O Mafra tem sido a porta de entrada em Portugal para uma série de jovens jogadores chineses, à procura do sonho ocidental. Guiados pelo sucesso do primeiro e mais rentável do filão descoberto pelo emblema saloio, muitos outros se seguiram. Por lá passou também Yu Dabao, avançado que pertenceu aos quadros do Benfica.

Atualmente, são cinco os conterrâneos de Zhang no plantel principal e mais um na equipa júnior. Até já há um vice-presidente chinês na direção, parceiro de negócios do histórico líder do clube, José Cristo, à frente dos mafrenses há 20 anos.

«Já estive na China e posso garantir-lhe que lá, a seguir aos quatro maiores clubes portugueses, toda a gente conhece o Mafra», revela surpreendentemente ao Maisfutebol Joaquim Duarte, diretor-desportivo do emblema do Oeste.

É esta profícua aliança sino-lusitana que tem contribuído para um daqueles recorde que todos gostam de ostentar: o Mafra soma por vitórias todos os jogos (oito) disputados no recém-criado Campeonato Nacional de Seniores. Tem ainda mais dois triunfos na Taça de Portugal, e apenas uma derrota, nesta competição, frente ao Beira Mar. Dez vitórias em 11 possíveis.

Até ao presente, o clube só tinha conseguido ganhar sete jogos consecutivos, por isso o excelente arranque de época já serviu pelo menos para estender a marca. A medalha fica sempre bem, mas o objetivo, comum às últimas épocas, vai muito para além disso, e passa por subir à II Liga.

Clube pequeno que emprestava aos grandes

O Mafra também ficou conhecido nos últimos anos por uma invulgar capacidade de emprestar jogadores a emblemas de dimensão superior à sua. Aconteceu com o já citado Zhang, mas também com Joãozinho, lateral-esquerdo atualmente no Sp. Braga.

O defesa foi primeiramente emprestado ao Beira Mar, que acabou por exercer o direito de opção, e cedê-lo, mais tarde, ao Sporting, com os leões a não seguirem pelo mesmo caminho. Numa época, chegaram a ter cinco atletas a rodar em patamares competitivos mais elevados, inclusivamente no Al-Mesaimeer, do Catar.

«É uma aposta na valorização dos jogadores, porque assim os clubes não correm o risco de comprar gato por lebre. Podem ter um atleta durante um ano, com uma opção de compra, e, no final, decidem. É muito melhor do que vir cá diretamente comprar. Penso que estamos na vanguarda», explica Joaquim Duarte.

«Um jogador, ou treinador, tem de subir um degrau de cada vez. Vamos buscar elementos que ninguém conhece, damos-lhe formação, fazemos-lhe o primeiro contrato profissional, e depois apontamos a clubes que não tão compradores como outros, mas ainda têm alguma disponibilidade», desvenda, relembrando a quase inexistência de transferências de atletas do terceiro escalão para um dos grandes.

Mas esta época tudo mudou. O clube fez um esforço para manter os efetivos, concretizou 16 renovações, além da equipa técnica, e os resultados estão à vista. Depois de perder a promoção para o Farense no ano passado por uma unha negra, desta vez ou vai ou racha.

«Ganhar tantos jogos é motivo de orgulho, mas não nos envaidece. Isso só o objetivo final é que o conseguirá. Para já, nada nos diz. Na última temporada, falhámos por um ponto. Se ganhamos agora e, no final, quando tudo se decide, não conseguirmos subir, todo este trabalho não terá valido de nada», relembra José Cristo, presidente do Mafra.

O atual modelo competitivo, em que apenas três equipas poderão ascender à II Liga num total de 80, também merece reparos do líder mafrense. «Penso que, neste momento, é mais difícil subir do que manter uma equipa. Se descessem mais da Liga e subissem mais dos outros escalões, o nosso futebol seria bem mais competitivo», aponta.

Onde Chiquinho Carlos é treinador… de guarda-redes 

No campo do treino, o Mafra também se pode considerar inovador. Se pensa que um treinador de guarda-redes tem, necessariamente, de ter jogado naquela posição quando evoluía dentro das quatro linhas, prepare-se para algo completamente diferente.

Quem se lembra de Chiquinho Carlos, avançado brasileiro do Benfica nos anos 80, irá certamente associá-los aos golos e não às defesas. O próprio não sabe explicar onde se deu o desvio de uma espécie de lei universal do futebol.

«Nunca pensei que tal me viesse a acontecer, mas adaptei-me bem e tenho aprendido muito com os guarda-redes, alguns deles até já com uma certa experiência», reconhece, no jeito humilde que o carateriza.

«Foi quando fui para o Atlético, com o Vítor Móia [há 15 anos]. Não tinha curso e acabei por ser inscrito como adjunto dele, mas ele já tinha o Tozé, com quem já trabalhava, e faltavam alguém para treinar os guardiães. Experimentei e gostei», relembra. Já lá vão sete época em Mafra.

O pontapé potente e colocado, que ainda conversa aos 50 anos, são uma mais-valia para o seu trabalho e diz quem assiste aos treinos que é difícil parar-lhe os remates. O veterano, presença assídua da equipa do Benfica da categoria é ainda um dedicado treinador das camadas jovens, sobretudo os mais pequeninos.

«Tenho uma paixão por trabalhar com os miúdos», confessa, prometendo continuar a treinar e a jogar enquanto puder. A idade parece não o atrapalhar.