Durante dois dias, em horas e horas de conversa, foram dezenas a passar por aquele palco. Treinadores de todas as gerações, uns a trabalhar em Portugal, outros no estrangeiro, homens e mulheres. Falou-se de tudo: do futebol de hoje e do de amanhã, mas poucos momentos terão sido tão emotivos como quando aqueles três Magriços puseram toda uma plateia de pé.
Homenagem será, talvez, uma palavra redutora para explicar o que aconteceu na tarde de hoje, 31 de Março, no Palácio de Congressos do Algarve, em Albufeira.
Reconhecimento, sendo sinónimo, assentará melhor. Porque, durante aqueles 10 minutos (e bastaram), nas caras de todos reinava um sentimento de uma certa gratidão. Se o futebol português é hoje o que é, deve-o - em muito - àqueles três, pioneiros num tempo em que tudo era diferente.
Eles merecem que o nome seja escrito com o devido destaque: António Simões, Hilário da Conceição e José Augusto. Estiveram em Inglaterra, nesse Mundial de 1966 que marcou uma viragem no futebol em Portugal.
Sim, o Benfica já tinha sido bicampeão europeu (1961 e 1962), o Sporting havia ganho a Taça das Taças em 1964, mas o terceiro lugar no Campeonato do Mundo foi o real momento de afirmação do nosso futebol (como esquecer aquela vitória frente ao Brasil, de Pelé, ou a reviravolta épica frente à Coreia do Norte?).
Simões, Hilário e José Augusto são três dos quatro Magriços - a alcunha pela qual ficou conhecida a nossa seleção - ainda vivos. Vicente Lucas também ainda o é, mas, por motivos pessoais, não conseguiu comparecer à homenagem que a Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF) lhes decidiu fazer.
Simões foi o porta-voz do grupo. Hilário e José Augusto, visivelmente já mais debilitados, relegaram no caçula dessa seleção de 66 as memórias que guardam de Inglaterra.
E foi um deleite.
«Com toda a ternura, foi com eles, com estes meus colegas, que eu cresci. Como dizia o nosso querido Manuel Sérgio, por detrás de um jogador há sempre uma pessoa. Foi esses valores que me transmitiram e que segui durante toda a vida», disse.
«Nada há melhor do que partilha com a família e com os amigos. É o que estou a fazer aqui. Mas deixem-me dizer isto: não posso nunca deixar de me referir a todos os que estiveram connosco e já cá não estão», acrescentou, para a primeira grande salva de palmas da tarde.
São tantos: Eusébio, Coluna, Jaime Graça, José Torres, Morais, José Pereira, Alexandre Baptista... «Não sou um falso modesto: gosto que nos reconheçam e estou grato por estar aqui», disse Simões, recordando todos esses companheiros.
As histórias desse Mundial são tantas, mas o tempo era limitado. «Só me dão dois, três minutos? Então eu não jogava mais?», atirou António Simões, para riso geral.
Houve lugar, porém, a uma pequena história que mostra como os tempos eram mesmo outros e o mediatismo que a seleção hoje desperta parece quase uma anedota.
«Quando chegámos a Inglaterra, só tínhamos um fotógrafo à nossa espera. Quem? O Nuno Ferrari que trabalhava no jornal A Bola».
O mesmo Ferrari, figura maior do fotojornalismo português, que fotografaria Eusébio em lágrimas, após aquela derrota nas meias-finais frente à Inglaterra que nos impediu de ir à final do Mundial.
Nem José Augusto, nem Simões, nem Hilário levantaram a tão ambicionada taça, nesse ano de 1966, mas vê-los hoje a erguer os quadros de homenagem que receberam não deixou de ser uma imagem poética.
Longa vida, Magriços.