30 anos depois, o Liverpool conquistou a Premier League, mas a festa dos Reds tem tido algumas polémicas por causa da falta de distanciamento social nos festejos e por os adeptos do Liverpool quase terem pegado fogo a um edifício iluminado com as cores do rival Everton. Esta segunda-feira, Jurgen Klopp publica uma carta aos adeptos num jornal da cidade em que fala sobre a conquista, mas não deixa de fora a rivalidade com o Everton e o vírus da Covid-19.

«Se está a ler este jornal é porque se importa com a cidade de Liverpool e quer saber mais sobe ela, por isso já temos algo em comum», começa por dizer a missiva publicada no Liverpool Echo.

«Nunca escrevi uma carta a um jornal. Dou muitas conferências de imprensa e sei que sou mencionado nos media mais do que o normal, mas esta foi a primeira vez que senti a necessidade de escrever uma carta e é porque quero falar às pessoas de Liverpool», continua o técnico.

«Este é um momento incrível para adeptos incríveis de um clube incrível de uma cidade incrível. Para alguns de vocês, é o fim de uma longa espera para o Liverpool ser campeão, mas, quer tenham esperado 30 anos ou 30 minutos, espero que estejam a desfrutar deste momento tanto como merecem», diz ainda a carta.

Klopp diz depois que é «um grande privilégio ser treinador do Liverpool».

«Sabia que Liverpool é um sítio especial ainda antes de chegar, há quase cinco anos, mas é só quando se começa a conhecer as pessoas que se sente o pulsar da cidade e então podemos perceber quão especial é. E isto não se aplica apenas aos adeptos do Liverpool. Sei que sou obviamente parcial porque o Liverpool é o meu clube, mas não sou tão parcial que não consiga ver que os adeptos do Everton são a outra face da mesma moeda e que a rivalidade que existe é tão importante para a identidade da cidade», diz o treinador alemão.

«Sei que este não está a ser o momento preferido deles e, se os papeis fossem ao contrário, não seria o nosso. Mas o Everton tem o Carlo Ancelotti, um grande treinador e uma grande pessoa, e não tenho dúvidas de que a melhoria que eles tiveram desde que ele chegou vai continuar. O Everton é um grande rival em todos os sentidos e não preciso que ninguém me recorde disto.»

«Ficarmos acima do Everton e dos outros 18 clubes da Premier League é uma conquista inacreditável. Eu respeito-os a todos porque, todos juntos, tornamos o futebol inglês tão competitivo e tão cativante para pessoas de todo o mundo», continua Klopp, dizendo que «é um erro focar na diferença de pontos» entre o Liverpool e os restantes clubes porque poucos foram os encontros em que não foi preciso lutar muito para vencer.

«Em muitos jogos, tivemos de ir ao fundo das nossas almas para encontrar uma maneira de vencer. Em tantas ocasiões, entrei no balneário espantado e muito feliz com o que acabara de ver, e encontrei os rapazes de rastos, porque tinham dado tanto em campo. Esta é uma liga difícil e foi vencida da maneira mais difícil, independentemente do que a tabela diz», garante Klopp, elogiando depois os jogadores.

«Como grupo, eles entendem exatamente o que significa representar esta cidade e levar seu nome. Esta é a gasolina no depósito deles e o que nos alimenta em cada passo no caminho.»

Klopp deixou ainda algumas palavras a Kenny Dalglish, «a alma deste clube». «Ver o sorriso dele quando fomos confirmados campeões significou tanto para mim que nem consigo explicar.» E Steven Gerrard, «as pernas» do Liverpool. «Ninguém merece tanto o título do que ele», disse o técnico.

«Portanto, temos jogadores brilhantes, ex-jogadores incríveis, donos excelentes e, além disso, temos os melhores adeptos que qualquer clube poderia desejar. Eu amo a vossa paixão, as vossas músicas, a vossa recusa em aceitar a derrota, o vosso compromisso, a compreensão do jogo e vossa fé no que estamos a fazer», escreve Klopp, mas nem tudo são elogios.

«Aquilo de que não gostei - e tenho de dizer isto - foram as cenas que tiveram lugar na sexta-feira. Sou um ser humano e a vossa paixão é também a minha paixão, mas, neste momento, o mais importante é não termos este tipo de reuniões públicas. Devemo-lo aos mais vulneráveis da nossa comunidade, aos profissionais de saúde que deram tanto e a quem aplaudimos e à polícia e autoridades locais que nos ajudam como clube a não o fazer. Por favor, celebrem, mas de forma segura e em contextos privados, não correndo o risco de espalhar mais esta terrível doença na nossa comunidade.»

«Se as coisas fossem diferentes, eu adoraria que celebrássemos juntos, fazer uma parada que seria ainda maior do que a que fizemos depois de termos ganho a Liga dos Campeões no ano passado, para que todos pudéssemos partilhar este momento especial, mas isso simplesmente não é possível. Todos fizemos tanto para combater a Covid-19 e este esforço não pode ser desperdiçado. Devemo-lo a nós próprios e uns aos outros fazer o que está certo e, neste momento, isso significa estarmos juntos e estarmos lá uns para os outros aos estarmos separados.»

«Quando for a altura certa, celebraremos. Iremos desfrutar deste momento e pintaremos a cidade de vermelho. Mas, por agora, por favor, fiquem em casa o mais possível. Este não é o momento de estar no centro da cidade em grande número ou de irem para junto dos estádios. No início desta crise, disse que não queríamos jogar num estádio vazio, mas, se isso significasse que apenas uma pessoa se manteria saudável, não hesitaríamos, e nada mudou para me fazer alterar esta opinião», continua a carta.

«Espero que daqui a alguns meses, ou mais, se necessário, possa escrever outra carta ao Liverpool Echo para vos agradecer por colocarem a saúde do nosso povo à frente de tudo. Nada me deixaria mais orgulhoso. Por agora, gostaria de agradecer aos adeptos do Liverpool e às pessoas desta cidade que nos ajudaram a ser campeões. Este é o nosso momento. É um momento especial em todas as nossas vidas e foram vocês que o tornaram possível. Cada um de vós é um campeão por direito próprio e mal podemos esperar até termos a oportunidade de celebrar o que alcançaram», termina Klopp.