Depois de ter salvado um ponto em Alvalade [2-2], há duas semanas, no acerto do calendário da Liga, com dois golos marcados ao Sporting no período de compensação, Gonçalo Feio lembrou: «O Tondela tem estes milagres.»

O termo é incisivo, remete para acontecimentos extraordinários, alguns com intervenção divina, mas foi precisamente a isso que os beirões habituaram os fiéis do futebol desde que chegaram à Liga, há onze anos. E se três foi a conta que Deus fez, em Tondela suspira-se, por estes dias, pelo terceiro milagre da manutenção.

No próximo sábado, em Arouca, o Tondela tem apenas uma certeza: está proibido de perder para continuar a sonhar com a permanência na Liga. Que pode ser conseguida de diversas formas.

Se ganhar na última jornada da Liga, o Tondela, que neste momento está em zona de descida direta com 28 pontos, precisa que Casa Pia e Estrela da Amadora, ambos com 29 pontos, não vençam os seus jogos para se salvar já no próximo sábado.

O Tondela também poderá fazê-lo no play-off com o terceiro classificado da II Liga, que atingirá nestes casos: se vencer o Arouca e Casa Pia ou Estrela não ganharem; ou se empatar e o Estrela ou o Casa Pia perderem [tem vantagem sobre ambos nos critérios de desempate].

Outra possibilidade, embora mais complexa, seria empatar em Arouca e esperar que Casa Pia e Estrela percam na 34.ª jornada. Nesse caso, as três equipas terminariam a Liga com os mesmos 29 pontos. Neste minicampeonato, Tondela e Estrela somaram ambos sete pontos [o Casa Pia ficou-se pelos três pontos], mas o Estrela garantia a manutenção pela diferença de golos [+4 contra +2], enquanto os beirões seguiriam para o play-off.

O Tondela pode ainda terminar o campeonato com os mesmos 31 pontos do Nacional, se vencer na última jornada e os madeirenses forem derrotados pelo Vitória, mas perde no confronto direto com os insulares.

Tantos cálculos podem levar a algum desespero e na hora do aperto muitos se viram para o sobrenatural em busca de um incentivo que lhes permita ter fé num final feliz. E nesse campo ninguém bate este Tondela.

Em oito participações na Liga, o clube do distrito de Viseu só por uma vez foi despromovido, em 2022 [numa época em que, ainda assim, chegou à final da Taça de Portugal]. Até aí, foi evitando a queda à II Liga quase sempre com algum drama, mas houve duas campanhas que roçaram o heroísmo. E que fizeram de Tondela a terra dos milagres no futebol.

2015/2016: Petit até foi a Fátima depois do milagre

Na época de estreia na Liga, o Tondela parecia destinado à despromoção quando, a duas jornadas do fim, ocupava a última posição da tabela, a par da Académica, a cinco pontos da zona de salvação.

Porém, os triunfos em Paços de Ferreira [4-1] e na receção à despromovida Académica [2-0] permitiram-lhe ultrapassar o União da Madeira, que não conseguiu pontuar nas últimas duas jornadas.

O obreiro deste “milagre” foi Petit, que já então andava pelo país a salvar equipas da descida. O técnico acabou mesmo por ir a Fátima depois deste feito. Era mesmo caso para tanto.

2016/2017: a história repete-se, agora com Pepa

Apenas um ano depois, o Tondela voltou a protagonizar uma recuperação épica para evitar a queda à II Liga. Depois de uma primeira volta difícil [10 pontos somados], Pepa substituiu Petit no cargo de treinador e conseguiu salvar os beirões em cima da linha de meta.

Desta vez, a desvantagem para a zona de salvação era de apenas três pontos, mas nas últimas duas jornadas o Tondela ganhou em Arouca [2-1] e ao Sp. Braga [2-0], conseguindo a manutenção por apenas um golo. Isso mesmo, um golo apenas, que ditou a descida dos arouquenses.

«Se foi o jogo da minha vida? Foi, por tudo. (…) Deram-nos como mortos, mas o futebol é fértil em surpresas e nós fizemos pela vida», desabafou Pepa, no final da partida com o Sp. Braga, que selou a permanência. E ainda se está por perceber quantas vidas tem este Tondela.

Houve ainda mais uma época em que os beirões garantiram a manutenção na última jornada da Liga. Foi em 2018/2019, mas aí «só» tiveram de ganhar o jogo com o Desp. Chaves (5-2) para ultrapassar, e condenar, os transmontanos.

Tantas histórias de superação para um clube só, que Gonçalo Feio e os seus jogadores querem enriquecer. No sábado se verá se Tondela continua a ser a terra dos milagres no futebol.