Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências.

Nascido na Amadora. Crescido e criado no quente Algarve. Campeão na fria Islândia. Com tenra idade, participou no Europeu de sub-17 em 2002 por Portugal e terminou a formação no FC Porto. Contudo, as portas de uma equipa principal abriram-se apenas nos Açores, ao serviço do Madalena. Daí para cá, uma intensa viagem de onze anos por clubes do Algarve, a meias com uma curta passagem no Pinhalnovense, antes de uma viagem além-fronteiras.

Falamos de Gualter Bilro.

Aos 31 anos, a Islândia cruzou na vida do médio português a primeira – e para já única – experiência de futebolista no estrangeiro. Em julho último, Bilro viajou para o sudoeste daquele país nórdico. Ali, porta aberta para o UMF Njardvik. Curta aventura de cerca de dois meses e meio, porém suficiente para a glória. Ou não se tivesse sagrado campeão da 3.ª Divisão islandesa. Como tudo aconteceu, é o que nos conta o farense de gema, nas primeiras palavras ao Maisfutebol.

«[A ida] surgiu em conversa com um colega que já lá jogou, o Guilherme Ramos, hoje adjunto do Baltazar [no AEL Limassol]. Eu disse que sim, consoante as condições. Ele falou com as pessoas de lá e acabei por ir. Em dois, três dias, já programava as coisas. Estava à procura de emigrar. Estive muitos anos em Portugal e estava a perder entusiasmo. Precisava de um novo desafio, cultura e futebol diferentes», conta Bilro.

Gualter Bilro, com o título de campeão nacional da 3.ª Divisão islandesa*

Região de Sudurnes, uma das oito do país. Península, Reykjanes. Cidade, Njardvik. Entre lugares e pessoas, tudo novo. «Quando cheguei, a língua, o islandês, é impossível perceber. Mas tinha a facilidade do inglês que todos falavam. Fui-me ambientando, ainda apanhei um ou dois dias de sol, dava vontade de andar na rua e conhecer. Mas depois o clima começa a ficar cinzento», atira, contando, em simultâneo, o caminho para o sucesso do Njardvik, clube ao qual chegou para a reta final de temporada. Note-se que a competição oficial vai, grosso modo, de maio a setembro.

«Quando cheguei faltavam dez jogos. Estava à espera do certificado e fiquei três de fora. Ficaram a faltar sete e fui sempre entrando. Apanhei um grupo de jovens, máximo de 26 anos, que jogavam juntos há muito tempo. Acabei por dar experiência à equipa e conseguimos a subida de divisão», afirma Bilro, único estrangeiro a par de dois escoceses.

A «correria louca» e o «feito histórico» do Mundial

Entre muita novidade, o foco no futebol que «começa e acaba a 100 por cento». «É sempre a andar. Dificilmente fazem posse de bola. É para a frente, para trás. Acreditam que é possível até ao fim. É uma correria louca. Um andamento…». Mentalidade diferente, porém, fora das quatro linhas. «Ainda é visto como um hobbie, tanto na primeira como na terceira divisão. Toda a gente tem os seus trabalhos», continua.

Mesmo com a bola para segundo plano, o povo – e o jogador - islandês está a tomar-lhe o gosto. A seleção foi aos quartos de final na inédita participação num Europeu de futebol, em 2016. E não mais a nação do Atlântico Norte ficou só conhecida pela cantora Bjork, pescaria ou vulcões. Nas últimas semanas, juntou-se-lhe a vaga no Mundial 2018. Bilro viveu-a de perto.

«É um feito histórico. O jogador islandês antes era visto como um tosco. Atualmente não. O futebol está a evoluir bastante devido à capacidade física dos jogadores. São fortes fisicamente, finalizam de qualquer lado. Se o país interiorizar que pode ter mais frutos no futuro e olharem para a carreira de jogador como prioridade, podem fazer muito mais», defende.

