«Mais longe e mais alto» é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

De repente, o sonho tornou-se pesadelo.

Diogo Ribeiro nem teve tempo para saborear a medalha de prata que venceu nos 100m mariposa no Europeus Júnior.

Três dias depois, aos 16 anos, o nadador acordou numa ambulância do INEM a caminho do hospital, depois de a mota que conduzia ter sido abalroada por um carro em Coimbra.

«No hospital só pensava que a minha carreira tinha acabado. Não me conseguia mexer. Doíam-me as costas só de respirar», recorda o jovem atleta, que já tinha acordo com o Benfica, que temeu que pudesse cair.

Passaram-lhe os cenários mais negros pela cabeça. E o caso não era para menos.

«Depois do embate, caí e fiquei inconsciente. Só me lembro de estar na ambulância. Fiquei com hematomas no corpo todo. Fiquei sem parte do indicador direito; fiz uma fratura no pé direito; desloquei o ombro direito; fiz uma grande queimadura no joelho esquerdo; e uma microrrotura no peito», confidencia, em conversa com o Maisfutebol.

Apesar de tudo, as consequências podiam ter sido piores para o jovem nadador. A recuperação foi lenta, mas o apoio da família deu-lhe força nos dias mais difíceis.

«Estive uma semana internado e fiquei um mês de cama em casa. Depois comecei a fazer fisioterapia, mas tinha de ir de cadeira de rodas quando ia à casa de banho».

Até que um dia se levantou sem apoio. E não esquece esse momento.

«A primeira vez que consegui andar sozinho, levantei-me da cama fui até à cozinha fazer uma surpresa à minha mãe. Eu estava quase a cair e ela disse que eu era maluco e mandou-me voltar para a cama», relata sorridente.

Fisicamente, a sequela da qual lhe custou mais a recuperar até foi a que menos esperava: a rotura no peito. E a que podia ser mais preocupante resolveu-se facilmente.

«Poucos dias depois do acidente, fiz a reconstrução do dedo e ficou muito bom. A sensibilidade mudou e no início tinha medo de puxar alguma coisa com força, por exemplo. Mas já recuperei totalmente», assegura.

Dez recordes nacionais graças… à «comida da mamã»

Apesar de não ter qualquer ligação familiar anterior à natação, o primeiro contacto de Diogo com uma piscina aconteceu com poucos meses de vida.

«Eu a minha irmã entrámos logo para a natação ainda bebés. Ela é três anos e meio mais velha do que eu, e eu tinha poucos meses quando comecei a ir àquelas aulas de meio aquático. E quando tinha três anos comecei a querer fazer mais coisas na natação», enquadra.

Pouco depois disso, uma tragédia familiar fez com que a mãe insistisse num passatempo que tinha percebido que o filho adorava.

«Quando eu tinha quatro anos, o meu pai faleceu e a minha mãe quis que eu me dedicasse mais, também para me distrair», confidencia, ele que nada com uma estrela tatuada no ombro direito em memória do pai.

«Depois, por volta dos seis anos comecei a nadar mais a sério, fui fazendo competições a nível regional e comecei a ganhar», continua.

Antes de chegar ao Benfica, no início desta época, o jovem conimbricense nadara sempre em clubes da sua cidade: Fundação Beatriz Santos, Clube Náutico Académico Coimbra e depois União de Coimbra.

Foi já depois do acidente e da mudança para Lisboa – treina no Centro de Alto Rendimento do Jamor - que Diogo Ribeiro confirmou o potencial que lhe era apontado.

Mas seria num regresso a Coimbra que todos os olhos ficariam em cima do nadador. Um jovem cujos resultados fazem com que seja já apontado como um dos melhores portugueses de sempre por nadadores olímpicos portugueses.

É que apesar da idade júnior, Diogo Ribeiro foi a grande figura dos campeonatos nacionais que decorreram em Coimbra entre 31 de março e 3 de abril.

No total, foram dez os recordes nacionais que bateu – seis de juniores e quatro de absolutos.

