários em atraso

Pedro Queirós, que tinha no currículo uma passagem fugaz pela Roménia em 2008, regressou no verão passado àquele país, depois de três anos no V. Setúbal. O lateral direito, jogador com mais tempo de utilização na equipa, fala que a conquista do campeonato representa o «culminar de um ano complicado», num país onde muito clubes atravessam graves problemas financeiros e ao quais o Astra não é imune.

«Ultrapassámos bastantes obstáculos: problemas financeiros, falta de locais onde treinar e falta de água quente nos treinos», desabafa Pedro Queirós. «Não podíamos pagar a água e o campo não tinha condições. Para além disso, até o autocarro chegou a avariar», recorda Geraldo.

Situações deste tipo (e até piores como esta) afetam outros clubes profissionais na Roménia.

Geraldo lembra que o segundo classificado do campeonato romeno na época passada, o Targu Mures, entrou em insolvência. «Alguns clubes contratam os melhores jogadores, prometendo-lhes mundos e fundos, e a partir de dezembro não conseguem pagar-lhes os salários. Foi o que se passou com essa equipa, que perdeu a possibilidade de lutar pelo título. Como está a situação no Astra? A meio da época, o clube teve de vender dois dos melhores jogadores: um foi para o Steaua [Gabriel Enache] e outro [Constantin Budescu] foi jogar para o futebol chinês.»

Foi a forma inevitável para o Astra se manter à superfície. Com o dinheiro encaixado pelas transferências pagou as dívidas ao fisco e os vários meses de salários em atraso até fevereiro. Falta pagar os de março até agora. «Não recebemos desde essa altura, mas prometeram que iam pagar. Fomos campeões e vamos o clube vai receber dinheiro da federação e de patrocínios e vamos receber o que temos em atraso», acrescenta Geraldo.

Pedro Queirós com a taça de campeão da Roménia, a primeira para o Astra

Problemas atrás de problemas. Condimentos reunidos para uma tempestade perfeita com tudo para correr mal. Mas não correu.

Pergunta obrigatória: como consegue um clube nestas condições arrancar para a melhor temporada da sua história? «Acho que esse tipo de problemas fez com que nos uníssemos ainda mais. Somos um grupo de jogadores bastante experientes, alguns com mais de 30 anos. E o nosso treinador teve sempre uma palavra de apoio», sustenta Pedro Queirós.

O jogador, de 31 anos, fala de Marius Sumudica, antigo avançado que chegou a vestir a camisola do Marítimo entre 1999 e 2001 (até fala português) e que na época passada já tinha orientado Ricardo Alves noutra equipa do campeonato romeno, o Concordia Chiajna.

Sumudica foi notícia no início de março, por ter apostado em jogos do campeonato romeno, algo proibido pela federação de futebol daquele país. Inicialmente, teria de cumprir uma suspensão de seis meses, mas o técnico conseguiu que ela fosse reduzida para dois meses, a cumprir no início da próxima época.

Marius Sumudica fotografado em agosto de 2015 num jogo em casa contra o West Ham,

referente à 2.ª mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga Europa

Mas não é só o treinador que tem a justiça à perna. O dono do clube, Ioan Niculae, foi condenado em abril do ano passado a dois anos e seis meses de prisão, por ter financiado ilegalmente a campanha de um candidato às presidenciais romenas em 2009. Para além de vários problemas com a Justiça, o magnata é também conhecido pelo temperamento explosivo. No inverno de 2014, antes de um jogo contra o Celtic para a Liga Europa, o jornal online The Scotsman dedicou-lhe um artigo: apresentava-o como alguém pouco condescendente para com treinadores e jogadores: «Faz Jesus Gil y Gil [antigo presidente do Atlético Madrid falecido em 2004] parecer um menino de coro», lia-se no jornal.

Com a prisão do proprietário, a gestão do clube tem passado por Danut Coman, antigo guarda-redes internacional romeno que se retirou do ativo na época passada. Geraldo considera que os problemas financeiros que o Astra atravessa devem-se essencialmente a isso. «Afeta sempre, até porque ele, por estar preso, não pode aceder às contas. É um dos homens mais ricos da Roménia e não teria dificuldades em pagar-nos os salários.»

E agora, Astra?

Depois de ter terminado nos lugares do pódio nas duas anteriores temporadas (2.º lugar em 2013/14 e 3.º em 2014/15), o Astra Giurgiu conseguiu finalmente chegar ao lugar mais alto do pódio, travando o Steaua Bucareste, que procurava o quarto campeonato consecutivo. «Quando me abordaram para vir para cá, disseram-me que o objetivo era andar nos três primeiros. Mas, com o decorrer dos jogos e a qualidade de jogo da nossa equipa, o objetivo do título tornou-se mais sério», diz Pedro Queirós.

Mais conhecedores do futebol daquele país, Geraldo e Filipe Teixeira acreditaram desde o início, apesar da meta inicialmente traçada ter sido outra. «Já cá estou há uns anos e tinha noção de que, com o nosso plantel, podíamos chegar onde chegámos», conta Filipe Teixeira.

«Sabia que a discussão seria entre nós, o Steaua, o Dínamo, o Targu e o clube do Hagi, o Viitorul Constanta. Mas, depois de 15 ou 20 jornadas em primeiro, pensávamos que era mesmo possível», acrescenta Geraldo.

Apesar disso, Filipe Teixeira considera que, ainda que o título não tenha apanhado os jogadores do Astra de surpresa, é provável que pouca gente depositasse as fichas naquela equipa com pouca ou nenhuma tradição. «Acho que as pessoas não acreditavam que podíamos ser campeões, mas fomos claramente superiores. E interessava a muita gente que fosse o Steaua campeão e não o Astra: por muitos motivos», atira.

Em baixo, a entrega da taça de campeão após o jogo com o Dínamo Bucareste, que o Astra venceu por 4-2

O título da Roménia, alcançado a uma jornada do final do play-off, valerá ao Astra a presença na 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Pela primeira, o clube terá a possibilidade de lutar pelo acesso à fase de grupos da prova de clubes mais importante da UEFA. Seria história sobre história, depois da lição dada nesta época, considera Geraldo. «Foi uma chapada de luva branca a muitos clubes que investiram bastante: ao Steaua e a outras equipas que deram um passo maior que a perna.»

Depois do topo no futebol romeno fica agora a faltar uma coisa, talvez a mais difícil de todas: seduzir adeptos. «O Astra não tem adeptos, não tem tradição. Nos jogos com o Steaua tivemos o estádio vazio, só para se ter uma noção. Com este título esperemos que as pessoas venham mais ao estádio», perspetiva Geraldo.

Algumas fotos deste artigo, incluindo a de capa, foram cedidas ao Maisfutebol por Geraldo e Pedro Queirós com o consentimento do autor delas, Cristi Stavri