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Houve juízes portugueses em doze dos 19 Campeonatos do Mundo realizados até agora e eles fazem parte da sua história, ainda que não sejam notícia muitas vezes. Ou sejam, por outro lado, quando alguma coisa corre mal. E assim ficam por contar muitas histórias. Como a de Joaquim Campos, no Mundial 1966.

Hoje com 89 anos, Joaquim Campos ainda tem a memória fresca e o humor vivo, para recordar este episódio com um sorriso. Ele começou por ir ao Mundial 1958. Voltou em 1966, em Inglaterra, e a 23 de julho foi árbitro auxiliar no URSS-Hungria dos quartos de final, em Sunderland. «Havia um ecrã luminoso que estava a dar os resultados dos outros jogos. Quando terminou a primeira parte o árbitro principal, que era espanhol, veio ter comigo e perguntou-me porque é que eu estava sempre a olhar para o ar. E eu disse-lhe: «Epá, Portugal estava a perder com a Coreia do Norte e está a dar a volta. E ele: «Quero lá saber!»

Joaquim Campos recordou há pouco tempo esta e outras histórias ao lado de Eusébio, num aniversário da AF Lisboa, e é com orgulho que conta como o Pantera Negra, agora desaparecido, as ouvia com um aceno de aprovação e ia repetindo: «Foste um bom árbitro.»

(Foto: albertohelder.blogspot.pt/)

Eram outros tempos, tão diferentes. Hoje Portugal está no Mundial numa altura em que começou a avançar com a profissionalização de árbitros e em que os juízes de primeira categoria têm condições de treino e financeiras para poder desempenhar o seu trabalho. Joaquim recorda como as viagens para os jogos se faziam de comboio, de véspera, «à procura do sítio mais barato para jantar». Como não havia locais onde treinar, nem se ganhava dinheiro que se visse.

Joaquim Campos distinguiu-se como árbitro, entre outras coisas, porque foi atleta de meio-fundo, no Sporting, e corria muito depressa: «Cheguei a ser recordista nacional.» Ficou famoso por isso no Mundial 1958. A história é contada por Alberto Hélder , ex-árbitro e co-fundador da APAF, que se dedicou, depois de reformado, a investigar e guardar para a posteridade, em blogue, a história da arbitragem: «Na Suécia, onde (Joaquim Campos) foi muito bem recebido e se manteve até final do campeonato, sempre com acompanhamento de primeira, a comunicação social ressaltava essa sua qualidade, dizendo que até corria mais do que os jogadores.» É também Alberto Hélder quem lembra como a camisola preta que Joaquim Campos levou para apitar no Mundial 1958 fora feita pela mulher de um árbitro amigo. 

Joaquim Campos no Mundial 1958
(Foto:  albertohelder.blogspot.pt/)

Era um árbitro doutros tempos, mas também conta com orgulho como foi o primeiro juíz profissional português. Em 1969 foi contratado para apitar no Brasil. «Apitei 20 jogos do campeonato de São Paulo no tempo do Pelé», recorda Joaquim Campos ao Maisfutebol. Foi, diz, um «privilegiado», porque a empresa onde trabalhava, a CUF, lhe facilitava essas escapadelas para ir apitar jogos mundo fora.

Antes de Joaquim Campos houve José Vieira Costa. É também Alberto Hélder, autor de um trabalho profundo de pesquisa, quem recorda a história do primeiro árbitro português num Mundial. O juiz do Porto foi selecionado depois de ter estado nos Jogos Desportivos Centro Americanos e do Caribe. Estreou-se no Brasil 1950 como árbitro assistente num Espanha-EUA em Coritiba e depois teve a experiência da sua vida. Os dois jogos seguintes foram no Maracanã, o último o Brasil-Espanha, perante 153 mil espectadores. Vieira Costa voltou a apitar no Mundial 1954.

