A equipa composta maioritariamente por emigrantes lusos decidiu abandonar o relvado em protesto após o terceiro golo dos Jersey Wanderers (3-1), neste sábado.

Para enquadrar o caso é necessário explicar o curioso regulamento dos campeonatos na ilha, situada próximo da costa de França mas com jurisdição do Reino Unido.

O árbitro é independente, enquanto os auxiliares são indicados pelos clubes. Ou seja, cada clube apresenta um ‘fiscal-de-linha’ para exercer funções no encontro, acompanhando os ataques da equipa contrária.

«Infelizmente não há árbitros suficientes na ilha, portanto cada clube apresenta um auxiliar. E o que aconteceu nesse jogo é que o árbitro estava sistematicamente a ignorar o nosso auxiliar, que por exemplo assinalou fora-de-jogo nesse lance do terceiro golo do adversário.»

Luís Vieira, presidente do clube com origem portuguesa, reconhece que esse inusitado regulamento origina várias situações dúbias. Assim ainda, revela ao Maisfutebol que não esteve de acordo com a decisão do treinador, responsável pelo abandono do jogo.

«Há coisas que simplesmente não se podem fazer e essa é uma delas. Faltavam apenas dois minutos para o final, foi uma forma de protesto pelo que estava a acontecer, mas não estou de acordo com o que aconteceu, por decisão do treinador. Nesta noite de segunda-feira vamos reunir para analisar toda a situação e provavelmente tomar medidas.»

«As outras equipas odeiam perder contra nós»

A equipa compete na Jersey Football Combination, a principal divisão do futebol local. Embora seja completamente amadora, a competição rege-se pelas leis da FA e o abandono de um jogo pode ter consequências pesadas.

Charlie Browne, presidente da liga, comentou o incidente à BBC Radio de Jersey e admitiu ponderar a expulsão do Portuguese Club.

«Não posso admitir que uma equipa abandone o relvado. Alguém vai ter de pagar por isto. As pessoas dizem que o futebol da ilha está a desiludir e é verdade. Não vou enfiar a cabeça na área. O problema existe e vou resolver isto. Temo por clubes como o Portuguese por tomarem medidas como esta.»

Luís Vieira receia pelo futuro e diz que um eventual afastamento poderia significar o fim para o Jersey Portuguese Football Club. Embora não se queria pronunciar sobre uma eventual discriminação em relação aos emigrantes lusos, o presidente desenha um quadro de especial rivalidade.

«Isso não vou comentar, é melhor. Também dizem que somos uma equipa agressiva... É verdade que temos sangue quente, como também é verdade que as outras equipas detestam perder contra nós.»

O dirigente máximo do clube não quis tocar nesse ponto sensível mas um jogador da equipa portuguesa, que solicitou anonimato, colocou o dedo na ferida e fez duras acusações em diálogo com o Maisfutebol.

«Acima de tudo há incompetência dos árbitros. Para além disso, temos uma maneira diferente de viver o futebol e ideias de jogo. E somos discriminados, sem sobra de dúvidas. Na última vez que defrontámos esta equipa disseram-nos em forma de gozo 'sai uma dose de fish and chips', como quem diz que os portugueses só têm empregos miseráveis aqui. O que não é verdade.»

Polémicas à parte, todos esperam que este não seja um rude golpe na história do Jersey Portuguese Football Club. O clube surgiu em 1971 por iniciativa de um madeirense. Aliás, na ilha de Jersey a maioria dos emigrantes portugueses provêm da Madeira, como é o caso do próprio Luís Vieira.

«O Portuguese Club acaba por ser um pequeno bastião de Portugal em Jersey e temos orgulho nas duas equipas seniores que disputam atualmente os campeonatos. Para além da equipa principal, temos uma equipa de reservas em competição.»

 

Futebol em Jersey marcado pelos incidentes das últimas semanas

O abandono do Portuguese Club no duelo com os Jersey Wanderers foi apenas um dos últimos incidentes a colocar em causa o futebol na ilha. Neste fim-de-semana, em outro jogo, um árbitro foi alvo de ofensas verbais e ameaças à sua integridade física. O seu nome? JP Martins.

«Pois, aconteceu isso e com um árbitro que curiosamente também é português.»

JP Martins tem largo historial no futebol de Jersey mas foi surpreendido com um nível de agressividade a que não estava habituado. O árbitro expulsou um jogador durante o duelo das equipas de reservas do St. Brelade e o Sporting Academics.

«Expulsei-o e ele recusou sair do campo. Tentou agredir-me e chamou-me todos os nomes imaginários. Já pensei muitas vezes em desistir, com demasiada frequência, mas não quero desistir. Temos de começar a punir estas pessoas por muito tempo.»

No mês passado, um dos árbitros mais conceituados da ilha (Ian Solomon) reformou-se na sequência de um ataque físico e verbal durante um jogo. Para além disso, o embate entre as reservas do Grouville e do Jersey Portuguese terminou em pancadaria entre jogadores e adeptos, em pleno relvado.

O futebol na ilha de Jersey enfrenta dias de tempestade. Com os portugueses no centro de algumas polémicas.