José PeseiroNelo Vingada

Dez coisas que precisa saber sobre José Peseiro

 

São muitos anos de convivência, mas tudo somado os dois consagrados treinadores defrontaram-se apenas por cinco vezes. Uma relação que começou ainda no século passado, na temporada 1999/2000, quando José Peseiro, depois de uma boa época no Oriental, chegou ao Funchal para treinar o Nacional que, na altura, militava na II Divisão B. Nelo Vingada tinha rendido Augusto Inácio à frente do Marítimo no final da época anterior. Ao longo de três temporadas, os dois treinadores, a competir em escalões diferentes, não se defrontaram, mas, a viver na mesma cidade, foram criando uma relação sólida, antes de se encontrarem no relvado pela primeira vez na temporada 2002/03.

 

José Peseiro subiu na primeira temporada para a II Liga e, ao fim de dois anos, chegava ao primeiro escalão. Uma época marcante, com José Mourinho a anunciar desde logo que ia ser campeão, mas também importante para a ilha da Madeira que, quase dez anos depois, voltava a ter dois emblemas na I Divisão. Um ano em cheio para os adeptos do Funchal que, além dos dois jogos no campeonato, tiveram direito a uma eliminatória entre os dois rivais da cidade na Taça de Portugal. O primeiro embate, logo à 3ª jornada, em setembro de 2002, resultou num nulo, na Choupana, com a curiosidade de se cruzarem em campo dois futuros treinadores dos dois emblemas, Pedrag Jokanovic no lado do Nacional, Mitchel van der Gaag do lado do Marítimo.

Primeira vitória do Nacional nos Barreiros teve dedo de Peseiro

 

Dois meses depois, novo embate na Choupana, agora na 4ª eliminatória da Taça de Portugal, e novo empate (1-1), com o Nacional a seguir em frente no desempate por grandes penalidades (5-4). No tempo regulamentar tinha-se registado novo nulo, mas o Marítimo ganhou vantagem no prolongamento, com um golo de Alan (101m), antes do empate de Rômulo (110m) que levou o jogo para a lotaria das grandes penalidades onde a equipa de Peseiro foi mais feliz. Um jogo que teve a curiosidade de no Nacional ter alinhado Ivo Vieira, o último treinador do Marítimo antes do regresso de Nelo Vingada. O percurso do Nacional na Taça seria interrompido na eliminatória seguinte, numa visita ao Chaves (0-2).

 

O jogo da segunda volta do campeonato, já em fevereiro, na 20ª jornada, acabou por ficar na história dos dois emblemas, com o Nacional a conseguir a sua primeira vitória de sempre no Estádio dos Barreiros (3-2). Um jogo intenso, com o Nacional a chegar ao intervalo a vencer por 2-0, com golos de André Pinto (10m) e Adriano Louzada (45m). O Marítimo reagiu na segunda parte e empatou com golos de Dinda (57m) e Gaúcho (83m). O golo que fez história foi marcado por Gouveia a dois minutos do final. Um feito histórico para o Nacional que, desde então, só voltou a vencer no estádio do rival por mais uma vez: 4-2 em 2011/12. Por curiosidade, Briguel, então com 23 anos, alinhou neste encontro e, treze anos depois, volta a encontrar Nelo Vingada aos 36.

Nelo Vingada regressa ao Marítimo para um «desafio que não é fácil»

 

No final desta temporada com três jogos, os dois treinadores deixaram o Funchal para rumarem ao estrangeiro por um ano, antes de voltarem, em simultâneo ao primeiro escalão do futebol português. José Peseiro foi convidado por Carlos Queiroz para integrar a equipa técnica do Real Madrid, enquanto Nelo Vingada partia para o Egito, primeiro para dirigir o Zamalek, depois a seleção olímpica dos Faraós.

 

Nelo Vingada vence em Alvalade no jogo que dita a saída de Peseiro

Na época seguinte, em 2004/05, depois da experiência, certamente enriquecedora, mas frustrante, no Santiago Bernabéu, José Peseiro regressa pela porta grande, para treinar o Sporting, enquanto Nelo Vingada também voltava a Portugal, uns meses mais tarde, para substituir João Carlos Pereira na Académica. Os duelos entre os dois antigos companheiros voltaram a ser marcantes, apesar do registo de apenas dois jogos, ambos no mesmo palco, no Estádio de Alvalade, com um empate e uma vitória dos «estudantes» que tiveram forte influência na primeira experiência de Peseiro num dos «grandes» de Portugal.

