Vítor Paneira. Rui Bento. Petit. Na época de estreia na Liga, o Tondela teve três treinadores. E tudo para correr mal. Na viragem da primeira volta, a equipa do distrito de Viseu ocupava o último lugar: oito pontos, a soma de duas vitórias, dois empates e 13 derrotas.

Para trás ficava um dos piores arranques de campeonato de que há memória. O Tondela estava condenado a uma passagem relâmpago entre os grandes do futebol português e o passar das semanas só acentuava ainda mais essa (quase) certeza. À 26.ª jornada, na entrada para um último quarto da prova, a salvação estava a 11 pontos. Por essa altura, Petit admitia que a margem de erro tinha-se esgotado, mas recusava-se a atirar a toalha ao chão enquanto matematicamente fosse possível.

A 4 de abril, a surpreendente vitória sobre o FC Porto no Dragão trazia três pontos. Isso e uma réstia de esperança. A esse triunfo seguir-se-iam mais três nos cinco jogos seguintes.

E o pequeno milagre está agora perto de acontecer. O Tondela chega vivo à entrada para a última jornada. Para se salvar à descida, precisa de vencer a Académica e esperar que V. Setúbal ou União da Madeira, um deles, perca. Se os dois empatarem também serve (tem vantagem no campeonato a três), mas se um vencer e outro empatar não chegará para garantir a permanência, até porque está em desvantagem no mano a mano contra qualquer destes dois clubes.

O cenário ainda não é favorável ao conjunto de Petit mas, valha a verdade, deixou de ser francamente desfavorável. De equipa que há menos de dois meses corria para evitar ser a pior de sempre na Liga, o Tondela pode dobrar o Cabo das Tormentas, protagonizando uma das maiores recuperações de que há memória.

O Maisfutebol olhou para os últimos 50 ANOS e encontrou alguns exemplos de equipas que no final da primeira volta ocupavam último lugar mas que conseguiram salvar-se à despromoção. Falámos com Carlos Brito, que há precisamente 20 anos conduziu o Rio Ave para uma das recuperações mais sensacionais da história do futebol português, e recuperámos outros casos de sucesso.

 

Nota: esta análise estende-se à era da vitória a dois pontos. O Maisfutebol converteu os pontos das vitórias de dois para três pontos para manter os padrões da análise. Foram ignoradas possíveis alterações das classificações finais devido à atribuição do novo sistema de pontuação

 

Rio Ave, 1996/97

Pontos na 1.ª volta (%)

7 (20%)

Pontos na 2.ª volta (%)

28 (80%)

Total de pontos (100%)

35

Distância para a salvação na 1.ª volta

12

Como terminou

15º lugar (2 pontos acima da linha de água)

Pontos recuperados

14

É provavelmente o caso mais improvável de salvação nos mais de 80 anos de história do principal escalão do futebol português. O Rio Ave dobrou a primeira volta a 12 pontos da permanência, mas os alicerces da mudança começaram a ser construídos após a 13.ª jornada, altura em que Henrique Calisto deu lugar ao jovem Carlos Brito, que no final do ano anterior tinha deixado de ser jogador.

«A direção do Rio Ave, liderada pelo presidente Paulo Carvalho, decidiu que devia ser eu a treinar porque tinha deixado de ser colega deles e tínhamos sido campeões da II Liga no ano anterior. A decisão não era ser eu a ficar com a equipa. Mas ou não surgiu ninguém ou não quiseram manter assim. Lembro-me que o primeiro jogo foi com o Gil Vicente. Tinha a plena consciência de que não estava preparado para orientar uma equipa», recorda ao Maisfutebol o agora treinador do Freamunde.

Carlos Brito reconhece que o cenário era dramático. «Se me pediram a permanência? Não! O objetivo passava por sermos dignos até ao fim. Esse pensamento esteve sempre presente. Era mais do que evidente a descida de divisão. No segundo jogo fomos empatar a Setúbal e depois recebemos a União de Leiria: ganhámos 3-1 a uma excelente equipa e a malta animou»

Com a memória incólume, o técnico, agora com 52 anos, admite que, apesar desse tal triunfo sobre os leirienses, só mais tarde é que jogadores e equipa técnica começaram a encarar com seriedade a hipótese da permanência. «A distância era muito grande. Como foi possível? Foi um conjunto de factores: o crer, a vontade, a camaradagem, a fé. Foi um bocadinho de tudo isso. Também sou um crente e acredito que alguma coisa me animou. Acredito que Deus também nos ajudou. Houve uma conjugação de força», observa.