José Vieira Costa
(Foto: albertohelder.blogspot.pt/)

A montanha mais alta

Portugal voltou a ter um árbitro no Mundial 70, Saldanha Ribeiro. Depois teve António Garrido, em 1978 e 1982, a seguir Carlos Valente, em 1986 e 1990, mais tarde Vítor Pereira, em 1998 e 2002. Não teve ninguém em 2006. O regresso foi em 2010 e então, como agora, Bertino Miranda esteve entre os escolhidos, num trio que teve como árbitro principal Olegário Benquerença. É o topo da carreira de um árbitro, chegar aqui.

Pedro Proença comentou a nomeação como o « concretizar de um sonho» e o ponto mais alto da sua carreira. Bertino Miranda reforça, em declarações ao Maisfutebol: «É o momento mais alto. É um bocado como os montanhistas. Há sempre a montanha mais alta de todas. É realmente o ponto mais alto a que podemos aspirar. Há milhares de árbitros, mas só 25 é que vão ter o prazer de estar nesse lote tão restrito», observa Bertino Miranda ao Maisfutebol.

E se a presença de árbitros portugueses para o Mundial 2014 entre os nomeados já era esperada - Pedro Proença tem estado entre os juízes de topo mundial, em 2012 apitou a final da Liga dos Campeões e esteve na fase final do Europeu -, em 2010 foi muito diferente, conta Bertino Miranda. «Desta vez pertencíamos ao lote de favoritos. Em 2010 não pertencíamos. Foi sentido com outro entusiasmo. Estávamos a correr por fora», conta, recordando também como o processo foi diferente.

A FIFA levou para a África do Sul mais juízes do que aqueles que formariam o quadro principal, e os árbitros só em cima da hora souberam se estavam entre os titulares ou nas reservas. «Estávamos a jantar quando saíram as primeiras nomeações. A cada jogo pensávamos que se iam reduzindo as hipóteses. Quando saiu o nome de Olegário Benquerença ficámos em choque, a chorar, a abraçar-nos. Foi um momento de grande felicidade.»

Seguiu-se o Euro 2012 e agora o Mundial 2014, com a perceção de que a arbitragem portuguesa está num patamar em que já faz parte das escolhas habituais. Basta ver, por exemplo, que volta a ter lugar entre os nove árbitros da Europa selecionados para o Mundial, enquanto a França, por exemplo, ficou de fora. E é assim independentemente das polémicas que continuam a acontecer por cá no que diz respeito à arbitragem. Ainda no fim de semana passado, no Benfica-FC Porto, a atuação de Soares Dias foi muito contestada. 

As polémicas e o que conta lá fora

«Polémica sempre existiu. Onde houver um jogo de futebol, onde alguém decide situações analisadas por 24 câmaras de televisão, haverá sempre polémica», reage Bertino Miranda, defendendo o nível da arbitragem portuguesa: «Isto é uma distinção para a arbitragem portuguesa. Se não estivesse bem vista, dificilmente podia ter representantes no Mundial. Temos um grupo de árbitros que tem boa imagem lá fora.»

Pedro Henriques, ex-árbitro e comentador, junta mais um dado à análise: «Um árbitro pode apitar mal no seu campeonato todos os fins de semana. Mas não conta nada. Lá fora veem apenas os jogos internacionais. Os observadores, os delegados, só querem saber da prestação técnico-tática em relação ao que os árbitros fazem em termos internacionais.»

Para Pedro Henriques, a escolha de Pedro Proença e dos dois assistentes é resultado de mérito pessoal, mas também do trabalho que foi feito pelo atual Conselho de Arbitragem . «Primeiro tem que se dar os parabéns em termos individuais pelo mérito dos três nomeados. Segundo, por vezes é esquecido, os parabéns que têm de ser dados ao Vítor Pereira. Quando eu ainda era árbitro e ele assumiu o Conselho de Arbitragem, umas das primeiras palavras dele, a perspetivar o futuro, foi assumir o objetivo de recuperar em termos internacionais o prestígio da arbitragem portuguesa.»