O nadador do Benfica saiu dos nacionais como o mais rápido de sempre nos 50m mariposa e nos 100m livres – bateu ambos duas vezes. Mas há um deles que é mais especial para o nadador.  

«Todos os recordes absolutos são especiais. Mas o dos 100m livres é o mais especial. Foi a primeira vez que um português baixou dos 49 segundos [48,72] na distância e eu nem tinha grandes expectativas para essa prova», declara.

Mas qual foi a receita para tanto sucesso a nadar em casa?

«Massa com grão, carne, ervilhas e cenoura. Tudo misturado».

Não, não é engano. Diogo Ribeiro explica, a sorrir.

«Atribuo 100 por cento de importância à comida da mamã. Faz muita diferença porque a alimentação é das coisas mais importantes para competição. Ela faz aquilo que eu gosto e estou habituado a comer. Costuma fazer uma massa com grão, carne, ervilhas e cenoura. Tudo misturado. E dormir na minha cama também fez diferença, na minha casinha».

Além dos recordes nacionais – aos quais juntou o dos 100m mariposa a meio de abril – Diogo conquistou em Coimbra 12 mínimos para os Europeus e os Mundiais, tanto de juniores como de absolutos.

A estratégia desportiva, porém, fê-lo abdicar de duas dessas grandes provas.

«Optei por ir ao Europeu de Absolutos, em Roma, [11 a 21 de agosto] e ao Mundial de Juniores, no Peru [uma semana depois]. Eu e o meu treinador acreditamos que podemos fazer melhores resultados nessas duas competições por causa dos ciclos de treinos», sublinha.

«Achava-me indestrutível, o acidente foi uma lição»

É impossível esquecer que estes resultados surgem menos de um ano depois de um acidente que podia ter terminado precocemente a carreira de Diogo Ribeiro.

E ele próprio não deixa esquecer isso. Não para se vitimizar, mas para sublinhar a forma como o acidente lhe mudou a personalidade.

«Não vou dizer que ainda bem que aconteceu, mas precisava de abrir os olhos», introduz friamente.

«O acidente foi mesmo uma lição. Aprendi muito e ganhei a nível psicológico. Deu-me força mental e responsabilidade. Aquele momento fez-me olhar para a vida de outra forma», continua.

E aqui o jovem admite erros e excessos que cometia, próprios também da idade. E que não quer voltar a repetir.

«Acho que ganhei uma segunda vida. E tenho de a aproveitar. Não posso cometer os erros que cometi no passado. Fazia muita porcaria e achava que era indestrutível e que nunca me ia acontecer nada. Pensava que estava sempre tudo bem. Percebi que não era assim».

Agora, com o trabalho que tem realizado no Benfica e com a evolução está a ter, Diogo Ribeiro acredita que pode chegar onde nenhum outro nadador português chegou.

«O Benfica dá-me muito melhores condições do que eu tinha. Tive propostas de outros clubes, mas decidi logo pelo Benfica. Até ao ano passado, só trabalhava na piscina. Atirava-me para a água e nadava. Agora trabalho no ginásio, trabalho a biomecânica, faço estudos de viragem, chegada, técnica de partida. Esses detalhes mudam muita coisa», defende.

Por tudo isso, o horizonte do nadador é mesmo o topo.

«Sinto que posso ser um dos melhores do mundo. Nunca houve um nadador que estivesse perto do topo da natação mundial, mas quero chegar lá. Sempre com a cabeça na terra, mas meu sonho é conseguir uma medalha olímpica», atira, ambicioso.

E o que será preciso para o conseguir?

«Não sei o que é necessário. Mas se eu não sei, alguém me vai ensinar. Ainda sou novo, não sei tudo, mas tenho pessoas que me vão ajudar», responde de pronto.

Algo que o jovem nadador acredita não precisar é… de sair do país.

«Acho que não preciso de sair de Portugal para chegar ao topo. Mas se eu conseguir a medalha olímpica, vamos saber se Portugal tem condições para isso ou não», remata.

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