Que dérbi!

Deixamos a exclamação ali, sozinha, enquanto se respira ainda das emoções do jogo de uma cidade, um dérbi eterno, único, e que nesta quarta-feira conheceu um dos mais enigmáticos finais da história dele.

É verdade, não é pelo resultado, que foi uma igualdade. E se há quem vença com este empate, esse não mora em Lisboa: vive na liderança isolada da Liga e é do Porto.

Mas aqui, na Luz, houve dois finais distintos para um só resultado: o ponto do Sporting no terreno do maior rival, e o empate que as águias conseguiram in extremis, depois de uma luta incansável e que foi celebrada com uma despedida entusiasmada dos adeptos. Uma consequência direta, outra que deixa o dérbi no tal enigma. Afinal, quem celebra mais? O Sporting pelo ponto, ou o Benfica porque conseguiu o mesmo ponto que o leão e resgatar, ao que parece, uma equipa.

O dérbi de Lisboa tem quase sempre destas coisas: golos, polémica e emoção. Por isso, a principal novidade deste foi a de que um Benfica de Rui Vitória foi, de modo claro, superior a um Sporting de Jesus.

Sem surpresas nos onzes, surpreendeu, isso sim, ver a águia por cima de um leão que tem sido tremendamente eficaz a controlar os adversários. O Benfica entrou bem quebrou linhas de pressão leoninas e chegou perto da área de Patrício.

O Sporting, porém, foi fatal quando surgiu do lado contrário. Fábio Coentrão foi uma das figuras deste encontro: porque regressou à Luz, porque jogou com paixão e esteve sempre debaixo do foco encarnado. Foi por ali que o Sporting começou a sair e foi por ali, por aquele lado, que chegou o 0-1.

Uma combinação à esquerda culminou no 0-1, com um ressalto a chegar à cabeça de Gelson Martins.

Esse 0-1 perdurou por um longo tempo. Perdurou quase até ao apito final, mas pelo meio ficou tudo aquilo que faz do dérbi esse jogo apaixonante. Ficou, por exemplo, o melhor Benfica da época. A pressionar bem o rival, a conseguir ganhar-lhe nas «entrelinhas» e a encará-lo várias vezes de frente, com a bola controlada. E quando ela parou, em faltas ou cantos, a águia também foi perigosa. Ao intervalo, o Benfica devia-se golos. Não tinha nem um…

Obviamente, o outro lado também joga. Acuña e Gelson podiam ter colocado a diferença num número pesado e, com tanto desperdício vestido de encarnado, dir-se-ia inalcançável à entrada para o segundo tempo.

A perder e com a liderança da Liga já a seis pontos, o Benfica estava proibido de perder o jogo. Talvez estivesse proibido de o empatar, mas a matemática só é final lá mais para a frente no campeonato.

Por isso, a águia atirou-se a um leão que nunca conseguiu controlar o rival, que sofreu a bom sofrer junto à baliza de Patrício com as oportunidades a surgirem em sequência para os da Luz.

O Benfica tinha batido no poste no primeiro tempo, perdia nos ressaltos em direção à baliza na segunda parte, e até Jonas tinha a pistola cheia de pólvora seca, já na companhia de Jimenez em 4x4x2, mas que tinha algo em comum com o 4x3x3 inicial: a exibição de Krovinovic.

O dérbi ia em direção da baliza do Sporting, quase sempre pelos pés do croata, ajudado pelo flanco canhoto e quando o treinador do Benfica lançou Rafa, já não havia dúvidas: era o grito final da águia, de peito aberto e camisola rasgada, sem medo de balas.

Jesus tentou controlar, serenar o dérbi, mas depois de levar as mãos à cabeça pelo desperdício e por contestar decisões arbitrais, a Luz reclamou penálti por uma última vez e viu Jonas na marca da grande penalidade.

O internacional brasileiro marcou o primeiro golo da carreira ao Sporting, uma equipa que foi corajosa a defender, com Coates e Mathieu no centro da valentia, mas à qual faltou bola a meio e metros à frente. Talvez o leão tenha «abusado» um pouco da sorte também, e ela o tenha abandonado nos instantes finais, nos quais a águia ainda procurou uma reviravolta épica, mas sem sucesso.

O dérbi foi novamente emocionante e o Sporting continua bem dentro da luta pelo título, apesar da fuga portista. Já o Benfica, está mais longe em pontos, mas mais perto no futebol jogado. Se conseguir repetir noutras ocasiões aquele que aqui jogou nesta noite.