Quase três mil quilómetros separam a vila de Serzedelo de Belgrado. Todavia, a distância e o contexto social não arrefecem a paixão do vimaranense Tomás Händel pelo Vitória e pelos conterrâneos. O médio de 25 anos deixou o clube do coração em setembro e apostou na estreia no estrangeiro, reforçando os sérvios do Estrela Vermelha. Titular indiscutível, acumula 39 jogos e já conquistou campeonato e Taça, além de disputar a Liga Europa.
Em entrevista ao Maisfutebol a partir de Belgrado, o português estabelece diferenças entre Portugal e Sérvia, mas garante que nada se compara ao “dérbi eterno” com o Partizan. Além disso, Händel aborda o privilégio de ser treinado por um antigo médio do Inter Milão, aponta à Champions e à Seleção, e não descarta o regresso a Portugal.
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Maisfutebol (MF): Porquê optar pelo Estrela Vermelha?
Tomás Händel (TH): Já estava no Vitória há muitos anos, fiz lá toda a minha formação e fazia sentido dar o próximo passo, a nível financeiro – o que é secundário – mas sobretudo a nível desportivo. Antes tive oportunidades para sair, tanto no verão [de 2024] como em janeiro [de 2025], mas não aconteceu. No mercado de verão, nos últimos dias, tive a oportunidade de ir para a Rússia, mas o Estrela Vermelha entrou na corrida e senti que realmente me queriam. Foi determinante. E queria reforçar uma equipa que lute por títulos. É importante ter visibilidade e jogar nas competições europeias, por norma na Liga dos Campeões.
MF: Como foi a adaptação à Sérvia?
TH: Foi fácil, sobretudo pela presença da minha namorada. Todos me receberam bem no Estrela Vermelha e jogadores como o Bruno Duarte (avançado ex-Vitória) ajudaram nesse processo. Mas falamos de uma cultura completamente diferente, com um povo mais frio, comida diferente e hábitos diferentes. Até o futebol é diferente, estava habituado a um campeonato mais competitivo e mais organizado taticamente. Ainda assim, a liga sérvia é extremamente intensa fisicamente. Quanto aos adeptos, são de outro Mundo, são especiais, à semelhança dos adeptos do Vitória. É bom poder jogar no Estrela Vermelha.
MF: Ainda que habituado ao ambiente em Guimarães, viveu o “dérbi eterno” de Belgrado, entre Estrela Vermelha e Partizan.
TH: Não estava à espera. É de outro Mundo. Nada em Portugal se compara. O dérbi do Minho é muito especial, mas aqui parece religião, uma escolha de vida. São jogos com polícia de choque e militar, até no túnel tens polícia de choque. E durante o jogo é impossível ficar indiferente ao espetáculo dos adeptos. Nunca vivi algo assim. Depois vais na onda. Já assisti no basquetebol e até se nota mais, porque o impacto de 20 mil adeptos na arena faz parecer que estão 50 mil pessoas. É extraordinário.
MF: Referiu os hábitos sociais. O que difere de Portugal para a Sérvia?
TH: Em Portugal já não é permitido fumar em espaços fechados, por exemplo. Aqui é o normal. Em Belgrado há uma parte da cidade com marcas da guerra. Moro numa zona moderna de Belgrado, mas a cidade tem identidade, o que a torna especial. Também noto essas marcas no povo, que é orgulhoso. Quanto à comida, os sérvios comem muita carne, não há peixe como em Portugal.
MF: (…)
TH: Belgrado é uma cidade segura, nunca tive nenhum problema. Estou a gostar de cá estar. Sei que no futebol nada é garantido, mas espero que a aventura seja para continuar, tenho contrato até 2029.
MF: Na Liga Europa ficaram pelos play-offs de acesso aos “oitavos”. Qual era o objetivo?
TH: A ideia é que o caminho foi bem conseguido. Antes de eu chegar, o Estrela foi eliminado no play-off de acesso à fase liga da Champions. Mas, na Liga Europa, conseguimos bons jogos e boas vitórias, tivemos algum azar, até por calharmos com o Lille. Na verdade, em França, até fizemos um grande jogo, mas perdemos o jogo lá, pelas oportunidades que desperdiçámos. Em casa não conseguimos manter o nível. A nossa ambição era chegar mais longe. A nível individual, sinto que estive bem e que o clube gostou, porque os jogadores honraram o símbolo.
MF: No comando técnico do Estrela Vermelha está Dejan Stankovic, antigo médio de Inter, Lazio e Estrela Vermelha.
TH: É um privilégio. É muito bom poder partilhar momentos com figuras como estas. Ele conhece muito bem o clube e fez uma carreira de topo, ganhou tudo. Há pormenores no meio-campo em que me ajuda e transmite calma. Neste caso, trata-se de uma pessoa intensa, vive muito o jogo e é muito exigente. Só tenho a ganhar com esta oportunidade. Nesta temporada já joguei como médio direito ou a “10”. Melhorei, sobretudo, na minha capacidade de adaptação.
MF: Além de partilhar balneário com Bruno Duarte, também convive diariamente com Matheus Magalhães, antigo guarda-redes do Sp. Braga. Este ano houve dérbi do Minho na final da Taça da Liga. Assistiram ao jogo?
TH: Estávamos num estágio de inverno na Turquia. Já eram 2 horas e só me consegui “meter” com o Matheus na manhã seguinte. O Matheus é uma pessoa incrível, um enorme profissional. Claro que temos os nossos desentendimentos entre Sp. Braga e Vitória. Para mim é uma não discussão. Fácil.
MF: (…)
TH: Não consegui festejar muito a conquista da Taça da Liga, o que me deixa triste, mas sinto que tudo o que fiz também contribuiu. Fiquei muito feliz pelo Vitória.
MF: E onde estava em maio de 2013, quando o Vitória conquistou a Taça de Portugal no Jamor, frente ao Benfica?
TH: Estava em casa do meu avô, que já faleceu, infelizmente. Lembro-me de ver o jogo em família e de festejar no Toural. Foi inesquecível. Ainda assim, esta conquista da Taça da Liga marcou-me mais, porque fiz parte daquele grupo e do projeto. Trouxe um sabor especial.
Prossiga para a segunda parte desta entrevista.
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