Mais longe e mais alto é uma rubrica do Maisfutebol que olha para atletas e modalidades além do futebol. Histórias de esforço, superação, de sucessos e dificuldades.

Dificilmente o choro compulsivo de Madjer, momentos depois de ajudar a seleção portuguesa a tornar-se campeã do Mundo pela terceira vez na história, não se tornará numa das imagens mais icónicas do desporto português.

Ao tentar agradecer ao povo português o apoio que sentiu ao longo dos 22 anos que representou a seleção de Portugal, Madjer não conseguiu controlar as emoções e desabou em lágrimas que deixaram claro que o final de carreira está próximo.

Só que não se trata de uma carreira qualquer. Falamos daquele que, no passado mês de outubro, foi considerado pela France Football o melhor jogador de futebol praia da história.

Cinco vezes eleito o melhor do mundo, vencedor três títulos mundiais por Portugal – único jogador que esteve nas três conquistas da seleção das quinas – e muita magia espalhada pelos areais de todo o mundo ao longo de mais de duas décadas.

Agora, com as emoções do último título mundial mais controladas, Madjer sentou-se com o Maisfutebol e a TVI para uma conversa que foi à origem da lenda.

E foi lá que encontrou o relato de um grave acidente de mota que roubou o sonho de um adolescente que ambicionava ser jogador de futebol. Mas foi lá também que conhecemos a D. Ivone. A senhora que nunca deixou que o seu filho deixasse de perseguir um sonho, viesse ele na forma que viesse.

Nesta longa entrevista, o ainda jogador do Sporting fala também de quão risonho perspetiva o futuro de uma modalidade que muitos não viam como mais do que «uns miúdos que se divertiam a conhecer o mundo e a beber caipirinhas», mas também dos planos que tem para o futuro.

Mas é pelo início de tudo que começamos.

Maisfutebol: Toda a gente sabe quem é o Madjer do futebol de praia. Mas quem foi o miúdo João Vítor antes de se tornar no melhor jogador da história da modalidade?

Madjer: O miúdo João Vítor era uma criança que não fugia à regra de tantos miúdos e que tinha o sonho de ser jogador de futebol.

MF: Qual foi o percurso que fez?

Madjer: Comecei no futebol onze, nas camadas jovens do Estoril Praia, depois também joguei no Estoril Atlético Clube que é outro clube dali da zona.

MF: Começou tudo na zona do Estoril…

Madjer: Sim, mais concretamente numa praceta que ainda existe junto à estação de S. João do Estoril, onde andávamos à bolada às vitrinas das lojas e aos carros que passavam. Foi nessa praceta que começou a crescer a paixão pelo futebol.

MF: E quando é que o João se transforma em Madjer?

Madjer: Isso é um contrassenso enorme porque sou sportinguista e adotei o nome de um dos expoentes máximos da história do FC Porto. Mas no final da década de 80, quando o Madjer teve o auge da carreira em Portugal, com a conquista da Liga dos Campeões com o célebre golo de calcanhar, os meus amigos, sobretudo os mais velhos, começaram a chamar-me Madjer. Diziam que eu tinha uma forma de jogar parecida com a dele, apesar de eu ser destro e ele canhoto. E começou aí o puto Madjer. Puto Madjer, puto Madjer… e pegou.

MF: Quem é que não chama lhe Madjer atualmente?

Madjer: A minha mãe quando está chateada (risos).

MF: Só quando está chateada?

Madjer: Na maior parte das vezes chama-me João. Quando está chateada é João Vítor – o que já acontece poucas vezes – e de vez em quando chama-me Madjer. Mas é mais quando estamos num sítio público com muita gente. Se ela me chamar João vão olhar 50 Joões, então ela opta por me chamar Madjer (risos).

MF: O seu percurso antes do futebol de praia foi sempre no futebol de 11?

Madjer: Foi sempre no futebol de 11 até aos 17 anos. Depois a minha carreira teve um interregno por causa de outra das minhas paixões: as motas. Eu gostava imenso de motas. Só que com 17 anos tive um acidente grave e tive de interromper o tal sonho de ser jogador de futebol.

MF: Quanto tempo ficou afastado?

Madjer: Estive dois anos parado. E dois anos parado é muito. Depois ainda tentei regressar ao futebol, mas vi que tinha perdido muita coisa. E foi quando surgiu o convite para experimentar o futebol de praia.

Fotografia do arquivo pessoal de Madjer

MF: Como é que chegou esse convite?

Madjer: Foi muito no início da modalidade, que existe desde 1995/96. Em 1997, o Carlos Xavier convidou-me para participar num torneio em Carcavelos, numa equipa amadora. Eu confesso que nem sabia que se jogava futebol de praia na areia fofa, de forma organizada.

MF: Tudo era um mundo novo…

Madjer: Sim, porque aquilo a que estava acostumado era o mesmo que 90 por cento dos jogadores de praia faziam: jogar na areia molhada. Por isso, a primeira coisa que disse ao Carlos Xavier foi que não ia. Mas ele insistiu: ‘anda lá, experimentas e se não gostares, amigos como dantes’.

