O processo de centralização dos direitos audiovisuais está numa fase decisiva. Depois de ser aprovado o Regulamento de Comercialização – com 92% dos votos – prepara-se nova Assembleia Geral da Liga Portugal, desta vez para aprovar a chave de distribuição de receitas. É um tema sensível, já que ninguém quer receber menos do que aquilo que consegue, agora, auferir.

Pelo meio, a Liga organizou um encontro com diversos investidores internacionais - «Investors Day» - onde ficou com a convicção de que pode atrair fortes investimentos para o futebol português.

André Mosqueira do Amaral destaca as diferenças entre o atual modelo fixo de retribuição dos clubes e o modelo variável que virá a ser implementado, semelhante ao de outras ligas. E diz que o modelo centralizado de comercialização de direitos vai permitir, num segundo momento, aumentar as verbas que os clubes vão auferir – explorando outras variáveis, para lá dos simples direitos audiovisuais.

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Estamos a avançar para a Assembleia Geral que vai discutir – e, espera-se, aprovar - a chave de distribuição de receitas. Tem sido um dos temas mais controversos. Como é que está o modelo? É aprovável? Por exemplo, o Marítimo, que vai subir de divisão, vai receber mais do que receberia no modelo fragmentado? O Benfica, que tem o maior mercado, vai receber menos?

Começámos com um trabalho de levantamento, junto das sociedades desportivas, de como devia ser pensada a chave. Portanto, a chave que temos hoje - e isto é importante dizer - radica num trabalho de campo que reflete, digamos, as heurísticas, as vontades e os anseios das sociedades desportivas.

Não é uma chave imposta à força ou trazida de fora. É uma chave que nasce de conversas com as sociedades desportivas, em que, repetidamente, tentámos perceber aquilo que era importante e fazer um levantamento do que faz sentido valorizar.

A grande alteração paradigmática desta chave versus o modelo atual fragmentado de negociação, digamos, privada e individual, é trazê-la em linha com aquilo que vemos noutras ligas de futebol na Europa, que é passar de um modelo fixo para um modelo variável.

Como vai funcionar?

O modelo varia, sobretudo, consoante o desempenho desportivo. A ideia é - e isto é o que se vê invariavelmente em qualquer outra liga – a sociedade desportiva que tem melhor desempenho desportivo vai receber mais. Portanto, a forma de receber mais dinheiro é ter melhor desempenho.

Premiar o desempenho…

Exatamente, premiar o desempenho. Desde logo, por uma questão de mérito, mas também porque é isso que contribui para a qualidade do produto audiovisual.

Mas é importante começar por fazer este exercício: quando se diz que este (clube) vai receber mais, ou vai receber menos... estamos a falar exclusivamente de direitos audiovisuais.

E quando falamos dos valores que as sociedades desportivas hoje recebem, ou estão a auferir nos seus contratos, muitas vezes estamos a falar de um conjunto de outras propriedades que não só os direitos audiovisuais. E nós, aqui, estamos só a falar de direitos audiovisuais. É importante dizer isto, porque é isso que estamos a avaliar.

Depois, adicionar outras variáveis que são importantes para a valorização desse produto.

É então que temos a questão da infraestrutura, do peso social, de eu ter uma bancada preenchida de adeptos ou não, ou seja, se tenho assistências ou não. Estamos a falar também da questão das audiências.

Quem oferece o melhor espetáculo é recompensado, quem oferece mais audiências é recompensado. É isso?

Exatamente. A fórmula é essa e aqui não há nada de peregrino. Isto é o que vemos em todas as outras ligas.

Aliás, devo dizer que começámos por fazer uma lista de critérios que podiam ser utilizados. Depois o nosso trabalho foi ver se esses critérios eram… No fundo, se os víamos noutras ligas ou não. Isso para fazer um benchmark internacional.

Fizemos também uma análise para ver se esses critérios podiam, ou não, ser implementados. Ou seja, se vamos ter problemas ou se vai ser fácil implementar um determinado critério.

Um exemplo que acho curioso, só para ilustrar: em Itália, um dos critérios é o ano de fundação do clube. Dentro do pilar social, premiar o clube que já existe há mais tempo. Essa ideia até faz algum sentido, é uma escolha legítima, mas teria problemas de implementação enormes.

Só por curiosidade, em relação a uma das sociedades desportivas, há uma ata que atesta que ela foi fundada em determinado ano, e essa ata foi feita numa farmácia e a palavra farmácia está escrita com «F», quando naquele ano «farmácia» ainda se escrevia com «PH». Temos aí um bom exemplo de algo que iria dar discussão mais à frente e, portanto, é um critério que, mesmo fazendo algum sentido, temos de deixar ficar pelo caminho.

Tivemos muitos outros. Não há nenhum critério que seja peregrino, que seja totalmente original. Tivemos de fazer uma adequação entre aquilo que é a nossa realidade e a realidade de outras ligas.

Sente que há condições de ter uma aprovação?

Sim, totalmente.

Mas, por exemplo, o Benfica tem sido irredutível. Acredita que vai ter a chave aprovada?

Sim, nós tivemos a Assembleia Geral onde se aprovou o Regulamento de Comercialização da Centralização e acho que foi um momento muito importante neste processo, porque tivemos uma votação muito expressiva - mais de 92% dos votos - para validar o modelo de comercialização, isto é, como é que a venda dos direitos se vai efetuar. O documento que fizemos foi um grande trabalho, feito em coordenação com a Autoridade da Concorrência e os clubes que estão na Liga Centralização.

A Liga Centralização é a entidade, dentro da Liga, que tem a responsabilidade de efetivar a centralização e este ano, nesta época, esse órgão esteve aberto a mais clubes. Tivemos mais sociedades desportivas representadas nesse órgão do que aquilo que tivemos no passado, exatamente para ser uma conversa colegial e que tentasse, o máximo possível, capturar as diferentes sensibilidades.

Eu diria que esta chave, tendo sido feita com base na recolha de um trabalho de campo, junto das sociedades desportivas, e tendo sido depois trabalhada de acordo com todas estas escolhas (mantemos este critério ou não mantemos, ou que ponderação é que damos a este critério ou não damos ponderação…) foi feita em total abertura com as sociedades desportivas.

Agora, claro, isto reflete a vontade da maioria. São decisões colegiais, não é? Há sempre, como é óbvio, momentos em que há perspetivas diferentes.

Há aquela preocupação do adepto do Benfica, do Sporting ou do Porto com a centralização; o adepto que diz: o meu clube não pode passar a receber menos. Não vai receber menos?

O nosso objetivo - e o que nós temos no nosso modelo avaliado - é que não há um clube que tenha de necessariamente receber menos.

Agora é importante não esquecer: nós estamos a passar de um modelo fixo, um modelo que é estanque e estático, para um modelo variável, um modelo que visa premiar o desempenho, visa premiar quem contribui para a qualidade do produto. Portanto, é um modelo distributivo que tenta partir da realidade atual, mas que tenta também criar um sistema de incentivos.

E é importante dizer isto: a centralização não é um fim, é um começo e é um caminho que se faz.

Ou seja, não podemos achar que em Portugal a centralização que se está a fazer agora, quando comparamos com outras ligas – o caso francês, em que se centralizaram há 40 anos, o caso inglês, em que se centralizou há mais de 35 anos…

Nós estamos a fazer isto agora, estamos a fazer um caminho e acreditamos que esse caminho, para estarmos ao mesmo nível de outras ligas, do ponto de vista daquilo que são os desejos de equidade, não se faz da noite para o dia. Isso faz-se, se calhar, num ciclo ou em dois ciclos.

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