Pela mão do histórico Freitas - futebolista do FC Porto entre 1976 e 1983 -, Fábio Espinho tornou-se um dragão apaixonado pelo clube. Chegou à Constituição com sete anos e vestiu de azul e branco até aos 21. Depois de fazer duas temporadas na Equipa B, o médio não teve o contrato renovado e teve de aprender a caminhar sozinho.

Fábio conta ao Maisfutebol o sacrifício que os pais tiveram de fazer para que nada lhe faltasse no futebol, fala com emoção a transbordar sobre o pai, falecido há alguns anos, e não se esquece do período em que as viagens de taxi para o Porto custavam 50 contos ao frágil orçamento mensal da família.

Começou a jogar no FC Porto aos sete anos. Como chegou ao clube?

«É uma história gira. Eu sempre vivi num bairro em Espinho, passava imenso tempo na rua e sempre adorei o futebol. Tenho um irmão mais velho [n.d.r. Bruno Fogaça, 33 anos, médio do Grijó] e comecei muito cedo a vê-lo no Sp. Espinho. Certo dia, estava eu a jogar na rua e o Freitas, velha glória do FC Porto, viu-me a jogar e perguntou-me se eu queria ir treinar à Constituição. Eu era uma criança, pensava que ele estava na brincadeira, mas afinal não. O senhor Freitas falou com os meus pais e levou-me».

O primeiro treino correu logo bem?

«Nem por isso. Cheguei ao balneário e as mãezinhas estavam todas lá dentro, a equipar os filhos. E eu estava sozinho. Aquilo incomodou-me. Os meus pais não me podiam acompanhar e senti-me diferente. Mas depois, dentro do campo, adorei. Eu era portista e isso ajudou. Nessa altura os treinos eram só aos sábados de manhã, eu ia sempre com o treinador, o senhor Freitas, e tudo se encaixou».

Nunca mais deixou de ir?

«Não é bem assim (risos). No sábado seguinte, muito cedo, o Freitas chegou a minha casa para me dar boleia, mas os meus pais tinham adormecido. A minha mãe acordou à pressa, com as buzinadelas do carro, e veio à minha cama. Eu comecei a chorar e disse-lhe que não queria ir».

Porquê?

«Expliquei à minha mãe que não queria estar sozinho, porque os outros meninos tinham os pais sempre com eles. Mas ela convenceu-me. Disse que eu tinha de ir, porque o treinador estava lá fora, mas que se não gostasse, não voltava a ir. Estava escrito: fui nesse sábado e fiquei lá 14 temporadas».

Saiu do FC Porto com 21 anos. Foi o pior dia da sua carreira?

«Foi duro. O meu contrato estava a acabar e pensei que o clube me ia propor a renovação por mais duas épocas. Tinha feito dois anos interessantes na equipa B, depois de todo o percurso na formação, e acreditei que um dia chegaria à equipa principal. Acreditei mesmo, mas aconteceu o oposto. A equipa B acabou, o meu contrato acabou e mandaram-me embora. Foi uma facada, mas serviu-me de motivação. Não foi fácil sair do FC Porto, onde tinha tudo, para vir para o clube da minha terra. Adoro o Sp. Espinho, mas era um clube onde tudo faltava, com um estádio a cair».

Viver em Espinho e treinar no Porto. Foi sempre fácil?

«Não, nada. Os meus pais começaram a pagar 50 contos mensais (250 euros) a um taxista, para ele me levar e trazer. Há 20 anos isso era muito dinheiro e os meus pais nunca foram ricos. A única forma de compensá-los era chegar onde cheguei hoje».

A família acompanha-o sempre?

«O meu pai faleceu há seis/sete anos, vítima de um AVC. Ele é uma força extra. Não entro em campo sem pensar nele. O sonho do meu pai era ver-me a jogar a este nível. Quando ele faleceu disse-lhe, em voz alta, que me ia ver lá de cima a jogar onde nunca me viu cá em baixo. Por coincidência, ou não, a minha carreira começou a endireitar-se. Tudo o que eu ganho é em nome do meu pai».