A visita do Benfica a Atenas teve tudo para se transformar num passeio no Olimpo, mas acabou por tornar-se numa luta feroz na arena. Aos 15 minutos, os encarnados já venciam por 2-0, com golos de Seferovic e Grimaldo.

Parecia não haver deuses com poderes capazes de mascarar as debilidades demasiado evidentes dos gregos. Aos 6 minutos, Seferovic pôs termo a uma seca de 386 dias sem marcar na Liga dos Campeões. O avançado suíço, que também tinha sido o único a faturar pelas águias na competição em 2017/18, atirou sem oposição para o golo numa recarga a um primeiro assalto de Gedson.

FILME E FICHA DE JOGO

O AEK sentiu francas dificuldades para estancar a hemorragia provocada pelo golo madrugador do Benfica. Antes do 2-0, Seferovic e Fejsa estiveram perto de ampliar a vantagem. O segundo, que começava a desenhar-se, teve a assinatura de Grimaldo. Enquanto a equipa de Rui Vitória construía pela direita, Grimaldo subiu discretamente até aparecer na pequena área e atirar para novo golo das águias: de cabeça e em antecipação ao extremo direito.

Durante boa parte da primeira parte, sobretudo na primeira meia-hora de jogo, o AEK foi, mais do que um adversário frágil, uma presa atarantada. O Benfica, à semelhança de Aquiles com Heitor na epopeia de Homero, arrastava o rival no Olímpico de Atenas e sem forçar a nota.

Vencer sem forçar a nota e com controlo absoluto dos níveis de desgaste até poderia ser uma boa notícia para a equipa de Rui Vitória, às portas de um clássico importante com o FC Porto.

Só que este Benfica não é de meios-termos. Tem, sobretudo, uma dificuldade congénita para ser profilático, precavendo-se dos imponderáveis, que estão longe de ser fenómenos raros no futebol.

E a expulsão de Rúben Dias, numa altura em que (faça-se justiça) o AEK já estava por cima do jogo e Vlachodimos começava a preencher os papéis para a candidatura a homem do jogo, foi o imponderável que, por pouco, não teve consequências nefastas para os encarnados. Já com um cartão amarelo, o central foi negligente na abordagem a uma bola e acertou em cheio em Ponce no último sopro da primeira parte.

Ao contrário da personagem mitológica que foi impiedosa com Heitor, o Benfica foi condescendente. Permitiu que o adversário se levantasse da arena quando pouco antes parecia prestes a capitular. Injetou-lhe adrenalina e automutilou-se para que a segunda parte da luta fosse mais entretida.

Salvio foi o elemento sacrificado para a entrada de Lema, que se juntou ao compatriota Conti no eixo defensivo. As insuficiências de uma dupla pouco rotinada entre ela e com os restantes companheiros ficaram evidentes em poucos minutos. Klonaridis reduziu para 1-2 aos 53’ com um desvio à entrada da pequena área e dez minutos depois assinou o bis e a recuperação da equipa da casa com um toque ao segundo poste.

Golpe duro numa altura em que Alfa Semedo já tinha sido lançado em campo para aumentar a capacidade de resistência da frágil trincheira das águias ao ataque das forças helénicas.

A 15 minutos dos 90’, pouco depois de Vlachodimos ter evitado o hat-trick a Klonaridis com a defesa da noite, mais um imponderável numa noite de loucos em Atenas.

Por essa altura, a luta do Benfica parecia resumir-se à obtenção de um ponto e a evitar uma nona derrota consecutiva na fase regular da Liga dos Campeões, mas a crença de Alfa Semedo foi maior do que tudo isso. O médio guineense ganhou uma no meio-campo, ultrapassou dois adversários e correu até disparar certeiro para o terceiro do Benfica, que a partir daí teve cabeça para gerir a magra vantagem.