O processo de centralização dos direitos audiovisuais está numa fase decisiva. Depois de ser aprovado o Regulamento de Comercialização – com 92% dos votos – prepara-se nova Assembleia Geral da Liga Portugal, desta vez para aprovar a chave de distribuição de receitas. É um tema sensível, já que ninguém quer receber menos do que aquilo que consegue, agora, auferir.

Pelo meio, a Liga organizou um encontro com diversos investidores internacionais - «Investors Day» - onde ficou com a convicção de que pode atrair fortes investimentos para o futebol português.

Um dos caminhos passa pela aposta no mercado internacional, de forma a explorar e monetizar o interesse externo (que a Liga diz ser forte) no futebol português.

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Já descreveu os possíveis investidores internacionais e o seu interesse no futebol português.  E como estão as sociedades desportivas em relação a avançar para esse modelo de investimento? Estão recetivas? Convencidas?

Eu creio que, neste momento, estamos numa fase de começar a definir como é que essa entrada de capital no ecossistema pode ser desenhada.

Temos, obviamente, muitos precedentes e exemplos de outras ligas – mais uma vez, seja no futebol ou fora do futebol - de como isso aconteceu.

Estamos a começar a desenhar como é que essa entrada se poderá materializar. Sempre nessa lógica de contribuir para a valorização do produto como um todo, de ajudar as sociedades desportivas no esforço (realmente enorme) que fazem para o desempenho atlético que temos e para os bons resultados que estamos consistentemente a obter na Europa, mas também a nível do mundo que olha para o nosso produto.

Apostar no mercado internacional?

Devo dizer que esse é outro aspeto onde há muita convergência possível.

Existe, aliás, uma análise muito interessante que olha para o fan engagement da liga portuguesa que vem de fora. E vemos que existe, até em comparação com outras ligas. Nós estamos muito mais perto, do ponto de vista proporcional, de uma Premier League em Inglaterra ou de uma La Liga em Espanha, na proporção de espetadores que vêm de fora, mas a esse interesse não corresponde a monetização económica.

Portanto, nos direitos ingleses, por exemplo, nós sabemos que 80% do fan engagement vem de fora do Reino Unido, mas, lá está, 80% da receita também vem de fora do Reino Unido.

Em Espanha é a mesma coisa. A grande parte do interesse vem de fora de Espanha e uma boa parte, crescente, do valor económico dos direitos vem de fora.

Em Portugal, é o contrário: temos o interesse, mas a esse interesse não corresponde a monetização.

E, portanto, temos de trabalhar o mercado internacional. Isto são as vantagens do que se pode fazer num modelo centralizado – e que não se pode fazer no modelo atual, fragmentado - que é trabalhar esse mercado de uma forma muito mais holística e não cada um por si.

Por exemplo?

Uma das iniciativas que temos em cima da mesa é criar um canal para a diáspora. Atualmente, em muitos países, o futebol português não está sequer disponível, ou não acessível de forma legal, e lá vamos falar de pirataria – e a pirataria muitas vezes explica-se exatamente porque a acessibilidade ao produto genuíno, ao produto pago, não é sequer possível.

Esse é um mercado que queremos trabalhar muito - e também percebê-lo melhor.  Eu próprio, tendo vivido muito tempo fora, senti isso. E há talvez até mais portugueses ou lusodescendentes a viver fora do território do que dentro. Portanto, criar um produto para essa base de audiência e, simultaneamente, para a base de audiência que não é portuguesa ou de expressão de língua portuguesa.

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