Cresceu na Arrentela, ganhou fama como futebolista em Inglaterra e, por estes dias, trocou o Algarve por um desafio em Israel.

Luís Boa Morte (41 anos) conversou com o Maisfutebol sobre uma vida dedicada ao futebol.

Uma entrevista dividida em quatro partes, desde as suas origens, até à sua recente carreira como treinador.

Uma conversa franca, em que o antigo internacional português não se escusa a esclarecer polémicas recentes, como aquela homenagem em Alvalade que não chegou a acontecer.

A vida do rapaz que chegou a ser ajudante de eletricista mudou quando, depois de descobrirem nas seleções jovens que ele afinal era português, Wenger o viu em Toulon e o fez trocar o Lourinhanense pelo Arsenal.

O resto é história do primeiro futebolista português a vencer a Premier League, que agora tenta afirmar-se como técnico adjunto do Maccabi Haifa e espera por uma boa oportunidade em Portugal.

MAISFUTEBOL: É o novo treinador adjunto do Maccabi Haifa. Como foi parar a Israel?

LUÍS BOA MORTE: O treinador principal, que era adjunto do Avram Grant quando eu jogava no West Ham, foi à minha procura. Falou com o Avram para entrar em contacto comigo… E estou cá há duas semanas. A família não veio, até porque os meus filhos estão na escola e era muito complicado mudar tudo agora. Tenho contrato até ao final da época e mais uma de opção. Depois, logo se vê.

Está para já a correr bem?

É tudo novo. A única coisa que não é nova é o futebol. O futebol é uma bola, onze de cada lado, árbitros, balizas…

Que objetivos tem para esta temporada?

O novo treinador entrou em dezembro, numa altura em que o Maccabi Haifa estava em 12.º lugar. O presidente colocou-lhe como objetivo chegar ao 2.º ou 3.º, para conseguirmos ter acesso à Liga Europa da próxima época. Há cinco ou seis equipas que estão nessa luta, atrás do Maccabi Tel Aviv, que está muito destacado com 20 pontos de vantagem e possivelmente já ninguém os apanhará, nem sequer na segunda fase.

E fora do futebol, já estranhou alguma coisa na adaptação ao novo país?

Algumas. Por exemplo, estranhei a experiência de comer num restaurante kosher – comida produzida por e para judeus. Fui há dias com a equipa técnica. No final, serviram uma sobremesa e um dos treinadores, que é judeu, disse: «Esses doces são falsos, porque não são feitos com leite.» Na cultura judaica, tens de deixar passar seis horas para ingerir leite depois de comer carne. Não fazia ideia desse tipo de coisas…

Foi para Israel por se ter cansado de esperar por uma oportunidade no topo do futebol português?

O nosso futebol está assim formatado. Há investidores e agentes que colocam treinadores em determinado clube… Já sabíamos que o futebol era um negócio. Hoje em dia, ainda é mais assim. Claro que lamento não treinar em Portugal. Estou a cinco horas do meu país. Sou treinador adjunto e foi um israelita que me deu a mão e me pôs a trabalhar numa equipa profissional. Tenho de estar grato ao Marco Balbul.

Durante alguns anos, foi observador do Arsenal. Nunca considerou seguir essa carreira?

Amo o que faço, que é treinar, e estou a gostar desta experiência em Israel.  Estou num ambiente mais profissional. É uma responsabilidade enorme. Só estando cá é que se tem noção do que é o Maccabi Haifa.

Considera que há portas mais abertas para uns treinadores do que para outros? Foi também essa perceção que motivou a polémica com Tiago Fernandes? [ndr.: Boa Morte escreveu no Twitter sobre o seu sucessor no Sporting B: «Quando chegas lá com cunhas (o meu papá é o Manuel Fernandes) e não por mérito próprio…»]

Sim, mas nem quero ir por aí, porque já é passado.

Fez as pazes com o Tiago Fernandes? Chegaram a falar depois desse episódio?

Não. Já partilhámos o mesmo metro quadrado, mas não conversámos. Calhou estarmos na mesma bancada ao pé um do outro.

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CARREIRA COMO TREINADOR:

. 2013/14: Fulham (formação)

. 2014/15: Sporting B / Sporting juniores

. 2016/17: Sintrense

. 2018/19: Portimonense sub-23 / Maccabi Haifa (adjunto

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Como técnico principal já treinou a equipa B do Sporting, Sintrense, Portimonense sub-23. Qual foi a melhor experiência?

Foi nos escalões jovens do Fulham, logo no começo da minha carreira de treinador – em 2012/13. Treinava os sub-13, os sub-23 e às vezes ia aos treinos dos sub-16 com o Mark Pembridge. Além disso, tinha de tirar um tempo para jogar no Chesterfield – último clube que representei como futebolista. O Fulham é um clube que me deu muito e tentei retribuir.

Por que acabou essa experiência?

Porque vim para Portugal. Quis que os meus filhos vivessem no meu país, em vez de passarem cá férias de vez em quando.

Como correu esta última experiência, nos sub-23 do Portimonense?

Foi caricato. A toda a hora nos perguntavam se estávamos suspensos ou expulsos. Não, não estávamos. Não tínhamos era um treinador com nível 2, pelo que a equipa técnica não podia ser inscrita. Não podendo ir para o banco, tínhamos de estar sempre na bancada. Como é que uma equipa técnica dirige o jogo da bancada? Isso criava-nos bastantes problemas.

Saiu do Portimonense por causa disso?

Não. Quando achamos que está na nossa hora, alguém tem de tomar a decisão. Estava na nossa hora de sair.

Há muitos treinadores portugueses que sonham treinar em Inglaterra. Em que país preferia trabalhar?

Gosto do que faço em Portugal, na China ou no Kuwait… Tanto faz. Quero é ter uma oportunidade como treinador principal. Podem dizer: «Mas não tem experiência…» Desculpas. Sei muito de futebol e a bola é sempre redonda. Nunca noutro país encontrei bolas quadradas.

Qual o treinador com que mais se identifica?

Todos os treinadores com que trabalhei tiveram a sua importância. Só houve um que não tive ligação, mas continua a ter impacto como um exemplo que não devo seguir: Glenn Hoddle. Não apreciei a forma como ele dirigia a equipa. Era tudo sobre ele. Tudo do género «é assim e pronto». Não puxava os jogadores para o seu lado. Não gostei. E não foi por só ter feito um jogo com ele e depois ter deixado de ser opção.

PARTE 2: «Percebo de eletricidade e ainda saberia reparar motores»

PARTE 3: «Saí da Lourinhã para treinar com Bergkamp... Parecia um sonho»

PARTE 4: «Homenagem em Alvalade? Fiquei sentido pelo meu filho»