Rui Miguel Tovar está no Maisfutebol com a rubrica LOAD " " ENTER. Para ler todas as semanas e saborear conversas por vezes improváveis com as principais figuras do futebol. Já sabe, basta escrever LOAD " " ENTER para entrar neste mundo maravilhoso de Rui Miguel Tovar. 

O Hotel Metropol é um cinco estrelas entre a Praça Vermelha e o Teatro Bolshoi. A rotina é aborrecida: cornflakes com champanhe ao pequeno-almoço, bife tártaro ao almoço, caviar com champanhe ao lanche, dois bifes tártaros ao jantar.

Como ainda é época de noites brancas, mais um copo de champanhe à ceia dá saúde e faz dormir.

O hotel é largo, espaçoso. As pessoas andam e desandam, nós cobiçamos o dia seguinte com mais champanhe e bifes tártaros. Ali pelo meio, entretemo-nos com algumas figuras do jet-set desportivo da Rússia, como é o caso de Vassili Kulkov. Em semana de Porto-Krasnodar, é do best. Tchim-tchim, à vossa.

Kulkov, tudo bem?

[silêncio]

Kulkov?

B-o-a n-o-i-t-e, t-u-d-o b-e-m, o-b-r-i-g-a-d-o.

Então?

O m-e-u p-o-r-t-u-g-u-ê-s e-s-t-á e-n-f-e-r-r-u-j-a-d-o, j-á n-ã-o o f-a-l-o h-á m-u-i-t-o t-e-m-p-o

M-u-i-t-o b-e-m, e-u f-a-l-o d-e-v-a-g-a-r. [a partir daqui, acabam-se as hifenizações]. Que é feito de si?

Bem, bem, obrigado.

Aaaah, já estás a falar melhor.

Vou melhorar, vais ver. Prometo, ahahah.

Quero falar sobre os teus tempos em Portugal.

Tranquilo, avança.

Chegaste quando?

Em 1991.

De onde?

Spartak Moscovo.

Tu, sozinho?

Também chegou o Iuran, do Dínamo Kiev.

Só vocês os dois?

Sim, porquê?

E o Mostovoi?

Ah, sim. Só chegou em 1992, um ano depois de nós..

Quem era o vosso treinador na primeira época?

Sven-Göran Eriksson [diz com satisfação].

Porreiro?

Ahahahah, porreiro. Já não me lembrava dessa palavra. Porreiro, muito porreiro. E sério, trabalhador, competente.

Ainda te recordas da tua estreia?

Sempre. Benfica 0 Boavista 1. Ahahahahahah. Perdemos, joguei a lateral-direito.

Lateral?

Pois, o Veloso estava lesionado e o José Carlos também. Na semana seguinte, com o Gil Vicente, acho, voltei ao meio-campo.

Com quem?

Uyyyy, muitos, muitos.

Diz um, vá.

Thern, um armário.

Diz outro.

Paulo Sousa. Esse Benfica tinha uma série de jovens memoráveis: Rui Costa, Rui Bento e Valido. Ainda tinha o Paulo Madeira. Uma vez, nas Antas, joguei com o Paulo Madeira.

Quê, tu e ele a centrais?

Siiiiim, 0-0 nas Antas. O Rui Bento a líbero. O Isaías foi expulso, acabámos com dez [o Porto também, com vermelho para Kostadinov]. O Eriksson era assim, muito elástico. Havia jogos bem interessantes. Se puderes ver. Lembro-me de um outro, com o Barcelona, na Luz. Olha, outro 0-0. O Paneira foi o lateral-direito, o Veloso à esquerda. Ao intervalo, sai Veloso e entra Pacheco. Já viste a ousadia? Mesmo a jogar em casa, é ousado jogar assim. O Eriksson era um mestre.

Davam-se bem?

Muito bem. Era um gentleman em todas as situações. Era simpático, compreensivo e sabia ouvir-nos.

A quem, aos jogadores?

Também, ahahahahah.

Aos russos, é isso?

Isso.

Porquê?

Muitos problemas. Desde o início.

Porquê, repito-me?

Culturas diferentes. Jornalistas, jornais, empresários, dirigentes. Há gente estranha em todo o lado.

Como assim?

Plantavam muitas notícias falsas sobre nós. E, às vezes, as notícias verdadeiras eram deturpadas.

Tens um exemplo?

Um, só? Tenho vários.

Então?

Olha, uma vez, o próprio jornal do Benfica publicou uma reportagem sobre mim, dizia que eu estava gordo. Até dizia o meu peso e tudo.

Uyyyyy, isso é hardcore.

Isso foi antes do jogo em Leverkusen.

O famoso 4-4?

Pois.

Marcaste dois golos, não foi?

Isso mesmo, marquei dois golos, um jogo de loucos. No dia seguinte, já era magrinho. Foi assim sempre, notícias más atrás de notícias más. Não havia descanso. Sabes o que aconteceu no início dessa época 1993-94?