 

Os leões de Dias da Cunha apostavam forte nesta temporada, com um misto de jogadores experientes, como Ricardo, Rui Jorge, Pedro Barbosa e Sá Pinto, com outros mais novos, como Mário Sérgio, Miguel Garcia, João Moutinho, Hugo Viana, Custódio, Carlos Martins e Miguel Veloso, Paulo Sérgio, Saleiro e Danny. Pelo meio, um punhado de brasileiros: Polga, Rochemback, Rogério, Tinga e Liedson.

 

Foi ano que ficou conhecido pelo «quase». Uma definição que começou a ganhar forma nos oitavos de final da Taça de Portugal, no Estádio da Luz, em que o Sporting chegou a estar com um pé nos quartos, a vencer pro duas vezes, antes de consentir um empate no tempo regulamentar (2-2) e no prolongamento (3-3), antes de cair nas grandes penalidades (6-7). O pior chegou mesmo na ponta final da temporada, com os leões a perderem o título para o Benfica, outra vez no Estádio da Luz, antes de caírem na final da antiga Taça UEFA, diante dos russos do CSKA Moscovo (1-3), em pleno Estádio de Alvalade.

Peseiro: «Sei da exigência e responsabilidade de ser treinador do Porto»

 

Retomando o confronto entre os dois treinadores, depois dos «quentinhos» duelos no Funchal, Nelo Vingada visitou Alvalade numa altura que o campeonato estava a ferver, com o Sporting a apenas um ponto do Benfica a quatro jornadas do final, com a visita a Luz marcada para a penúltima ronda. Os leões não podiam perder pontos antes do decisivo jogo da Luz, mas a verdade é que não foram além de um empate (0-0), num jogo polémico, com Polga a ser expulso nos instantes finais. O Sporting ficava a três pontos do rival e continuava a depender de si próprio, mas, como se sabe, acabou por deitar tudo a perder no jogo com o Benfica, mesmo depois de ter chegado à Luz em vantagem, depois do clube da Luz ter escorregado em Penafiel (0-1).

 

Se este embate não foi propriamente comprometedor, o segundo acabou por ser bem mais determinante, pelo menos do ponto de vista de José Peseiro. Apesar da enorme desilusão na temporada do «quase», Dias da Cunha manteve a aposta no treinador que, apesar de tudo, era elogiado pelo futebol positivo e, por vezes, espetacular, que tinha emprestado ao Sporting. Os leões até entraram bem, com três vitórias consecutivas, incluindo uma sobre o Benfica (2-1), mas depois, nas jornadas seguintes, perderam na visita a Choupana (1-2), a Paços de Ferreira (0-3) e, à 7ª jornada, caíram com estrondo diante da Académica…de Nelo Vingada.

 

Bastou um golo solitário de Marcel, aos 29 minutos, que Sá Pinto, Douala, Deivid, Liedson e Nani não conseguiram anular. Na mesma jornada, o Benfica ganhava ao FC Porto no Dragão por 2-0. A contestação a José Peseiro tornou-se insustentável e Dias da Cunha acabou por ceder, aceitando a demissão do treinador, antes de promover Paulo Bento dos juniores para o início de um novo ciclo. O Sporting ia terminar esta temporada no segundo lugar, atrás do FC Porto e à frente do Benfica, enquanto a Académica, apesar de evitar a despromoção, não foi além de um modesto 14º lugar.

Mais uma odisseia no estrangeiro e um regresso em simultâneo

 

Os dois treinadores aqui em análise acabariam por rumar, mais uma vez, ao estrangeiro, desta vez para uma odisseia bem mais larga, com quase uma década. Nelo Vingada rumaria a Marrocos (WAC Casablanca), Jordânia (seleção), Irão (seleção) antes de regressar ao Egito (Al-Ahly). Depois de uma curta passagem pelo V. Guimarães, em 2009/10, o professor treinou ainda na Coreia do Sul e China, antes de voltar agora a Portugal e ao Marítimo.

 

O percurso de José Peseiro, por seu lado, não foi muito diferente. Começou por rumar à Arábia Saudita (Al Hilal), passou pela Roménia (Rapid Bucareste), voltou à Arábia Saudita (seleção) e, tal como Vingada, também fez um interregno no Minho, conduzindo o Sp. Braga à conquista da Taça da Liga, antes de voltar a emigrar. Depois ainda treinou nos Emirados Árabes Unidos (Al Wahda) e voltou ao Egito (Al-Ahly), antes de ser apresentado como sucessor de Julen Lopetegui no FC Porto.

Tudo somado, foram apenas cinco jogos, com três empates e uma vitória para cada lado. Dez anos depois do último jogo, os dois treinadores voltam, agora, a cruzar-se num duelo que está marcado para as 20h30 de domingo.