Foi a 1 de dezembro de 1907, debaixo de um intenso temporal. O campo da Quinta Nova, em Carcavelos, foi o palco do primeiro jogo de sempre entre o Sporting e o Benfica, na altura ainda denominado de Grupo Sport Lisboa.

Foi o primeiro de centenas de dérbis lisboetas, que desde muito cedo ganharam também o estatuto de Clássico do futebol português. Dos «Cinco Violinos» do Sporting ao Benfica de Eusébio, passando por homens como Azevedo, Rogério Pipi, Damas, Simões, Fernando Mendes, Humberto Coelho, Jordão, Chalana, João Vieira Pinto, Mário Jardel ou Cardozo.

Tantos e tantos fazem a história do dérbi que, este sábado, tem novo capítulo, com a acesa corrida ao título pelo meio. São quase 110 anos de história, portanto, o que, naturalmente, faz com que haja imensos episódios e historietas em torno do dérbi que dariam para horas de conversa.

O Maisfutebol fez um resumo e recuperou dez histórias incríveis. Venha daí nesta viagem pela história.

1. Cosme Damião decide o primeiro dérbi de sempre…com um autogolo

O enquadramento que se descreveu no início do artigo é o relato que mais vezes se repete nas notícias da época e nas obras que a ela se referem. Choveu mesmo muito naquele dia! Tanto que o campo da Quinta Nova estava, naturalmente, com o piso em péssimo estado. O árbitro, um inglês de apelido Burtenshaw, deu início àquele jogo, a contar para o Campeonato de Lisboa.

O Benfica era ainda Grupo Sport Lisboa, recebendo a designação atual três meses mais tarde. O primeiro golo é do Sporting. Marca Cândido Reis…um dos fundadores do Benfica! A probabilidade de isso acontecer era grande, de facto. O Sporting alinha com oito ex-benfiquistas, que um ano antes tinham trocado de clube, seduzidos pela maior estabilidade financeira do lado verde e branco.

Corga faz o empate para o Benfica mas, pouco depois, com a chuva a cair incessantemente, os jogadores do Sporting saem de campo. O árbitro tentou de tudo e lá conseguiu convencê-los que o futebol teria de ser jogado à chuva. E corre bem ao Sporting, que chega ao 2-1 num lance infeliz de Cosme Damião. Autogolo daquele que dá nome ao museu do clube e é, ainda hoje, visto como o maior símbolo da fundação encarnada.

Francisco Stromp e Cosme Damião num dérbi de 1915 (Foto: slbenfica.pt)

2. Vermelho para Artur José Pereira mas quem sai…é o árbitro

A 14 de abril de 1912 as relações entre Benfica e Sporting, tensas praticamente desde sempre, estavam numa situação mais tranquila. Tanto que houve espaço para um jogo particular, com um episódio caricato mesmo para os padrões de um amigável.

Plácido Duro, árbitro da Associação de Futebol de Lisboa que dirigiu dos dérbis oficiais na década de 10, foi convidado para apitar o duelo. A dada altura expulsou o benfiquista Artur José Pereira, uma das grandes figuras da época e mais tarde fundador do Belenenses.

A história é contada no livro «Clássicos do Futebol Português», editado pelo jornal Record. «Plácido Duro expulsa Artur José Pereira, mas, depois de enorme burburinho, decide-se que o jogo prosseguiria com outro árbitro e com Artur José Pereira em campo!»

3. Um dérbi apitado por um jogador do FC Porto

Imagine-se no próximo sábado os capitães William Carvalho e Gaitán a cumprimentarem-se no centro do terreno enquanto…Aboubakar atira a moeda ao ar para, depois, dar o apito inicial. Caricato, claro. Mas aconteceu algo assim. Só mesmo nos primórdios do futebol…

Foi a 13 de abril de 1924, em jogo da última jornada do Regional de Lisboa, no Campo Grande, já Cosme Damião era treinador do Benfica.

Tavares Bastos, avançado do FC Porto (o homem que fez os primeiros golos de sempre dos portistas ao Sporting), é o árbitro escolhido para o encontro. Na altura, convém referir, não era invulgar que jogadores apitassem jogos e muitos, como Artur José Pereira, até se tornavam árbitros no final da carreira. Mas não deixa de ser inusitado…

Nas bancadas estava Manuel Teixeira Gomes, presidente da República. Por que é importante este pormenor? Foi a primeira vez que um presidente assistiu a um dérbi.