Nem ideia.

Queriam vender-me ao Boavista e o Cunha Leal [dirigente do Benfica] fez toda a força para isso. Disse-lhe que não, que queria continuar no Benfica. Nessa semana, acompanhei a equipa até ao Porto para a Supertaça. Cedo percebi que nao ia jogar e que o motivo da viagem tinha sido o forçar da minha transferência para o Boavista. Já que estava no Porto, não é?

E tu?

Recusei, claro. E fui afastado da equipa. Sabes como? Disseram para os jornais que eu tinha dado uma entrevista controversa umas semanas antes. Baaaahhh. Não joguei quase nada na primeira volta do campeonato e nem fui inscrito para as competições europeias. Só o fui na reabertura do mercado, em janeiro. Daí o jogo em Leverkusen.

Que é memorável.

Mesmo. O Iuran lá à frente a abrir espaços e eu a marcar, ahahahah.

Há outro jogo europeu épico do Benfica nessa altura.

O do Arsenal?

Esse, 3-1 em Highbury.

Ahhhh, esse foi imperdível. Que noite. Os adeptos deles despediram-se de nós com palmas. Nunca esquecerei o desportivismo, nem o nosso jogo. Também marquei nesse dia.

A sério? Nem me lembrava.

Fiz o 2-1. E joguei a lateral-direito, ahahahah. Olha, outra.

Então?

Até esse jogo, e olha que já estávamos em Novembro, eu e o Iuran vivíamos com as famílias respetivas na mesma casa. Isso não se faz, pois não?

Errrrr

Pois o Benfica fez. Por isso é que eu digo, o Eriksson era um gentleman.

Porquê neste caso?

A gente falava com ele e ele entendia as nossas queixas. Mal ele saiu do Benfica, as coisas pioraram.

Quem chegou depois?

Ivic. Muita intriga, muitos sermões, muito chato. Nem cumpriu uma época inteira, vê lá.

Foi substituído por quem?

Toni.

Porreiro?

Ele sim, já o Jesualdo.

Então?

O Jesualdo tomava as decisões, o Toni dava a cara.

E então?

Havia coisas sem sentido.

Explica lá.

Na eliminatória com a Juventus, a ideia deles não era jogar comigo. Então pedi-lhes um dia de folga para passar com a minha filha, que ia ser operada. Tudo bem, o Toni deu-me a folga. No dia seguinte, mandaram-me treinar para trás da baliza, sozinho. Foi assim durante quatro dias seguidos, longe do resto da equipa. E nunca mais joguei no campeonato a titular.

Estamos em que época?

1992-93.

Já com o Mostovoi.

Exatamente. Olha, outra: nunca jogámos os três juntos a titular. Nunca, nem uma vez. Ora, se éramos os três russos e éramos bons de bola, porque não tentar uma vez que fosse? Uma vez, só? Mas não, nem uma. Por falar nisso, o Mostovoi marca um golo importantíssimo ao Porto, nas Antas. Um livre direto maravilhoso, mesmo no fim. Estávamos a perder 1-0 e a jogar com dez por expulsão do Mozer. De repente, livre e golo do Mostovoi. Aguentámos o 1-1 no prolongamento e levámos o jogo para a Luz, onde ganhámos 2-0. O Mostovoi salvou-nos. Pergunta: foi o Mostovoi utilizado no jogo seguinte? Nada. Era assim, o Benfica.

Falaste do Mozer, grande jogador.

Grande, enorme. Em altura, qualidade e feitio.

Ai era?

Ele e o Iuran eram inseparáveis, ahahahahah.

Como tu e o Iuran?

Como assim?

Não disseste inseparáveis?

Ahahahah. Vou voltar a falar devagar para ti.

Essa é boa.

Disse separáveis.

Ahhhhhhhhh. E porquê?

Estavam sempre pegados. Sempre é sempre, hein?!

E o resto do balneário?

Tentava separá-los.

Só?

Só. Essa era a diferença para o Porto.

Ai sim?

No Porto, o Iuran estava sempre pegado com o Paulinho Santos. Um era o Mike Tyson I, o outro o Mike Tyson II. Ahahahahah. No balneário, os capitães, como o João Pinto, falavam com eles e acalmavam os ânimos. No Benfica, era diferente. No meu tempo, era diferente.

Mesmo assim, esse Benfica diferente de Toni/Jesualdo campeão nacional em 1994.

Mérito, claro.

De quem?

João Pinto. Que sonho, essa época. Aqueles três golos em Alvalade. Ele ganhou o campeonato.

Sozinho?

Mais que os outros. Merece isso no curriculo. O que ele fez foi do outro mundo. Três golos na primeira parte, ele arrumou o Sporting na fase decisiva da época.

Falávamos há pouco do Iuran. Vocês davam-se mesmo bem.

Coincidimos em Lisboa, no Benfica. E normal haver química.

Que dizer da vossa cultura?

Qual?

Da bebida, por exemplo.

