Já tinha sido notícia em agosto, quando bateu o recorde de Dário Essugo e se tornou o mais jovem jogador a jogar na primeira divisão. Mas Roger tornou-se definitivamente destaque este domingo, ao fazer um golo na vitória sobre o Moitense, em jogo da Taça. Com 15 anos apenas.

Mas quem é afinal Roger Fernandes?

Nascido a 21 de novembro de 2005 em Bafatá, no leste da Guiné-Bissau, o esquerdino viveu toda a vida naquela que é a segunda cidade do país, com uma família numerosa: o pai, a mãe e cinco irmãos: duas irmãs e três irmãos, um dos quais viajou também para Portugal.

Começou a jogar nas ruas de Bafatá e nunca teve verdadeiramente escola de futebol. O que não o impediu de sobressair entre vários miúdos que tentavam utilizar o futebol para dar o salto na vida.

«O Roger é meu sobrinho. Disseram-me que tinha potencial e que tinha de o ver. Fiz-me à estrada, fui fazer uma visita familiar a Bafatá e aproveitei para ver o Roger jogar, naqueles pelados de África, quase impraticáveis. Quando o vi não hesitei e disse que ia trazer o Roger para Portugal», conta Eusébio Fernandes, empresário de jogadores que é pai de Joelson Fernandes e tio de Roger.

«Ele nunca jogou em nenhum clube, nem no campeonato nacional, nem nada disso. Ele esteve três ou quatro meses numa academia em Bissau, para onde o Eusébio o levou antes de viajar para Portugal. Mas foi tudo o que ele teve em futebol de formação», conta Ismael Embaló, irmão de Roger que joga nos Açores.

«Mas ele até no quarto joga à bola. Levava uma bola e começava a dar toques contra a parede. Era um hábito que ainda tem. Outro dia fui ter com ele a Braga e continua a fazer a mesma coisa lá no quarto. Ele só quer jogar, jogar, jogar. Lá em Bafatá ia para a escola, mas faltava às aulas e ficava a jogar. Chegava a casa com a roupa toda suja, os meus pais chateavam-se. Mas ele não ligava. Na escola até lhe chamavam ‘Bola’. Ou isso ou ‘Dybala’. Alguns tratavam-no por ‘Dybala’.»

A partir daí Eusébio fez o contacto com o Sp. Braga, que se predispôs a observar o miúdo. Tudo isto em 2019, quando Roger tinha apenas treze anos.

«Quando o trouxe de Bissau já tinha feito o contacto com o Sp. Braga, com o diretor Hugo Vieira, tinha-lhe dito que tinha um miúdo da Guiné com muita qualidade. Ele disse para o trazer, que o iriam observar, e assim aconteceu», acrescenta o empresário.

Neste entretanto, enquanto as coisas eram tratadas, Roger ficou numa academia de futebol em Bissau, para onde Eusébio Mango Fernandes o levou. Na capital da Guiné o jovem de então apenas treze anos aproveitou para reencontrar o irmão mais velho, que se tinha formado em medicina.

«Quando saímos de Bissau, ele estava com a Bíblia debaixo do braço. É um rapaz muito humilde e dedicado. É uma pessoa de fé e gosta de ler a Bíblia. São pessoas religiosas e agarram muito as palavras que estão na Bíblia. A despedida foi dura. Estava a ir para o desconhecido. Vieram todos a Bissau despedir-se dele, muitas lágrimas, o normal», acrescenta Eusébio.

O voo que trazia Roger e Eusébio Fernandes chegou a Lisboa de madrugada e no aeroporto o jovem tinha à espera o irmão Ismael Embaló.

«Já não o via há dois anos, por isso quis ir ter com ele ao aeroporto. Fui a pé de Sacavém e regressei, de madrugada. Estivemos a falar um bocadinho, dei-lhe alguns conselhos, expliquei-lhe que aqui o futebol é diferente e que tem de marcar mais, depois ele seguiu para Aveiro com o meu tio.»

Eusébio conta, no entanto, que fizeram uma paragem antes de chegar a Aveiro.

«Aterrámos de madrugada e no dia seguinte o Joelson ia jogar pelos juvenis em Leiria. Disse ao Roger que ia levá-lo para minha casa em Aveiro, mas que antes disso íamos parar em Leiria para ver o jogo do Joelson. Estávamos a ver o jogo, o Joelson estava a jogar a extremo esquerdo e passados dez ou quinze minutos o Roger diz-me: ‘Ó tio, eu jogava nesta equipa’. Perguntei-lhe qual equipa e ele respondeu-me. ‘No Sporting.’»

Seguiu então para Aveiro, com os primos Joelson Fernandes e Saná, passou o fim de semana em casa do tio e no domingo foi ver um jogo de futebol de um clube lá da zona.

«Na segunda-feira fui levá-lo a Braga, pediram-me para o deixar ficar lá uns dias. Passado dois dias, o Hugo Vieira ligou-me a dizer que iam ficar com ele. A partir daí ficou no Sp. Braga.»

Entretanto passaram mais de dois anos e Roger nunca mais regressou à Guiné-Bissau. Nem sequer quando pai faleceu, há pouco mais de uma semana.

«Era para irmos, mas o voo chegava lá depois do funeral e não fomos. Eu vim dos Açores para Lisboa, o Roger pediu para vir ter comigo e ficámos uns dias. Eu tinha de vir porque já sabia que o Roger ia estar mal. Eu também, claro, mas ele é mais novo. Tinha de o apoiar», conta o irmão.