«Há aqui um mérito que é pessoal. Mas também é muito importante que toda a estrutura que está por trás tenha qualidade», defende Pedro Henriques, para quem Vítor Pereira começou por «desbravar um caminho sozinho». O árbitro que também representou Portugal em dois Mundiais, 1998 e 2002, trabalhou depois de terminada a carreira na UEFA como conselheiro técnico e instrutor. Pedro Henriques dá outro exemplo. Hoje, Portugal tem dois preparadores físicos de árbitros que trabalham com a UEFA na formação de árbitros internacionais, masculinos e femininos: «É a isso que eu chamo de estrutura.»

«Era mais fácil apitar no meu tempo»

Joaquim Campos também valoriza o nível atual da arbitragem portuguesa, com alguma amargura: «É com muito orgulho que vejo a nomeação do Pedro Proença, que no ano passado foi considerado o melhor árbitro do mundo. Não é só o Cristiano Ronaldo, também temos um árbitro nos melhores do mundo, mas isso fala-se pouco. O árbitro é quase sempre ignorado. É conhecido quando se quer dizer mal dele. Nunca se apregoa nada do que fazem bem.»

Mas, apesar de notar tudo o que se evoluiu, o decano dos árbitros nacionais também acha que o trabalho dos juízes é mais difícil agora. «Era mais fácil apitar no meu tempo do que agora. Havia mais respeito, cronistas que sabiam mais de futebol», nota Joaquim Campos: «Hoje há jogos que têm 40 e tal faltas, como é possível? Vi uma estatística do Benfica-FC Porto da semana passada que dizia que teve cento e tal interrupções. Jogou-se 40 e poucos minutos (pode ver esses dados aqui). Acho que antigamente os treinadores ensinavam os jogadores a jogar à bola e agora ensinam-nos a não deixar jogar à bola.»

Quanto a Alberto Hélder, que foi árbitro e formador – de Pedro Proença, de Vítor Pereira e de muitos outros -, não esconde uma abordagem crítica à forma como a estrutura da arbitragem portuguesa está nesta altura. «Neste momento os árbitros portugueses recomendam-se. O mesmo não acontece com os dirigentes a nível nacional», diz, ele que no seu blogue critica Vítor Pereira pela forma como conduziu o polémico processo das classificações na época passada, ou ainda «pelo facto de ano e meio após tomar posse ter dedicado especial afeição à Academia da Arbitragem, sem ter ligado minimamente às bases, ou seja, aos Conselhos de Arbitragem das Associações».

A imagem e o resto: o que distingue Proença

Voltando a Pedro Proença e à forma como emergiu nos últimos anos como o principal rosto da arbitragem nacional, Pedro Henriques analisa o que distingue o juíz de Lisboa. «O mais importante é ser bom árbitro. Depois, uma das coisas fundamentais foi ter conseguido atingir a internacionalização relativamente cedo. Hoje é muito importante aos 18, 19 anos, tirar o curso de árbitro, se não dificilmente se irá ter tempo para cumprir todas as etapas», começa, notando que a imagem de Proença também conta: «Também surge de uma geração de árbitros que atinge a I Divisão cedo e que tem outra imagem. A imagem dos árbitros era de uns tipos barrigudos, carecas. Ele surge com outro perfil, um perfil de atleta. O gel no cabelo, o facto de ser longilíneo, elegante, tudo isso contribui. É uma pessoa que conseguiu juntar ao resto formação académica, o que é cada vez mais importante», observa ainda: «O Collina foi o primeiro árbitro nessa linha. Hoje em dia o mundo vive muito da imagem e arbitragem começou também a ir por aí. Ele tinha esse perfil. Fui quarto árbitro dele várias vezes e tinha essa postura, era elegante a correr.»

«Tivemos bons formadores. Há 20 anos, todas as semanas íamos aos núcleos com grandes preletores, grandes formadores. Treinávamos todos os dias, havia aqui uma geração que olhava para a arbitragem de forma diferente», conclui Pedro Henriques: «Há 20 anos já tínhamos grande ambição, falávamos nisso: um dia vamos apitar um Benfica-Porto. Quem mantiver o foco, como sei que ele mantém, tem mais probabilidades de chegar ao topo.»