Desde os primórdios do já centenário futebol português que o Nacional nunca conseguiu ganhar ao Benfica no Estádio da Luz em jogos oficiais. Não se repetiu a histórica goleada de 10-0, em 2019, também com Bruno Lage, mas não foi desta que os papéis se inverteram - as águias fizeram valer o estatuto de visitado neste sábado para vencer os madeirenses por 3-0, após uma entrada forte na primeira parte. Golo de Amdouni e penáltis de Kokçu e Pavlidis sentenciaram três erros dos visitantes.
A chuva, acompanhada de trovoada, não impediu uma tarde de futebol na Luz. Dentro e fora do relvado jogou-se o futuro do clube - no Pavilhão N.º 1 os sócios votavam os novos Estatutos e, a escassos metros, no Estádio da Luz, a equipa de futebol discutia mais três pontos considerados essenciais para a luta pelo título, já com a reta final da Liga portuguesa à vista.
Bruno Lage tinha evitado a palavra gestão em relação às escolhas no onze inicial, tendo em vista a segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões com o Barcelona. O técnico prometeu «o melhor onze» para este duelo, garantindo de antemão a presença de António Silva. O defesa português jogou mesmo de início, bem como Samuel Soares, Leandro Santos (que rendeu o tocado Tomás Araújo), Dahl, Amdouni e Belotti. Um onze com vários suplentes habituais que dava a entender que Lage guardava algumas peças para a Champions.
Nacional pagou caro pelo atrevimento na saída de bola
A chuva tinha dado tréguas no aquecimento para o jogo e, quase de forma poética, caiu de novo na altura do apito inicial. A bola rolou no relvado da Luz abençoada pelos céus. O esférico ficou molhado e, talvez por isso, Zé Vítor cometeu um erro fatal logo aos cinco minutos de jogo. Com o Nacional a não abdicar dos seus princípios de jogo, fazia a primeira fase de construção perto da baliza de Lucas França. Vítor atrapalhou-se na receção, fez um passe a queimar para França e este entregou a Dahl. Com alguma sorte à mistura, a bola foi ter com Amdouni no centro da área que, sozinho, marcou.
O Benfica carregou em cima do golo e continuou a encostar os visitantes à sua grande área. Com Dahl aberto na esquerda e Leandro Santos na direita, havia muita gente no corredor central para desequilibrar. Amdouni, Bruma e Belotti tentavam quebrar a linha defensiva do Nacional. Apesar das várias tentativas, Lucas França ia evitando o que parecia inevitável - o 2-0.
Ele chegou aos 19 minutos, num lance em que Belotti é carregado por trás por Zé Vítor no momento em que rematava para a baliza. O lance ainda foi revisto, mas a decisão manteve-se, tal como o amarelo mostrado ao brasileiro. Belotti parecia preparado para converter, mas foi Kokçu que assumiu... e bem. Fez o 2-0 e deu mais segurança às águias.
Depois disso, Lucas França voltou a agigantar-se várias vezes. Face a remates longínquos de Aursnes e Kokçu ou a um tiro à queima-roupa de Belotti... França dava boa conta de si e mostrava porque é um dos jogadores mais queridos no Nacional. À medida que os ponteiros do relógio avançavam, o Nacional ia trocando a bola com mais propriedade. Numa dessas ocasiões, levou a bola até à grande área. António deu um toque tímido no calcanhar de Labidi, que não passou despercebido ao VAR. Avisado do sucedido, André Narciso foi ao monitor do VAR e deu penálti aos visitantes.
Samuel Soares defendeu penálti e conquistou as bancadas
Sob uma gigante assobiadela, Dudu tremeu na hora de bater o castigo máximo e Samuel Soares adivinhou o lado do remate. Com uma defesa felina evitou o golo e mereceu uma grande ovação dos adeptos do Benfica, que entoavam o seu nome enquanto a equipa recolhia aos balneários para o intervalo.
A segunda parte começou com as equipas exatamente da mesma forma como acabaram a primeira. E logo iniciou-se um corropio de chances de golo. A primeira pertenceu a Bruma, com um remate de pé esquerdo na barra. Não foi um jogo feliz do extremo. Depois, foi Dahl que introduziu a bola na baliza com um grande remate de pé direito, fora da área. Correu para celebrar, mas o tento foi invalidado por um fora-de-jogo na jogada.
Na resposta, foi Dudu que teve a chance de se redimir do penálti falhado, porém voltou a pecar na frente da baliza. Desta vez, de bola corrida, com Paulinho Boia a assisti-lo na perfeição desde a esquerda. Dudu falhou a baliza e olhou para o céu. Tiago Margarido fez alterações no meio-campo ofensivo (e é verdade que o Benfica só ameaçava de contra-ataque), contudo permanecia a dificuldade em criar chances de golo na Luz.
Perante as aparentes facilidades, Bruno Lage fez quatro substituições de uma vez aos 68 minutos. Confiou em Pavlidis, Renato Sanches, Barreiro e Aktürkoglu para tirar Kokçu, Dahl, Belotti e Amdouni. Schjelderup ainda teria alguns minutos de jogo na reta final. Já com o desafio adormecido, Pavlidis marcou o terceiro de grande penalidade após mão na área do Nacional.
A águia pode voar mais tranquila para Barcelona com o 'papo cheio' no campeonato. Igualam os mesmos 56 pontos do Sporting, que ainda não jogou diante do Casa Pia. Já o Nacional fica no 13.º, apenas três pontos acima dos lugares de despromoção.
Dever cumprido. Esse sentimento terá sido partilhado entre os sócios do Benfica que exerceram o seu direito de voto na Assembleia Geral Extraordinária e os jogadores, que arrecadaram mais três pontos preciosos para a discussão do título.