MF: E convenceu-o.

Madjer: Sim, ele andou duas semanas a insistir, insistir, insistir… e acabei por participar na minha primeira competição de futebol de praia em 1997.

MF: Como é que o Carlos Xavier o descobriu?

Madjer: Ele mora ali na minha zona também e sabia que lá havia muitos jogadores. Aliás, houve outros que também foram chamados à seleção, como o Chiquinho, que é meu amigo de infância, ou o João António. Nós jogávamos ali, entretanto mudámos para outra praceta porque a minha mãe mudou de casa. E o Carlos frequentava um café perto de casa da minha mãe às vezes ficava a ver as nossas peladinhas e viu que havia ali miúdos com talento. E foi por isso que surgiu o convite dele.

MF: Esse convite fez com que apesar de se ter afastado da vertente de 11, acabasse a defrontar na praia grandes lendas do futebol mundial.

Madjer: Sim, o Cantona, o Romário, o Branco… Estou mesmo velho (gargalhada). Eu agradeço sempre publicamente a esses ex-jogadores, porque sem eles a modalidade não existiria. Foram eles no início que deram um nome à modalidade, ao integrarem-se de forma a darem a visibilidade necessária. E é com muito agrado e gratidão que eu digo que joguei contra eles. Mas o melhor de tudo foi eles terem estado na modalidade, porque foram sem dúvida os grandes embaixadores do futebol de praia.

MF: No início conciliava o futebol de praia com outra profissão?

Madjer: Não. No início da modalidade eu não era profissional. Mas a minha mãe, a D. Ivone, que sempre me apoiou nos meus sonhos, sabia que havia um sonho que tinha sido interrompido. E via uma oportunidade para eu pelo menos ficar de consciência tranquila, por isso empurrou-me para esse sonho.

MF: Deu-lhe o apoio de que precisava?

Madjer: Sim. Nos dois anos depois de ter tido o acidente, eu comecei a trabalhar, a reorganizar a minha vida e quando surgiu esta oportunidade, lembro-me de ir falar com a minha mãe e ficar com aquele medo de ela me dizer: ‘não, agora que já tens a tua vida organizada, vais para o futebol de praia? Nós nem sabemos o que é isso’…

MF: Mas não foi isso que aconteceu…

Madjer: Não. Ela só me perguntou: ‘tu queres mesmo muito isso, não é?’ E claro que queria. Pelo menos tentar, para sair de consciência tranquila. Então, a minha mãe empurrou-me para o meu sonho. Na altura, eu ainda vivia com ela e o pouco que ganhava não dava para sobreviver, mas também tinha poucos gastos, por isso dediquei-me quase logo 100 por cento ao futebol de praia.

MF: Quando é que passa a ser profissional?

Madjer: Em 1999-2000. Tive o convite de uma equipa italiana, o Cavalieri del Mare, e aí já conseguia conciliar com a seleção nacional e ganhar algum dinheiro. Também não daria para viver, mas foi aí que comecei a ver que o futebol de praia era uma aposta que no futuro poderia começar a dar os seus frutos.

MF: Foi fácil abandonar o sonho do futebol de 11 e virá-lo para o futebol de praia?

Madjer: Não foi fácil, não. Até porque depois eu tenho uma reinvestida no futebol de 11, porque recebi um convite do V. Guimarães e depois do P. Ferreira também, em 2003. Eu já estava totalmente dedicado ao futebol de praia e tive esses convites. E quis sair de consciência completamente tranquila. Agradeci os convites, fui lá, mas foi então que eu vi: isto já não é a minha praia. Já não pertenço a este futebol. E aí tive a certeza de que era no futebol de praia que eu queria continuar.

MF: Começou então a correr atrás do sol, a jogar em vários países por ano.

Madjer: Sim, porque a modalidade é muito sazonal. E quem quer apostar a 100 por cento, sobretudo naquela altura em que a aposta no futebol de praia não era muito forte, tinha de conciliar vários clubes para manter a vida estável e poder dedicar-se totalmente a esta modalidade.

MF: Isso levou-o aos Emirados Árabes, Brasil, Rússia, Turquia, Polónia. Traz muitas histórias dessas experiências?

Madjer: Sim, várias. Há uma que gosto muito de contar porque é uma história que foi um teste.

MF: Venha ela.

Madjer: No primeiro ano em que fui para o Lokomotiv, aquilo que acordei com o clube foi receber por etapa. Sem transferências nem nada (risos). E lembro-me que no final da primeira etapa, o Igor, responsável pelo futebol de praia do clube chegou ao pé de mim como combinado e entregou-me um envelope. E eu, para não estar ali a contar o dinheiro, fui para o hotel contar. Contei umas 20 vezes e aquilo dava-me sempre dinheiro a mais.

MF: O que fez, então?

