Rui Borges, treinador do Sporting, em declarações na conferência de imprensa após a vitória por 3-2 sobre o Ath. Bilbao para a oitava jornada da Liga dos Campeões, na qual os leões garantiram a passagem aos oitavos de final da prova.
Análise ao jogo
«Fomos perdendo bolas, tanto é que, em termos defensivos, não corrigi nada, porque não havia nada para corrigir. O Athletic tinha criado perigo em momentos de perda de bolas nossas, só em transições. E nós sabíamos disso, eu falei ontem na antevisão que eles eram fortíssimos nisso, porque era a equipa que mais recupera bolas em meio-campo ofensivo. E hoje, diversa capacidade na primeira parte, fomos perdendo aqui alguma confiança também ao longo do tempo. Apesar de tudo, sofremos o segundo golo que não podemos sofrer, não podemos. Nesta competição não podemos sofrer aquele segundo golo, não podemos parar à espera de uma falta, independentemente de ser falta ou não. Não podemos, neste patamar, não podemos sofrer esses golos, porque conseguimos igualar o jogo novamente e então não poderíamos outra vez dar essa confiança ao Athletic. Nesse sentido, fomos dando. A segunda parte, não só o Pote, acho que a entrada do Edu [Quaresma], do Pote e do Morita foram muito importantes. Corrigimos uma ou outra situação na primeira etapa de construção para nos dar mais clara evidência, para conseguirmos empurrar o Athletic para trás e instalarmo-nos no meio-campo ofensivo. A equipa percebeu o que tinha de fazer, eram coisas muito básicas e dentro daquilo que é a nossa ideia, e coisas que tínhamos identificado mesmo no dia de ontem. Só que não fomos conseguindo fazer na primeira parte. Na segunda parte melhorámos nesse aspeto e claramente crescemos, e acho que fizemos uma grande segunda parte. Volto a dizer que não me lembro do Athletic, em organização ofensiva, de nos criar um perigo extraordinário; foi sempre em perdas de bola nossas, e nós conseguimos desbloquear muito mais na segunda parte. Fomos mais competitivos nas primeiras e segundas bolas também, muito mais competitivos, mesmo nos duelos, para fazer paredes e tudo. Fomos muito mais competitivos, muito mais proativos, a antecipar a decisão do colega do que propriamente na primeira parte, e melhorámos claramente. Entrámos naquilo que é o nosso jogo e acho que, por tudo, fomos capazes e merecemos muito esta vitória».
Importância da proatividade
«Acho que a equipa teve personalidade de início ao fim. Faltou-nos aquela proatividade com bola, porque era uma equipa muito intensa e nós sabíamos disso e avisámos. Claramente estávamos avisados disso. Era uma equipa que, quando aciona a pressão, é muito intensa, muito coesa, muito forte a pressionar os adversários, e nós estávamos pouco proativos. Estávamos lentos a tomar decisões, escorregávamos; quando conseguíamos ligar no primeiro passo, no segundo estávamos lentos nas segundas linhas. Faltou-nos provocar mais a profundidade também. Estávamos um bocadinho presos naquilo que era o pensamento na tomada de decisões, mesmo com e sem bola, mesmo sem bola às vezes a dar linhas de passe aos colegas. Estávamos pouco proativos, estávamos mais presos também. Não sei se foi por sofrermos golo numa fase inicial, um grande ambiente, dos melhores que tive neste estádio, contra uma boa equipa, contra uma grande equipa, e que nos deixou um bocadinho mais intranquilos, talvez, durante a primeira parte. Depois conseguimos igualar, melhorámos um bocadinho. Quando melhorámos um bocadinho, temos a quebra do Inácio, fazemos a substituição, acabamos por sofrer golo, deixou-nos ali alguma intranquilidade também. Acho que, ao longo da primeira parte, fomos sentindo isso.»