O resultado? Ganhou o Sporting 3-0, «entregando» o título de campeão regional ao Casa Pia.

4. Salazar, sem querer, dá o mote para a Supertaça

A 10 de junho de 1944 é inaugurado o Estádio Nacional, obra do governo de Oliveira Salazar que ainda hoje recebe a final da Taça de Portugal. Para a festa são convidados os dois maiores clubes da capital.

O Sporting, vencedor do campeonato, defronta o Benfica, vencedor da Taça de Portugal. Sem querer, Salazar promove a primeira Supertaça «oficiosa», bem antes do arranque da prova que recebeu o nome de Cândido Oliveira, já em 1979.

O jogo terminou com 3-2 favorável aos leões. Marcaram Peyroteo, por duas vezes, e Eliseu, ao passo que os golos do Benfica foram apontados por Espírito Santo e Júlio. O jogo acabou por ter prolongamento pois terminou 1-1 no tempo regulamentar.

5. A mais espetacular final da Taça de sempre

Não há memória de nada parecido. Por muito que alguns jogos estivessem perto (ainda recentemente o FC Porto bateu o V. Guimarães por 6-2), nove golos numa final da Taça de Portugal só mesmo a 15 de junho de 1952.

Frente a frente os dois protagonistas desta história, claro está. Vitória para o Benfica contra um Sporting que já só tinha dois dos «Violinos» (Albano e Travassos) em 90 minutos do mais intenso que se tinha visto até então no dérbi.

Vamos à marcha do marcador? Respire fundo…Começa o Sporting, com um penálti de Albano aos 9 minutos. Empata o Benfica aos 23, também de penálti por Rogério Pipi. Intervalo. Na segunda parte, aos 49, Corona, não Jesus como o do FC Porto mas Eduardo José, faz o 2-1. Responde o Sporting em dois atos: Rola empata aos 51, Martins faz o 2-3 aos 55. Novo empate aos 69, por Rogério Pipi, que bisa. Rola faz o mesmo aos 71 e o Sporting passa para a frente. Mas há ainda espaço para a última reviravolta. José Águas empata a quatro aos 73 e, no último minuto, Rogério Pipi faz o hat-trick que vale o 5-4 final.

O livro «Clássicos do Futebol Português» acrescenta um pormenor curioso: «Logo a seguir ao 5-4, Carlos Gomes, guarda-redes dos leões, correu para o meio campo com a bola nos braços e incentivou os companheiros mas já não havia tempo. O barulho infernal do Jamor a puxar pelo Benfica era tal que ninguém ouviu o apito final de Reis Santos. O árbitro de Santarém teve de se fazer entender por gestos.»

Quer saber mais sobre esta final? Está tudo aqui, pela voz do herói do jogo, Rogério Pipi, numa reportagem do Maisfutebol de 2013.

Rogério Pipi

6. Um ano suspenso por uma falta que não cometeu

Mais do que o 2-1 favorável ao Sporting no jogo de 15 de março de 1959, a história do dia foi a batalha campal que aconteceu em Alvalade depois da expulsão de Ângelo Martins.

O estádio encheu e os relatos da época falam em espectadores a «dois metros da linha de campo». Na segunda parte, Reinaldo Silva, o árbitro, expulsa Ângelo, futuro bicampeão europeu, por uma falta sobre Travassos. Problema? A falta foi cometida por Alfredo.

Ângelo não se conforma, tenta explicar mas é-lhe indicada a porta de saída. Quando recolhia para os balneários debaixo de insultos do público instala-se a confusão. A polícia tenta intervir, mas não controla as pessoas. Já havia gente em campo, Artur Santos chega a perder os sentidos entre a confusão e tudo demora algum tempo a ser sanado.

No rescaldo, pena pesada para aquele que foi visto como o causador de tudo: um ano de suspensão. Em 1959/60, Ângelo faz apenas sete jogos pelo Benfica, mas o título vai para a Luz. Passo fundamental para as duas Taças de Campeão Europeu que chegariam nas épocas seguintes.

