Com o Liverpool na liderança da Premier League e o Celtic a festejar o 45º título de campeão da Escócia, «You'll never walk alone» tem-se ouvido nas bancadas com intensidade redobrada na última semana. Pretexto ideal para revisitar aquela que é provavelmente a canção mais ouvida nos estádios de futebol de todo o mundo e para conhecer o percurso de um mito.

Esta história começa há 50 anos e tem de especial o facto de cruzar, como mais nenhuma, algumas referências fundamentais da mitologia futebolistica com as da cultura popular dos anos 60. A começar, talvez, por George Martin, o lendário produtor musical, responsável direto pelo sucesso dos Beatles. Foi ele quem, no verão de 1963, sugeriu ao grupo de Liverpool, Gerry & the Pacemakers, a regravação de um tema de 1945, que a dupla Rodgers (música) e Hammerstein (letra) tinha composto para o musical da Broadway chamado «Carousel».

When you walk through a storm hold your head up high

And don't be afraid of the dark

At the end of a storm is a golden sky

And the sweet silver song of a lark

Walk on through the wind

Walk on through the rain

Though your dreams be tossed and blown

Walk on, walk on with a hope in your heart

And you'll never walk alone

You'll never, ever walk alone

Walk on, walk on with a hope in your heart

And you'll never walk alone

You'll never, ever walk alone

A escolha de Martin era ambiciosa, uma vez que a canção – um hino fortemente emocional, introduzido na peça como tema de esperança para uma viúva cujo marido cometeu suicídio – já tinha sido gravada por craques da canção como Frank Sinatra, Judy Garland, Doris Day e Nina Simone. Mas, abafados pela explosão dos Beatles, Gerry & the Pacemakers precisavam de outro êxito para suceder a «I Like It», que tinha chegado a número um no Top britânico. É aí, na segunda metade de 1963, que esta história se cruza com Bill Shankly, o homem mais importante da história do Liverpool Football Club e um dos técnicos mais marcantes da história do futebol.

Chegado a Anfield em 1959, Shankly pegou num clube pequeno, que penava na segunda divisão, e em meia dúzia de anos transformou-o na maior potência do futebol inglês, estatuto que o clube manteve até final da década de 80, bem depois da saída do seu mentor. Além dos conhecimentos futebolísticos, Shankly levou para o Liverpool um sentido de identidade que se traduzia em inúmeros pormenores extra desportivos. Um deles, a valorização do «Kop», a gigantesca bancada de 30 mil lugares em pé, atrás de uma das balizas, como verdadeiro símbolo das classes populares que sustentavam o clube.

Ora nesse início dos anos 60, enquanto se aproximava do topo do futebol inglês, o Liverpool era também centro de uma cena musical enérgica, que deu origem a vários grupos de sucesso, na esteira dos Beatles. E um dos rituais dos jogos do Liverpool em casa era a passagem, na instalação sonora, das dez primeiras canções do top musical, em ordem crescente: as que mais facilmente ficavam no ouvido eram entoadas por coros espontâneos de 20 ou 30 mil adeptos, criando um ambiente único para o pontapé de saída, poucos minutos depois.

A 19 de outubro de 1963, quando o single «You'll never walk alone», de Gerry & the Pacemakers, oitavo classificado dessa semana no top-10 da Billboard, começou a soar nos altifalantes, algo de mágico aconteceu: rotinados por anos a ouvir a música em «pubs», os adeptos do Liverpool agarraram-na e não a largaram mais.

Gerry Marsden, líder do grupo musical e fervoroso adepto dos «reds», estava na bancada nessa tarde e, como contou anos mais tarde ao Independent, lembra-se de pensar: «Estão a cantar a minha canção! Isto é fantástico!». Dez dias mais tarde, a 29 de outubro, «You'll never walk alone» chegou a número 1 no Top e foi cantado por todo o estádio no jogo seguinte dos «reds», em casa, escassos minutos antes do pontapé de saída. Quando a canção perdeu o primeiro lugar para «She Loves You», dos Beatles, os dotes musicais dos membros do Kop permitiram acompanhar a mudança com esta fantástica versão, imortalizada numa peça da BBC:

Mas quando «You'll never walk alone» saiu do top-10, em 1964, os adeptos recusaram-se a abrir mão do ritual: cantaram em coro «Where's our song? Where's our song?» até o DJ de serviço fazer ecoar a inconfundível introdução do tema. E Gerry Marsden conta que a consagração suprema chegou em 1965, em Nova Iorque, durante a gravação do Ed Sullivan Show, quando conseguiu juntar em palco toda a equipa do Liverpool, em digressão, para participar no coro. No final, Shankly aproximou-se do vocalista-adepto e disse-lhe olhos nos olhos: «Gerry, filho, dei-vos uma grande equipa de futebol e tu deste-nos uma canção», contou Marsden.

A partir daí não voltou a haver jogo em Anfield sem que o tema de Rodgers & Hammerstein seja ouvido na instalação sonora e cantado em coro pelos adeptos. Mas ainda mais relevante do que isso, foi o facto de o Liverpool, potência emergente na Europa do futebol, ter levado a febre a outras paragens.

Em 1966, as meias-finais da Taça das Taças permitiram aos adeptos do Celtic tomar contacto com a tradição, que foi levada para Parkhead, onde os elementos da «Jungle», na Tribuna Norte, a passaram a tratar como sua. O mesmo aconteceu com os torcedores do Borussia Dortmund que, nesse mesmo ano, bateu o Liverpool na final realizada em Glasgow. De Dortmund, alastrou um pouco por toda a Alemanha, onde ainda hoje faz figura de lugar-comum em variadíssimos estádios. E da Alemanha saltou facilmente para Roterdão, onde, na versão interpretada pelo «crooner» holandês Lee Towers, passou a acompanhar a entrada em campo do Feyenoord e da seleção, quando esta jogava no de Kuip.

Em 1982, a inauguração em Anfield das «Shankly Gates» - portões de entrada no estádio, em homenagem ao homem que esteve na origem de tudo - foi o traço final de imortalização do tema, que passou a ficar inscrito como lema oficioso do clube.

A sigla YNWA passou a ser salvo-conduto entre todos os adeptos e simpatizantes dos «reds», tão presente na identidade do Liverpool como as camisolas vermelhas, ou o «liver bird» do emblema. A canção tornou-se protagonista de momentos particularmente intensos, como as evocações da tragédia de Hillsborough, em 1989, quando 96 adeptos dos «reds» perderam a vida esmagados contra as barreiras do estádio de Sheffield.

Mais feliz é a memória da final da Liga dos Campeões de 2005, em Istambul: a perder por 3-0 com o Milan, ao intervalo, os adeptos chamaram a equipa para a segunda parte com uma versão espontânea do tema e, em poucos minutos, o Liverpool assinou a recuperação inimaginável (3-3), acabando por ganhar o troféu nos penaltis.

Mas, com perdão para os adeptos dos «reds» e as memórias do Kop, o auge da intensidade terá sido atingido em Glasgow, a 11 de março de 2004, quando o Celtic recebeu o Barcelona, no rescaldo dos atentados de Madrid, que nessa manhã tinham tirado a vida a 191 pessoas. A prova definitiva, se preciso fosse, da força de um hino que nasceu em Nova Iorque, na ressaca da II Guerra Mundial, e se reinventou em Liverpool, 18 anos mais tarde, para se tornar parte da cultura futebolística de qualquer adepto com paixão e memória. Ouçam com atenção, isto é futebol do melhor.