Antigo diretor organizativo do Milan, Paolo Taveggia recordou, em entrevista ao portal «MilanNews», episódios caricatos que envolveram árbitros, em jogos marcantes do período entre 1988 e 1991.

Taveggia começou por recordar a goleada por 5-0 ao Real Madrid, que permitiu a passagem do Milan à final da Taça dos Campeões Europeus de 1989.

«Na véspera do jogo o nosso guarda-redes, Giovanni Galli, contou-me que em Madrid o Hugo Sánchez tinha passado o tempo todo a cuspi-lo. Contei isto ao árbitro da segunda mão, antes do jogo, e pedi-lhe para ter atenção ao Sánchez. Não é coincidência que tenha visto amarelo logo na primeira falta, aos três minutos», recordou.

«No final do jogo o Schuster estava histérico, por causa da humilhação sem precedentes que o Real Madrid tinha sofrido, e disse-me que tínhamos comprado o árbitro. Respondi-lhe que não éramos como os dirigentes dele», acrescentou ainda Taveggia.

O antigo dirigente do Milan "viajou" depois até novembro de 1988, quando o Milan foi jogar a Belgrado, depois de ter empatado a um golo em casa. A equipa italiana esteve a perder na segunda mão por um a zero, e com um jogador a menos, mas o nevoeiro obrigou a adiar o jogo para o dia seguinte.

«O árbitro mandou recolher aos balneários e disse que era preciso esperar 45 minutos para ver se o nevoeiro levantava. Comecei a fumar cá fora, por causa da tensão. Estava a torcer para que o nevoeiro se mantivesse. Provavelmente estava a fumar um cigarro atrás do outro para aumentar o nevoeiro (risos). Fui ao balneário para tomar qualquer coisa quente e vi quatro ou cinco jogadores a tomar banho, com os equipamentos no chão. Não tinham percebido que o encontro estava suspensão e não adiado. Tive de arranjar uma cena à italiana: fui ao balneário do árbitro, a falar o inglês mais básico, e perguntei se o encontro estava suspenso ou adiado. Recebi a mesma resposta e comecei a fazer uma cena, a dizer ao árbitro que a minha carreira estava em risco, pois tinha existido um mal-entendido e os jogadores já estavam no banho», recordou.

O jogo foi mesmo adiado, e depois de tratar de várias questões burocráticas pendentes, incluindo o alojamento dos adeptos, Taveggia decidiu ir à principal discoteca de Belgrado, acompanhado pelo assessor de imprensa.

«Apanhámos o táxi e fomos para esse local. Estava convencido que o árbitro lá estaria. Meia hora depois chega um Mercedes branco com a equipa de arbitragem e algumas raparigas, acompanhados por dirigentes do Estrela Vermelha», acrescentou.

O jogo do dia seguinte foi iniciado do primeiro minuto, com 0-0 no marcador, e após um empate a um golo o Milan garantiu a passagem nos penáltis.

Taveggia recordou depois o duelo com o Marselha, de 1991, e um telefonema anterior de Uli Hoeness, que já na altura era dirigente do Bayern de Munique.

«Tínhamos uma excelente relação. Ligou-me e deixou claro que era uma conversa privada, em nome da nossa amizade. Disse-me que o Beckenbauer (então dirigente do Marselha) tinha avisado que estava a preparar coisas simpáticas para o Milan, e que até existia risco de contaminação da comida no hotel», garante Taveggia.

O dirigente italiano decidiu então mudar o hotel à última hora, mas o jogo acabou mesmo por ter invasão de campo (e não só)

«A três minutos do fim o árbitro fez um gesto que foi interpretado como final do jogo. Os jogadores do Marselha começaram a festejar e alguns adeptos começaram a entrar em campo. Os jogadores já estavam a trocar camisolas, e nessa altura uma das torres de iluminação apagou-se», conta Taveggia.

«Fomos para o balneário, mas as portas do túnel estavam fechadas. Foi um caos absoluto. Estávamos ali presos e o Jean-Pierre Papin (ndr. que depois foi para o Milan) a cuspir-nos», acrescenta.

Perante a confusão, o Milan recusou-se a regressar ao relvado, por ordem de Adriano Galliani. O árbitro voltou para retomar o jogo, mas apenas com o Marselha presente, pelo que foi aplicada uma derrota por 3-0 à equipa italiana, que ainda para mais foi afastada das provas europeias por um ano.