«Por isso ele chorou quando fez aquele golo na Taça de Portugal. Eu estava lá nas bancadas a vê-lo e também chorei. No momento em que marcou não resisti, lembrei-me logo do meu pai. Ele sempre quis que nós estivéssemos aí, a dar nas vistas. Ele adorava futebol, era fanático do Sporting. Nas últimas semanas, mesmo doente estava sempre a ouvir os relatos do Sp. Braga. Nunca viu o Roger jogar na equipa principal. No fim do jogo pulou e veio ter comigo. Ele estava a chorar e eu também chorei, chorámos os dois outra vez. Depois fez questão de me dar aquela camisola.»

Ismael Embaló é pouco mais velho do que Roger, tem 19 anos, veio para Portugal há cinco para jogar futebol e atualmente representa o Velense, da Ilha de São Jorge, nos Açores.

Quando veio para Portugal, ficou dois anos sem jogar, por ser menor, não ser português e não poder ser inscrito. Um problema que Roger também passou, embora por um período mais curto. Até que a nacionalidade portuguesa chegou e os dois puderam por fim ser inscritos.

«Para a semana vem a Portugal o meu irmão mais velho, que é médico. Vem fazer um estágio e estar connosco. Já não vejo a minha família há cinco anos e o Roger há mais de dois», conta.

Os dois irmãos estavam juntos, aliás, quando o mais novo recebeu a notícia de que Carlos Carvalhal o queria observar junto aos jogadores da equipa principal na pré-temporada.

«Disse-me que ia passar a férias a Lisboa para estar com o irmão. Tinha acabado de chegar a Lisboa, porque os campeonatos jovens acabaram mais tarde, quando o diretor da formação Hugo Vieira me ligou a dizer que o Roger tinha de voltar já para Braga, porque ele tinha falado com o Carvalhal e o miúdo ia fazer uns treinos na equipa principal. O Hugo Vieira foi fundamental no crescimento de Roger», conta Eusébio.

«’O mister vai observá-lo. Se gostar dele, fica, se não regressa a Lisboa para férias’, disse-me. Eu liguei-lhe, disse-lhe que tinha de viajar de imediato para Braga porque ia ser observado na equipa principal. Ele ficou aos saltos, muito contente. Organizou tudo e estivemos sempre em contacto. No dia a seguir viajou de comboio. Depois o Carvalhal gostou dele e ele ficou.»

O irmão Ismael conta que desde que começou a treinar com a equipa principal, Roger deixou a residência do Sp. Braga e foi instalado num hotel, para evitar problemas relacionados com a covid. Desde então o clube destacou um psicólogo que o acompanha sempre, inclusivamente dorme no hotel, num quarto ao lado, para ajudar o miúdo e lhe dar suporte em todas as mudanças dos últimos meses.

«Anda de boleia com o Lucas Mineiro, que o vai buscar sempre ao hotel. Treina e continua na escola a fazer os estudos», revela Ismael, adiantando que agora o irmão já não falta às aulas.

«Nada disso. Já estive lá com ele e fiquei admirado. Treina com a equipa, depois vai para a escola, regressa ao quarto e vai estudar.»

Aos 15 anos, quase a fazer 16, Roger Fernandes foi obrigado a crescer depressa.

«O início foi muito complicado. Primeiro não podia jogar por não estar inscrito, depois veio a pandemia e acabaram os campeonatos jovens. Falávamos por telefone, eu ia a Braga visitá-lo, às vezes ao fim de semana vinha a minha casa. Eu não o conseguia ver, porque os treinos são fechados e não havia competição, mas o Hugo Vieira passava-me boas indicações.»

Depois da chuva veio o sol e com ele o arco-íris: nos últimos meses tudo se precipitou na vida de Roger. Foi chamado, estreou-se, fez um golo e mereceu muitos elogios de Carlos Carvalhal.

«O Roger começou a treinar e gostei dele desde o primeiro toque na bola. Gostei tanto que jogou a titular no primeiro jogo-treino com o Vizela. Nesse dia à noite, como sempre, revi o jogo em casa. Uma das minhas preocupações era o posicionamento defensivo e ofensivo do Roger para o corrigir. Passam os minutos e nem um apontamento! Chego ao fim dos 45 minutos e a folha dele estava em branco... fiquei intrigado», escreveu o treinador nas redes sociais.

«Hoje chamei-o e o diálogo foi mais ou menos assim:
- Roger, onde aprendeste a posicionar-te assim?
- Mister, foi a ver vídeos!
- Vídeos de quem?
- Do Braga! E como o mister me meteu na posição do Galeno, eu estive atento para ver como se posicionava. Vi como se movimentava e procurei fazer igual.
- E percebeste tudo?
- Só tenho uma dúvida.
Dizia respeito a um determinado posicionamento do lateral adversário. Um aspeto de detalhe... Fantástico. Ele não foi ver o Barcelona ou o Liverpool. Ele estudou a equipa onde quer jogar. As ideias fundamentais e depois foi procurar nas imagens o posicionamento do jogador que joga na sua posição para o estudar. Nunca tinha vivido uma situação destas.»

Provavelmente por isso, quando fez aquele golo inicial da carreira, neste domingo, Roger correu a dar um abraço a Carlos Carvalhal. Depois chorou.

«Receber aquela notícia foi muito complicado para o Roger. Ele tinha um grande amor ao pai. Foi um momento duro e chorou muito. O pai tinha o sonho de vê-lo ser jogador de futebol.»

Um sonho que o menino de 15 anos vai alimentando pouco a pouco.