Lado B é uma rubrica que apresenta a história de jogadores de futebol desde a infância até ao profissionalismo, com especial foco em episódios de superação, de desafio de probabilidades. Descubra esses percursos árduos, com regularidade, no Maisfutebol:

«Há duas Copas do Mundo eu estava na Lituânia», lembra Paulinho. O médio do Tottenham chega a 2014 como titular da seleção brasileira mas não esquece os obstáculos que surgiram ao longo da carreira.

Aliás, eis a conclusão lógica: Paulinho é jogador de futebol por exclusão de hipóteses. Na data oficial para o arranque do Mundial de 2014, com o Brasil a enfrentar a Croácia, eis o percurso sinuoso de José Paulo Bezerra Maciel Júnior.

Nascido na zona leste de São Paulo há um quarto de século, o volante teve pouco contacto com o pai biológico. «Vi-o pela última vez quando tinha oito anos e depois só quando já estava no Corinthians, mas não guardo mágoa.»

O pai saiu de casa e a mãe, apaixonada pelo futebol, traçou o caminho. Paulinho foi rejeitado por São Paulo, Corinthians e Barueri. A oportunidade surgiu no modesto Audax, a uma distância considerável de casa.

Aos 14 anos, sem grande suporte financeiro, o adolescente tinha de se sacrificar. Acordava às 5h40 e percorria todos os transportes públicos: comboio, metro, autocarro. Treinava e estudava ao mesmo tempo.

«Não queria ir treinar. Ia, voltava e no outro dia a mesma coisa. A certa altura disse que aquilo não era para mim. Acordar às 5h40 para regressar a casa às 19h00 não dava para mim.»

Erika, a mãe, insistiu. Percebe-se que o sonho era dela, não tanto do jovem. «Ele não gostava, não queria. Nós o obrigamos a ser jogador. Não era o sonho dele.»

Por essa altura, 2002, o Brasil vencia o Mundial com Luiz Felipe Scolari. Doze anos mais tarde, novo capítulo da história com Paulinho no elenco. 

 

José Paulo Bezerra Maciel Júnior resistiu à tentação de desistir mas voltaria a ser testado mais à frente, nos confins da Europa. Com 17 anos, recebeu uma proposta inesperada do FC Vilnius e partiu para a desconhecida Lituânia.

«Ia passear com a minha mulher pelo centro da cidade e algumas pessoas iam contra nós para provocar. Nos jogos, imitavam macacos e atiravam moedas.

O volante fartou-se. Um ano mais tarde, em 2007, acertou a transferência para o LKS Lodz da Polónia. Novas dificuldades.

«Na Polónia passei por dificuldades financeiras. Era um salário baixo e tinha de poupar porque no mês seguinte podia não receber. Para além disso, não joguei. Fiquei praticamente meio ano no banco. Foi mais um motivo para pegar na malinha e voltar para o Brasil.»

Paulinho regressa a casa desolado. Algo de racismo na Lituânia, sem rendimento garantido e utlização regular na Polónia, pensa novamente em desistir.

Uma vez mais, são as mulheres da sua vida a impedir o desvio no percurso. «Chegou uma hora, em 2008, que falei em parar de jogar futebol. Não aguentava mais. Se não fosse a minha esposa, não sei se não teria largado o futebol.»

A verdade é que Paulinho, agora com vinte anos, não sabia fazia nada mais que jogar futebol. Era aquele o seu caminho, a profissão a que tinha de ser agarrar por exclusão de hipóteses.

«Decidi começar do zero. Não tinha para onde ir, não sabia trabalhar, não sabia fazer mais que jogar futebol. Voltei para o Brasil e foi disputar a quarta divisão do campeonato paulista!»

O volante vestiu novamente a camisola do Audax de São Paulo. Sem luxos, ainda a depender de apoio familiar, começou a evoluir, agora de forma segura. Um ano no Audax, outro no Bragantino e finalmente o Corinthians, em 2010.

«O futebol é bom por isso mesmo, tudo pode mudar rapidamente.

Paulinho chegou à Seleção Brasileira com naturalidade, em setembro de 2011. Dois anos mais tarde, regressou à Europa pela porta grande, com o Tottenham a deixar 20 milhões de euros nos cofres do Corinthians. Arranca o Mundial e o volante está lá, no onze provável de Scolari. Resistiu porque não sabia fazer mais nada na vida: apenas jogar futebol.