Khaman Maluach tinha 13 anos quando ouviu um conselho que lhe mudaria a vida. Enquanto caminhava pelas ruas poeirentas de Kawempe - um subúrbio empobrecido nos arredores de Kampala, a capital do Uganda - de regresso da escola, um motociclista parou em frente a ele, olhou para a estatura incomum daquele miúdo e aconselhou-o a começar a jogar basquetebol.

«Em três ou quatro anos, vais ser uma pessoa muito alta», garantiu.

 

Há cinco dias, na noite de 26 de junho de 2025, o presságio tornou-se realidade da forma mais memorável possível: do alto dos seus 2,18 metros de altura, Maluach foi anunciado pelo comissário Adam Silver, no Barclays Center, em Brooklyn, como a décima escolha do draft.

Tornou-se então, com apenas 18 anos, oficialmente jogador da NBA.

Inicialmente foi selecionado pelos Houston Rockets, mas de imediato foi transferido para os Phoenix Suns, ao abrigo do acordo de transferência de Kevin Durant para Houston. Será em Phoenix, portanto, que dará início à carreira na principal liga de basquetebol do mundo.

Uma infância marcada por fuga, fé e resiliência

A vida de Khaman Maluach, de resto, dava um filme. Mais tarde ou mais cedo dará, aliás: Hollywood adora estas histórias.

Afinal de contas, ele não é apenas mais um jogador na NBA. É um símbolo. Um farol. Um sonho tornado realidade: para ele, para a família e para um continente inteiro.

Mas vamos por partes.

Nascido em 2006 no Sudão do Sul, Khaman Maluach viu-se forçado a fugir para o Uganda com a família, devido à guerra civil que destroçou o país e criou uma enorme crise humanitária. Acabou, por isso, por crescer num campo de refugiados em Kawempe, ao lado da mãe e de seis irmãos, do outro lado da fronteira e a mil quilómetros de casa.

Neste ambiente o basquetebol não passava de uma miragem distante.

«O campo mais próximo do campo de refugiados ficava a uma hora a pé e estava quase sempre lotado», disse Maluach à BBC Sport Africa.

Por isso, aquele miúdo de 13 anos começou a aprender a jogar sem uma bola, uma tabela ou um cesto. Como isso é possível? É, sim senhor. A ver vídeos no Youtube.

«Eu e meu irmão fazíamos uma coisa a que chamávamos ‘turno da noite’. A partir da meia-noite, as empresas de telecomunicações em África oferecem dados móveis a um preço mais barato. Por isso, depois da meia-noite ficávamos a ver vídeos do Giannis Antetokounmpo e do Joel Embiid no Youtube. Durante toda a noite ficava a ver o jab step do Giannis e o shimmy do Joel. Via-os a jogar e sentia-me inspirado a não desistir do meu sonho. Pensava eu se eles conseguiram chegar lá, eu também vou conseguir.»

Um dia ganhou coragem e caminhou durante uma hora, para o tal campo mais próximo do local onde ele vivia. Quando lá chegou, o sonho começou a ganhar forma.

«Fui ao campo e vi rapazes muito altos a jogar. Eles estavam felizes e pensei: ‘É aqui que eu pertenço’. Voltei no dia seguinte e peguei numa bola. Tinha 13 e foi a primeira vez que toquei numa bola de basquetebol.»

Da Uganda para o mundo: quando o talento encontra oportunidade

Por aqueles dias não tinha sequer sapatilhas para calçar. Mas nem isso o travou.

Afinal de contas, foi nestes contextos adversos que alimentou sempre a paixão pelo jogo e a obsessão pelos sonhos que parecem inalcançáveis.

Por isso seguiu em frente.

Rapidamente o talento bruto de Khaman Maluach chamou a atenção de Wal Deng, o antigo jogador dos Chicago Bulls que nasceu também no território que agora é o Sudão do Sul, que cresceu em Londres e que atualmente é presidente da federação sul-sudanesa de basquetebol.

Deng convidou então Maluach para participar num acampamento de basquetebol e tentou colocar-lhe pela primeira vez umas sapatilhas nos pés.

O problema é que aos 13 anos, o miúdo já calçava o número 48. Não havia nenhumas tão grandes e Maluach pediu para jogar com as crocs com que andava todos os dias.

«A primeira vez que vi Khaman, percebi que ele tinha muito potencial. Vejo muito de mim próprio nele. Conheci muitos jogadores talentosos, mas que se deixaram distrair pelo barulho e isso impediu-os de alcançarem a grandeza. Khaman não. Ele quer isso, essa grandeza. Sabe o que é preciso para alcançá-la e aprende muito rapidamente. Isso é que o torna único. Na altura disse aos meus colegas que aquele miúdo seria o próximo grande nome», contou Wal Deng.

A estreia aos 15 anos, o Campeonato do Mundo aos 16 e os Jogos Olímpicos aos 17

Em pouco tempo, e por indicação de Deng, Khaman conquistou uma bolsa para a Academia NBA de África, em Dakar, no Senegal.

Aos 14 anos, voltou a mudar de país e novamente com grandes sacrifícios pessoais: ficou, por exemplo, dois anos sem voltar a Kawempe e sem ver a família, enquanto se concentrava em desenvolver o seu jogo e nos estudos académicos.