O Rio Ave não só conseguiu salvar-se como já estava fora dos lugares de descida à 30.ª jornada, a quatro do final do campeonato. Carlos Brito recorda uma atípica onda de apoio ao emblema de Vila do Conde. «Ainda hoje há gente que me fala disso! Acho que o país todo estava a torcer para que o Rio Ave não descesse. Qualquer pessoa que gostava de futebol queria saber o resultado do seu clube e depois do Rio Ave.»

 

Paços de Ferreira, 2011/12

Pontos na 1.ª volta (%)

9 (29%)

Pontos na 2.ª volta (%)

22 (71%)

Total de pontos (100%)

31

Distância para a salvação na 1.ª volta

5

Como terminou

10º lugar (7 pontos acima da linha de água)

Pontos recuperados

12

A saída de Rui Vitória para o V. Guimarães após a 3.ª jornada fez soares os alarmes. Luís Miguel segurou as pontas até à 11.ª jornada, mas os pacenses continuavam no fundo da tabela. Até que chegou o experiente Henrique Calisto, que por lá já tinha passado duas vezes em finais da década de 90. A nova aposta da direção não deu resultados imediatos. No final da primeira volta (15.ª jornada), o Paços estava ainda mais longe da zona de salvação do que quando Calisto assumiu o comando técnico da equipa. No entanto, uma segunda metade de época com poucos tropeções levou os pacenses até ao 10.º lugar do campeonato.

 

União de Leiria, 1999/00

Pontos na 1.ª volta (%)

12 (29%)

Pontos na 2.ª volta (%)

30 (71%)

Total de pontos (100%)

42

Distância para a salvação na 1.ª volta

3

Como terminou

10º lugar (9 pontos acima da linha de água)

Pontos recuperados

12

Na época anterior, a União de Leiria tinha igualado a melhor época de sempre, com um sexto lugar. A equipa de Manuel José ficara a um ponto de uma histórica presença nas competições europeias. A primeira metade da época seguinte foi a antítese da anterior. Arranque desolador e a 1.ª volta dobrada com apenas 12 pontos. Com jogadores no plantel como Bilro, Nuno Valente, Paulo Alves ou Derlei, os leirienses tinham equipa para mais e provaram-no na segunda metade da época, arrancando para um desafogado 10.º lugar: pelo meio, ainda complicaram a vida ao futuro campeão Sporting (1-1) e ao Benfica de Jupp Heynckes, que saiu de Leiria vergado a uma derrota por 2-1.

 

Leixões, 1965/66

Pontos na 1.ª volta (%)

6 (24%)

Pontos na 2.ª volta (%)

19 (76%)

Total de pontos (100%)

25

Distância para a salvação na 1.ª volta

6

Como terminou

11º lugar (6 pontos acima da linha de água)

Pontos recuperados

12

Sob o comando do brasileiro Jair Raposo, o Leixões somava apenas um triunfo à 10.ª jornada, curiosamente uma goleada ao Lusitano de Évora por 8-1. À procura da salvação, o clube de Matosinhos foi buscar Manuel de Oliveira à CUF quase na viragem do campeonato. E o Leixões salvou-se com uma margem relativamente folgada.

 

Portimonense, 1988/89

Pontos na 1.ª volta (%)

14 (30%)

Pontos na 2.ª volta (%)

33 (70%)

Total de pontos (100%)

47

Distância para a salvação na 1.ª volta

9

Como terminou

12º lugar (2 pontos acima da linha de água)

Pontos recuperados

11

A situação não estava muito famosa, mas também não se pode dizer que fosse crítica quando Manuel Cajuda deixou o comando dos algarvios após a 8.ª jornada. Para o lugar dele chegou José Torres. Com ele levou o sonho da permanência num ano de transição e no qual desceram de divisão cinco (!) equipas. O Portimonense não foi uma delas.

 

Outros «lanternas vermelhas» no final da primeira volta que se salvaram nos últimos 50 anos: Sanjoanense (1966/67), Boavista (1969/70), Barreirense (1970/71), Académica (1975/76 e 2004/05), Marítimo (1977/78 e 1985/86), Salgueiros (1984/85), Sp. Braga (1990/91) e Rio Ave (2008/09).