7. O dia em que o Sporting «inventou» o blackout

A década de 50 fica marcada pela inauguração dos dois grandes estádios dos rivais de Lisboa. A 10 de junho, o de Alvalade, a 1 de dezembro, o da Luz. Seguem-se anos de tentativas frequentes para conquistar o forte alheio.

Durante nove anos, as duas equipas conseguem evitar perder em casa com o rival, mas a 28 de abril de 1963, o Benfica quebra o enguiço e vence em Alvalade. Vitória por 3-1, com golos de Augusto Silva, Eusébio e Simões.

O Sporting não gostou, claro. Haveria de vingar-se ganhando na Luz dois meses mais tarde, em jogo da Taça de Portugal em que brilhou Figueiredo, o «Altafini de Cernache». Mas naquele dia «vingou-se» nos jornalistas: ao contrário do habitual, os jogadores foram proibidos de comentar o jogo. É o primeiro blackout conhecido do futebol português…

8. Alguém viu o brinco de Vítor Batista?

Se é conhecedor da história do futebol português, muito provavelmente quando começou a ler este artigo imaginou que, mais tarde ou mais cedo, o brinco de Vítor Batista surgisse no seu caminho. E acertou, claro.

Porventura o episódio paralelo mais famoso da história do dérbi aconteceu a 12 de fevereiro de 1978, no último ano do génio selvagem na Luz. O golo que decidiu o jogo, sensacional, é de Vítor Batista, mas o festejo é estranhamente tímido. Tanto que nem parece um festejo…E não foi. Os abraços iniciais fazem-lhe saltar o brinco que usava e a preocupação do excêntrico avançado era encontrar a sua joia. Os colegas ajudam por uns minutos, mas nada feito. Apareceu no dia seguinte, quando o tratador de relva da Luz passou o tapete a pente fino. Vítor Batista explicou a urgência, ainda antes da boa nova: «O brinco custou-me 12 contos e o prémio do jogo era de oito. Perdi dinheiro a trabalhar»

9. Coroado expulsa Caniggia, o jogo é repetido mas não conta…

Na década de 90 a história mais incrível aconteceu em 1995, num jogo na Luz que o Sporting ganhou por 2-1, com golos de Balakov e Iordanov. O momento marcante, contudo, veio a dez minutos do fim, já com o resultado feito, quando Jorge Coroado, o árbitro, expulsa Claudio Caniggia, a irreverente estrela argentina do Benfica.

Instala-se a confusão porque Coroado puxa um amarelo e depois o vermelho. Como, se Caniggia não tinha vermelho? O jornal «i» recuperou o caso recentemente e cita o árbitro: «O que as pessoas pensaram foi que eu me tinha enganado. Que eu julgava que ele já tinha amarelo e que portanto foi segundo amarelo. Nada disso. Foi amarelo, o primeiro dele naquele jogo, e depois o vermelho direto, porque não aceito insultos de ninguém. Nem em português nem em castelhano.»

Coroado é literal: «Chamou-me ‘filha da p*’ e mandou-me para a ‘p* que pariu’» O Benfica alega que não, apoia-se nas imagens e apresenta um pedido para repetição do jogo alegando erro técnico.

A Federação concorda e manda que se jogue novamente, com o Benfica a vencer por 2-0, no Restelo, com bis de Edilson. A finalizar o ramalhete intervém a FIFA e dá razão a Coroado e ao Sporting. Vale o primeiro jogo e a vitória é verde e branca.

10. A medalha de Pedro Silva a voar…

A finalizar, o episódio mais recente, que certamente estará na memória de todos. A 21 de março de 2009 o dérbi lisboeta é, pela primeira vez, jogado numa nova competição, a Taça da Liga. E logo na final.

O palco é o Estádio do Algarve, num jogo que o Sporting tem controlado até ao minuto 73. Os leões de Paulo Bento ganhavam 1-0 quando Di Maria tenta entrar na área, a bola bate no peito de Pedro Silva, lateral do Sporting, e, erradamente, o árbitro Lucílio Baptista mandar marcar penálti e expulsa o brasileiro.

Pedro Silva perde a cabeça, ainda dá um encontrão no árbitro e na cerimónia final daquele jogo que o Benfica venceu no desempate por penáltis, pega na medalha de finalista e atira-a para o relvado, numa imagem que ficou para a história.