«A Academia ajudou-me a crescer de muitas maneiras. No campo, competir contra os melhores talentos africanos fez-me melhorar constantemente, mas também academicamente cresci muito. Uma das principais razões pelas quais levei o basquetebol tão a sério foi precisamente para conseguir ter educação. Houve uma altura em que passei dois semestres sem ir à escola no Uganda. Isso não podia voltar a acontecer.»

A verdade é que o tempo passado na Academia, no Senegal, mudou a vida do jovem para sempre: melhorou tecnicamente, ganhou estrutura física e adquiriu capacidade mental para competir ao mais alto nível.

Com 15 anos estreou-se na Liga Africana de Basquetebol e aos 16 anos já representava a seleção nacional do Sudão do Sul.

Foi, aliás, o jogador mais jovem no Campeonato do Mundo de 2023, nas Filipinas, torneio no qual ajudou a seleção a garantir uma histórica qualificação olímpica para Paris 2024.

Não foi por isso surpresa nenhuma que em 2024, após participar nos Jogos Olímpicos, tenha assinado com um dos melhores programas de basquetebol universitário dos Estados Unidos, na Duke University. Nessa altura, já era aliás amplamente conhecido na América.

Troy Justice, vice-presidente sénior da NBA, ainda se lembra do primeiro vídeo de WhatsApp que lhe foi enviado por um olheiro da Academia NBA de África.

«Acreditamos que é perfeito para o programa da academia. É impressionante como um rapaz alto de 14 anos, que nunca jogou basquetebol, tem tanto potencial», dizia o relatório.

Ao lembrar hoje esses dis, Khaman Maluach não pode deixar de sorrir.

«Cresci sem saber nada sobre o basquetebol, mas quando comecei a acompanhar vi os highlighs de Zion Williamson e vi-o a ir para a Universidade de Duke. Foi assim que fiquei a conhecer Duke. Quando tentei explicar aos meus primos que sou da Duke, eles não entenderam. Mas quando lhes digo que sou de Zion Williamson, eles acham fixe e entendem.»

O impacto emocional de um momento histórico

«Com a décima escolha do draft da NBA de 2025, os Houston Rockets selecionam Khaman Maluach. De Rumbek, no Sudão do Sul, da Academia da NBA África, no Senegal, e da Universidade de Duke», anunciou o comissário da NBA, Adam Silver, em direto do Barclays Center para o mundo.

Maluach vestia um blazer especial, forrado com as bandeiras do Sudão do Sul e do Uganda. Quando as câmaras o focaram, olhou para o chão e as lágrimas correram-lhe pela face.

«Não pensei que fosse chorar, mas toda a minha jornada para chegar aqui passou pela minha cabeça: a minha família, o meu povo, estou aqui a representar todo o continente africano. Acreditei em mim mesmo, mesmo quando tudo parecia impossível. É um momento muito especial para mim. Vindo de África, eu tinha todo o continente às minhas costas, dando esperança às crianças e inspirando-as, bem como a próxima geração de jogadores de basquetebol africanos.»

Do outro lado do oceano, em Entebbe, no Uganda, a família explodiu em festa. A mãe, Mary Aweng, e o irmão mais velho, Majok Madit, agradeceram entre lágrimas, com danças e orações. «É uma bênção para a nossa família e para África», disse Majok, o mano que ainda hoje só consegue vê-lo no Youtube: quando o vê na televisão, fica demasiado emocionado.

Nenhum deles conseguiu viajar para os Estados Unidos, devido às sanções impostas pela administração de Donald Trump aos cidadãos do Sudão do Sul. Nem a família, nem os treinadores que o fizeram crescer na Academia da NBA África.

Uma irmã que vive na Austrália foi a única que conseguiu visto para entrar no país e estar no Barclays Center, em Brooklin. Ela e os amigos da Universidade de Duke foram, na verdade, o único apoio daquele miúdo de 18 anos numa noite tão importante.

O antigo treinador Wal Deng acompanhou tudo pela televisão e, apesar de ter sido ele próprio uma estrela, três vezes All-Star da NBA, não conseguiu conter a emoção.

«Ver o Khaman passar de jogos em campos improvisados do Uganda para o palco do Draft da NBA é como um sonho. Ele é agora um símbolo de esperança para África.»

Maluach, por outro lado, tem plena consciência do que representa. Prometeu enviar o boné do Draft para os treinadores que lhe ensinaram os fundamentos do jogo e garantiu que vai continuar a inspirar jovens africanos.

«Quero mudar a narrativa sobre a forma como o mundo vê África. Temos culturas ricas, cidades vibrantes como Kigali e Dakar, paisagens incríveis. Quero ser um embaixador de tudo o que é bom no nosso continente. O meu objetivo a longo prazo é colocar África no mapa e proporcionar muitas oportunidades às crianças, porque o meu continente tem muito talento por descobrir. Tudo o que precisa é de uma oportunidade. Por isso digo a todos os jovens africanos que não é preciso magia. Acreditar, sonhar e trabalhar pode levá-los longe. Eu também achei que era uma ilusão, até que se tornou realidade. Estou na NBA.»