Isso é tudo conversa. Ja aqui falámos de jogos importantes em que marquei golos e eu nem sou de marcar golos. Bebia? Quem não bebe? Vá lá. O Iuran bebia? Foi o melhor marcador do Benfica numa época.

E a outra cultura, a do treino e tal?

Imagina isto: tanto eu como o Iuran vínhamos da Rússia, onde os clubes fecham os jogadores em estágio permanente. De repente, vemo-nos em Lisboa, com sol. O treino dura hora e meia. Tomamos banho e estamos libvres até ao dia seguinte? Ahhhhh, temos de tirar proveito. Temos de ir às compras, de almoçar com amigos, de ir à praia, de jantar com a família. Essas coisas que todos os jogadores, repito todos os jogadores, do Benfica faziam.

Como é que foram parar ao Porto?

A história nem é feliz.

Porquê?

Quando o Cherbakov teve o acidente, íamos visitá-lo ao hospital [São José] e encontrávamo-nos com Bobby Robson e Mourinho. Começámos a ficar amigos, a trocar mensagens e uma coisa levou à outra.

Assim, sem mais nem menos?

Não, claro que não. Quando chegou o Artur Jorge ao Benfica, eu e o Iuran fomos ainda mais encostados. Entretanto, o Robson e o Mourinho foram para o Porto. Houve ali uma oportunidade, a janela do mercado está a fechar-se e aproveitámos.

Foram campeões em 1994 pelo Benfica e em 1995 pelo Porto?

Isso mesmo. Bicampeões, se faz favor. Ahahahahahah.

Do que te lembras?

Do golo do título do Domingos e de atirar o Robson ao ar nos festejos em Alvalade.

Era porreiro, o Robson?

Muito, muito. Era extraordinário, a sua vontade de treinar, de viver, de falar, de fazer piadas. Era um brincalhão.

E o Mourinho?

Defendia-nos sempre. E organizava almoços para a malta ficar ainda mais próxima. Como psicólogo, top. E porrreiro, muito porreiro. Vê bem, quando foi campeão europeu pelo Porto em 2004, telefonou-me e fomos almoçar. Pagou ele, claro. Duplamente porreiro, ahahahahah.

E depois?

Eu e o Iuran fomos para o Spartak Moscovo. Na Liga dos Campeões, seis jogos, seis vitórias na fase de grupos.

Qual era o grupo?

Blackburn, Légia e Rosenborg. Seis vitórias em seis. Foi mágico.

Então, e depois?

Depois chegou Dezembro e a janela de mercado reabriu-se. Muitos saíram, poucos entraram. Além disso, o nosso campeonato só começa em Março, enquanto todos os outros da Europa continuam a jogar-se.

Para acabar, e Mundiais?

Muitos.

Hein?!

Pela televisão, muitos.

Ahahahahahah.

A sério. Com o comando da televisão, ninguém me pára. Ahahahah. Agora a sério, adoro Mundiais. Aliás, a partir do momento em que vi o Maradona pela primeira vez, sonhei ser o Maradona. Só queria ser ele, jogar com ele. Era um génio. Totalmente diferente de todos os outros. Tanto antes, como depois.

Mas tu podias ter jogado o mesmo Mundial que o Maradona.

Podia, sim.

Em 1990, não?

Aí não fui convocado.

Eiscchhhh. Ainda por cima, a URSS calha no grupo da Argentina.

Verdade. Fomos eliminados na fase de grupos e a Argentina chegou à final. Génio, o Maradona.

E o de 1994?

Complicado, isso.

Mais complicações?

É assim a vida.

Diz lá.

Baahhhhhhhh. Qualificámo-nos como primeiros do grupo. O jogo decisivo foi em Atenas. Estávamos a celebrar quando o presidente da federação entrou no balneário e disse-nos que teríamos de assinar um contrato de patrocínio com a Reebok. Claro, o seleccionador [Sadyrin] estava ao lado dele.

Isso era um problema?

Grande, grande problema. Quase ninguém queria assinar esse acordo.

Quase ninguém é quem?

Uns 15 jogadores [na verdade, 14; a saber: Kulkov, Iuran, Mostovoi, Shalimov, Dobrovolsky, Kolyvanov, Onopko, Khlestov, Kiriakov, Nikiforov, Salenko, Karpin, Ivanov e Kanchelskis].

Vocês fizeram o quê?

Escrevemos uma carta ao Ministro do Desporto. E organizámos uma conferência de imprensa para contar a história.

Qual história?

Antes de mais, não queríamos aquele seleccionador. Queríamos o Byshovets, que nos levou ao Euro-92. E queríamos prémios de jogo mais altos e melhores condições de apoio logístico.

Que se passou?

O seleccionador falou com todos, um a um, a passar-nos a ideia da oportunidade imperdível nos EUA. Como as nossas pretensões não foram atendidas, decidi não ir. Recusei o Mundial-94. Uns fizeram como eu, outros foram mesmo.