O clássico na Luz era de novas e de grandes oportunidades para uma e outra equipa, mas foi aquela, a que até podia especular com dois resultados e que continuaria destacada no topo acontecesse o que acontecesse, que esteve mais perto de ser feliz, mas que deixou escapar uma vantagem de dois golos.
Durante uma hora, o FC Porto foi melhor do que o Benfica em tudo aquilo que é indispensável em jogos como este. Igualou o rival no desejo de ganhar, mas superou-o no rigor, na organização, na inteligência e na sagacidade que aproxima qualquer equipa do sucesso.
Dessa inteligência nasceram os golos que deram corpo à cristalina superioridade portista nos 45 minutos iniciais, em dois momentos nos quais o conjunto de Francesco Farioli castigou a negligência das águias. Primeiro, num momento de pressão falhado de Otamendi; depois, num contra-ataque brilhantemente concretizado por Pietuszewski já na reta final de uma primeira parte em que tudo pareceu faltar ao Benfica e tudo esteve presente no FC Porto.
Por cada unidade em sub-rendimento nas águias havia outra em hiper rendimento nos dragões. Otamendi errático, Enzo e Ríos – a primeira dupla de médios das águias em 2025/26, mas a pior por estes dias – com timings de pressão desajustados e incapazes de travar a superioridade portista a meio-campo e as infiltrações de Froholdt.
Para Prestianni, desastrado nos duelos individuais, havia Martim Fernandes e nas raras vezes em que a espartana organização defensiva portista se desconectava, falhava o ataque das águias na definição, como aconteceu tantas vezes com o extremo argentino e com Rafa, um dos mais inconformados na equipa de José Mourinho, mas infeliz nos momentos com bola neste domingo e o espelho de uma equipa que queria fazer tudo demasiado depressa.
Ao intervalo, a vantagem de dois golos dos azuis e brancos era ajustada e fazia a Luz temer a repetição de mais um dos muitos pesadelos provocados pelos azuis e brancos na casa do maior rival histórico.
Do Benfica esperavam-se mexidas logo no reatamento do jogo, mas Mourinho guardou-as para mais tarde. Por outro lado, foi Farioli a mexer, talvez por temer que os amarelados Gabri Veiga e Pepê (rendidos por Fofana e William) vissem segundos amarelos que poderiam complicar uma noite que corria de feição aos dragões e continuou assim até às primeiras substituições da equipa da casa já para lá da hora de jogo.
Se é verdade que o Benfica cresceu muito com as entradas de Lukebakio e de Ivanovic, o FC Porto também mudou, para pior, após as saídas de Pietuszewski e de Martim Fernandes, duas das melhores unidades do líder da Liga.
O golo de Schjelderup, ainda com 20 minutos por jogar até aos 90m, reacendeu a Luz de esperança para as águias e galvanizou as bancadas ao ponto de se ter cumprido o desejo de Mourinho: de que os benfiquistas também jogassem este jogo.
A um FC Porto cada vez mais recuado juntava-se também a falta de acerto nos muitos contra-ataques ensaiados pelos visitantes e que poderiam ter pintado, a tinta permanente, uma noite que foi, durante muito tempo, azul e branca.
Até que, já perto da entrada para a compensação, Ivanovic foi à linha e cruzou para a finalização de Leandro Barreiro no coração da área, provando o luxemburguês, por isso e não só, por que razão é ele que habitualmente joga e não jogadores que custaram muitos milhões à SAD encarnada.
Os minutos finais foram um tremendo teste de stress à capacidade dos mais de 66 mil adeptos que praticamente lotaram a Luz na sua segunda maior assistência de sempre. Mourinho acabou expulso e não assistiu às últimas tentativas dos encarnados – ainda invictos nesta Liga, mas com oito empates – para completarem uma reviravolta que os recolocaria na luta pelo título e deixaria o FC Porto ainda líder, mas com os dois rivais mais próximos.
Seria um prémio para quem nunca desistiu, mas também um castigo demasiado pesado para os dragões, que foram melhores durante mais tempo e regressam à Invicta com o conforto de quase tudo continuar como antes, mas a sensação de que deixaram fugir uma grande oportunidade de praticamente sentenciarem esta Liga.
Ninguém saiu feliz.