Bilro nos juniores do FC Porto, época 2003/2004 (o primeiro em cima, da esquerda para a direita)*

«Deixava a porta de casa aberta, chegava e tinha tudo na mesma»

Njardvik conta cerca de 3 mil habitantes. É zona de indústria, fábricas. Pescaria. E muito emigrante, sobretudo polaco. Ali, vive-se paredes meias com Keflavík, cidade do maior Aeroporto Internacional da Islândia.

Num dia a dia preenchido com ginásio e treino, «uma vida muito pacata» no meio do povo islandês. «De segunda a sexta-feira, é casa e trabalho. Ao fim-de-semana libertam-se mais, bebem uns copos e voltam à rotina», descreve.

Pelo meio, a segurança a saltar à vista.

«Bastante curioso ver crianças até à meia noite a brincar na rua, a jogar basquetebol e a andar de trotinete com segurança enorme. As pessoas deixam carros e portas abertas. Eu deixava a porta de casa aberta, chegava e tinha tudo na mesma. As pessoas ali passam e não mexem».

A gastronomia.

«São fortes em peixe e carne. Essencialmente no salmão. E os molhos que metem nas comidas. É muito à base de pizzas, hambúrgueres e fez-me um bocadinho de confusão porque andava sempre à procura de saladas e frango».

E o povo.

«Dizem que são pessoas muito frias, mas encontrei pessoas acessíveis que procuram ajudar», remata.

Festejos no balneário do Njardvik, após o título na Islândia*

Gualter Bilro sagrou-se campeão a 16 de setembro, na penúltima jornada. Uma conquista com «pontos positivos», embora não tenha jogado «tanto como gostava» para mostrar «valor». Já com a época terminada na Islândia, está de visita a Portugal e com perspetivas de renovar pelo Njardvik, clube com quem tem mantido contacto para tal. Ou isso, ou nova aventura no estrangeiro. «Novos desafios», em suma. Por ora, realiza um estágio com camadas jovens de um clube no Algarve, a AEF Faro, após concluído um curso de treinador na região.

O Farense no coração e o Ronaldo que já era «craque»

Gualter Bilro deu os primeiros pontapés a sério nos escalões de formação do Farense. Aos 15 anos, mudou-se para o FC Porto. Aí, foi campeão de juvenis e vice-campeão de juniores, cruzando-se no balneário com vários jogadores hoje nas ligas profissionais: Paulo Machado, agora no Desp. Aves; Fábio Espinho, do Boavista; Rui Sacramento, no Gil Vicente; ou Sérgio Organista, do Varzim.

Pelo meio, em 2002, uma participação no Europeu de sub-17, por Portugal, que não passou da fase de grupos. Nessa prova, jogou, entre outros, ao lado de Cristiano Ronaldo. «Já na altura era craque, já tinha gente atrás dele», lembra.

No salto para sénior, em 2004, não ficou na equipa B dos «dragões». «Tive de me fazer à vida», recorda. Aí apareceram os açorianos do Madalena, antes de uma mão cheia de clubes no Algarve. Um autêntico «globetrotter» no sul do país: depois das ilhas, veio o Lagoa, o Louletano, o Beira Mar de Monte Gordo, Farense e Almancilense. Entre 2006 e 2017, apenas o Pinhalnovense, distrito de Setúbal, fugiu à regra algarvia. «Foram surgindo as oportunidades e fui ficando, também estava perto da minha terra», justifica.

Bilro ao serviço do Farense, clube do coração que representou seis épocas*

Entre sete clubes portugueses, quatro subidas de divisão: do Madalena ao Farense, passando por Lagoa e Louletano. Na memória, o clube da terra e da carreira. «É fantástico jogar no Farense. Representava o clube que amo. As pessoas adoram ir ao futebol ao fim-de-semana. Talvez dos melhores anos e dos mais intensos», refere, aludindo ao clube que representou entre 2010 e 2016, pelo qual disputou a II Liga em três de seis temporadas.

Entre o calor de Portugal e o gelo da Islândia, a certeza e o desejo de voltar lá fora. «Gostava de emigrar dois ou três anos».

O tempo responderá.

(*Fotografias cedidas por Gualter Bilro)