Ricardo Sá Pinto saiu do Irão poucas horas antes de começar o ataque conjunto de Israel e Estados Unidos, mas conta, em conversa com a CNN Portugal, que o ambiente já estava muito tenso nas ruas de Teerão. Um relato impressionante do treinador português que espera agora pela queda do regime para um dia voltar a trabalhar naquele país.
«Já saí do Irão há mais de uma semana, saí dois ou três dias antes de começar o conflito. Já previa que isto acontecesse e a minha saída, de certa forma, está relacionada com isso. O ambiente ficou muito tenso, as pessoas ficaram com medo e percebeu-se, com algumas informações que também tinha, que algo em breve ia acontecer. Era uma questão de horas ou de dias», começa por contar.
O treinador de 53 anos estava a treinar o Esteghal, na capital do Irão e saiu antes de começarem a cair as primeiras bombas, mas revela que o ambiente estava a piorar a olhos vistos desde que começaram as manifestações nas ruas. «Nessa altura sim, a partir das 18h00 evitava sair à rua. Morreu muita gente, as pessoas não têm ideia, de uma forma cobarde, de uma forma inacreditável, porque as manifestações foram muito pacíficas. Muito dos polícias estavam inseridos no meio das pessoas, à paisana e foram matando jovens de 20 e 30 anos de uma forma inacreditável, com uma arma na cabeça por trás», conta o treinador já em Portugal.
Terão sido mortos centenas ou mesmo milhares de manifestantes, entre os quais, alguns antigos jogadores. «Morreram jovens, crianças e figuras públicas. Morreu um jogador de futebol que jogou contra mim há três anos que estava no Tractor. Ele estava com a família e deram um tiro na mulher também, a miúda também foi atingida e foram todos para o hospital, mas o pai morreu logo ali. Ouvi relatos incríveis e vivi de perto. A maior parte dos vídeos e das imagens que vi aqui não apareceram na Europa», acrescenta.
Ainda não tinha começado a guerra aberta, mas Sá Pinto já tinha percebido que algo ia acontecer. «Além de percebe isso, a situação não ficou igual. A restauração, o comércio continuou aberto, mas o estado de espírito não era o mesmo. Os preços subiram para aí cinco vezes mais, as pessoas ficaram numa situação financeira difícil e isso é que levou, no início, às manifestações. Sentia-se muita tensão, as pessoas já não dormiam à noite», explica.
Um ambiente que também acabou por afetar o futebol, apesar do campeonato não ter sido interrompido. «As famílias dos jogadores estrangeiros já não se sentiam seguras. Houve ali uma fase em que a minha equipa técnica foi para Portugal e os jogadores estrangeiros também saíram e o campeonato, inacreditavelmente, não parou. Houve um jogo da Taça e uma equipa não quis jogar sem estrangeiros e perdeu o acesso aos quartos de final», conta.
A equipa de Sá Pinto era líder do campeonato e estava qualificada para os quartos de final da Taça. «Sim, estávamos no primeiro lugar, estávamos a jogar para ganhar dois títulos, só que depois deixaram de pagar ordenados, deixaram de pagar a renda de casa, deixaram de pagar tudo o que prometiam. Já há um mês que andava saturado», destaca ainda.
Foi a segunda passagem de Sá Pinto pelo Irão e o treinador até admite regressar, mas só depois de uma eventual queda do regime. «Pondero com certeza regressar quando o regime cair. Vai cair de certeza. Se não cair, não regresso», atirou.
Quanto à queda do regime, Sá Pinto acredita que pode acontecer, mas só pela força militar dos Estados Unidos. «Não é o povo iraniano, é o Donald Trump e os seus aliados é que o têm de o fazer. Ele [Trump] tem de cumprir a promessa quando disse que agora não há mais espaços para acordos. Agora vai até ao final, é isso que estamos todos à espera», destacou ainda.