Entradas decisivas na segunda parte
«Na segunda parte melhorámos alguns comportamentos que eram importantes, coisas simples, dentro da nossa estrutura e da nossa ideia de jogo. E depois, claro, as substituições entraram bem. Sabíamos também que o Morita é importante porque tem uma capacidade muito boa de ficar com bola, de jogar em jogo curto; mesmo sob pressão não se esconde, procura o jogo, antecipa decisões. Entrou muito bem o Pote, é um jogador acima da média, isso nem preciso de estar a falar dele, porque é um jogador extraordinário. A equipa claramente fica diferente com ele, e isso não há como fugir. E mesmo o Edu: o Osvaldo estava a fazer um grande jogo e o Edu entrou e correspondeu da mesma forma. Foi extraordinária a forma como ele entrou, aquilo que percebeu que tinha de fazer também. Por isso, feliz por sentir toda a gente ligada e com vontade de ajudar a equipa. Essa é a grande virtude desta equipa: sentirem que são todos importantes, independentemente do tempo de jogo que têm ou que vão ter durante o jogo. Eles sentem-se importantes, sabem que são importantes e que os colegas confiam. Por isso o Alisson depois entrou muito bem, porque o Alisson nestes jogos tem-nos dado sempre isto: dez, 15 minutos. É um jogador extraordinário nesse sentido, porque é muito agressivo, muito forte no um para um, há muitos metros e ele no um para um é fortíssimo. Tem de crescer noutras coisas, faz parte. Se calhar em jogos internos, em que já não tem tanto espaço para o um para um, já tem de antecipar decisões. Mas nestes jogos de Champions tem sido extraordinário e é um jogador muito importante, para estes minutos finais principalmente. Tem sido um jogador importantíssimo.»
Medir o risco quando estava 2-2
«Acho que não se tratava de correr riscos, até porque nós nunca baixámos demasiado o bloco, acho eu. Por isso, a malta estava competitiva quando a bola entrava no último terço, toda a gente ajudava a defender, é o espírito da equipa. Estivemos sempre bem organizados. Em alguns momentos, acho que a linha defensiva estava demasiado espaçada da linha média, podia estar um bocadinho mais alta, mas também, dado aquilo que é o momento dos centrais que temos e tudo, é natural que em alguns momentos não sejam tão proativos a subir linhas. Um bloco médio, sempre a perceber o que é que eles faziam. Sabíamos que quando não pressionávamos, ou quando pressionávamos e orientávamos a pressão, eles procuravam sempre ligações mais longas, mais profundas. Estivemos sempre bem e o risco aconteceu sempre. Acho que os centrais começaram a saltar mais à frente, fomos mais competitivos nesse sentido, recuperámos mais bolas e conseguimos instalar-nos mais vezes no campo do Athletic. Por isso, o risco é sempre o mesmo. Acho que não tem muito a ver com o risco ou não risco, tem sim a ver com perceber o que é que o jogo estava a pedir e o que é que o jogo nos dava. E nisso a equipa foi extraordinária a perceber, principalmente na segunda parte.»
Resiliência da equipa
«A ambição da equipa, a amizade e o respeito que têm uns pelos outros, enquanto equipa, enquanto coletivo. Porque foi o coletivo que nos trouxe até aqui para lutar por este objetivo e foi o coletivo que ganhou o jogo hoje e conseguiu esse objetivo. Acho que, mais do que tudo, é o coletivo, a amizade e a família que existe neste grupo. Acho que é extraordinária a ambição geral deles, é enorme, é infinita. Eles não se cansam de ganhar. Eles não ficam felizes, mesmo quando ganhamos e não estamos tão bem no jogo. Não se satisfazem só com o ganhar. Têm a ambição de ganhar, mas a ambição de ganhar mostrando que merecem ganhar e o porquê de ganhar. E isso é demonstrativo nos nossos jogos. Isso é dar valor a eles. Por isso é que digo que não tenho palavras para descrever o orgulho e a qualidade destes jogadores.»