Numa conversa longa e paciente com Jorge Silva, são recordados os feitos oníricos do início da década - título nacional, duas presenças na Liga dos Campeões e uma meia-final da Taça UEFA - e colocada em pratos limpos a realidade do emblema portuense. Tudo numa entrevista Maisfutebol.

O Boavista caiu recentemente no último lugar da Liga de Honra. Há ainda força, motivação e energia para tirar a equipa desta posição?

Tem de haver. Esta é a primeira vez que isto nos acontece. Nunca pensámos estar neste lugar. Depois da vitória frente ao Varzim aqui no Bessa, pensámos que se vencêssemos o Portimonense poderíamos dar um passo tranquilo rumo à manutenção. Não o conseguimos. Temos feito alguns bons jogos em casa, mas sem conseguir aliar as boas exibições a bons resultados. Agora¿ pior é impossível. Temos de dar as mãos e fazer o melhor. Há um nome e uma instituição a defender. Mesmo nesta situação eu noto que as pessoas respeitam muito o Boavista. Mesmo a comunicação social interessa-se muito por nós e queremos que comece a dar boas notícias. Vitórias, manutenção na Liga de Honra e a resolução dos problemas financeiros.

Passa-lhe pela cabeça o fim do futebol profissional do Boavista?

É lógico que vou pensando nisso. Mas não quero que tal tome conta do meu pensamento. Seria demasiado forte para quem gosta do Boavista - um clube com esta grandeza, uma instituição com mais de 100 anos ¿ ver o futebol acabar desta forma. Há oito anos fomos campeões. É preciso que as pessoas parem e ajudem. Os responsáveis têm feito tudo o que podem mas encontram também muitas barreiras. É preciso uma mão que traga dinheiro, soluções e dias tranquilos aos boavisteiros.

Já houve algum feedback depois da marcha realizada na passada semana?

Ainda não. A nação boavisteira está unida mas isso não chega. Estamos a tentar alertar consciências mas o clube precisa mais do que isso.

Sente mágoa por nunca ter jogado no estrangeiro ou num clube ainda maior?

Alguma, sim. Em 2002 estava na minha melhor fase, representei duas vezes a Selecção Nacional mas uma lesão grave travou-me. Tive de voltar ao zero, recuperei, mas tudo se inverteu. Sou um jogador de muito contacto e não foi fácil recuperar a confiança. Superei isso mas já não fui a tempo de voltar ao nível anterior.

Depois de uma época tão desgastante, física e mentalmente, sente-se com coragem para jogar futebol mais alguns anos?

Tem sido uma época difícil, de facto. Mas a paixão pelo treino e pelo jogo ainda são enormes. Quero ajudar o Boavista e depois vou fazer uma análise sobre o meu futuro.