Madjer: No dia seguinte, antes de viajar, encontrei-me com ele no aeroporto e disse-lhe: ‘Igor, está aqui dinheiro a mais, deve ter havido um engano’. E ele, mesmo à mafioso, deu-me uma chapada assim a apanhar a orelha e disse-me: ‘não. Bem-vindo ao Lokomotiv, agora fazes parte da família’ (risos). Ou seja, aquilo foi um teste que me fizeram e não foi à toa que depois depositaram tanta confiança em mim para jogar lá aqueles anos todos.

MF: E como foi trabalhar nos Emirados?

Madjer: Eu adorei trabalhar lá. Encontrei uma cultura completamente diferente. E quando falo da cultura é também no que diz respeito aos atletas. Quando cheguei, eram marcados treinos e eles não apareciam.

MF: Eram pouco profissionais…

Madjer: Eles têm muito a cultura do facilitismo, sobretudo para os locais. Por isso, em muitos treinos aparecia eu, o Rui Coimbra, o Maia, o Stankovic e mais dois ou três locais. Os outros faltavam, ou por causa do trabalho, ou porque tinham outros compromissos… E deu-me um gozo tremendo porque a partir de determinada altura eu comecei a ser uma espécie de organizador mental daquela gente toda, para eles perceberem que tinham de trabalhar para se atingirem os objetivos. E deu-me imenso prazer, no último ano em que joguei lá, eles terem-me agradecido aquilo que tinha feito por eles.

MF: Sente que o crescimento dos Emirados no futebol de praia tem também muito dedo seu?

Madjer: Sim, tem. Mas tem dedo de várias pessoas: do Marcelo Mendes e do Guga, treinadores que trabalharam na seleção e que nos abriram as portas de lá. E depois percebi o porquê de nos terem puxado para lá: foi para ajudar a catapultar aquela gente para outro patamar.

MF: E resultou…

Madjer: Resultou, sem dúvida. Agora, muitos dos que jogaram comigo fazem parte de uma seleção que é supercompetitiva e que tem um futuro brilhante pela frente. E a trabalharem por eles. Muitas vezes postam vídeos nas redes sociais a treinarem sozinhos. E isso dá-me um prazer enorme.

MF: E como foi a experiência no Brasil?

Madjer: Foi um dos campeonatos em que tive de ter uma adaptação mais rápida por causa da qualidade daqueles jogadores. Aquilo é impressionante! Qualquer jogador com quem eu tenha treinado tem uma qualidade técnica fora do normal. Não é à toa que o Brasil é a terra do futebol. Cresci muito em termos técnicos a jogar lá.

MF: Qual foi o campeonato mais competitivo onde jogou?

Madjer: Posso enumerar dois: o italiano e o russo. Esses foram os mais competitivos.

MF: E como avalia o campeonato português?

Madjer: É um dos melhores do mundo. Cada vez mais, os melhores executantes estão a vir para cá, o que é ótimo, não só para a competitividade do campeonato, como para os jogadores.

MF: A aposta no futebol de praia começa a ser muito forte.

Madjer: Sim, vejo cada vez mais uma aposta da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no crescimento da modalidade a todos os níveis. Não só na longevidade do campeonato nacional, mas também com o surgimento de uma segunda divisão. As infraestruturas também são cada vez melhores, um pouco por todo o país, fruto também do investimento de alguns municípios.

MF: Bem diferente do que acontecia no início da modalidade…

Madjer: Sim. Não estamos no ideal ainda, nem pouco mais ou menos. Eu costumo dizer que se somos campeões do mundo assim e temos as melhores equipas do mundo em Portugal, quando estivermos no auge dificilmente nos irão parar.

MF: O Madjer tem um projeto de formação pensado, certo?

Madjer: Sim, tenho um projeto pensado, e um outro que já é uma realidade. É um dos maiores torneios juvenis do mundo, com o meu nome, que se realiza na Figueira da Foz.

MF: Porquê na Figueira da Foz?

Madjer: Por todo o histórico de Mundialitos e porque quando se fala da Figueira da Foz, fala-se de futebol de praia. Eles acharam por bem que eu fosse o embaixador de um projeto que eles têm que é o Figueira Beach Sports City. Já são dois anos da Madjer Youth Cup. Estamos a falar de uma envolvência enorme de outros países: El Salvador, Estados Unidos da América, Espanha, Inglaterra… E espero que mais municípios peguem nessa ideia. Se não for com o Madjer, com o Jordan, ou quem quer que seja, porque esse é o futuro. E nós temos de apostar na formação para termos qualidade no futuro.

MF: Sobre a seleção nacional: 1090 golos em 584 internacionalizações. Como vê esse capítulo de mais de 20 anos?

Madjer: Foram 22 anos de uma experiência fantástica. E agora que chegou ao fim, faço uma retrospetiva com imenso orgulho do que foi construído. Eu estive nos primórdios da modalidade, como tantas outras pessoas que ajudaram a crescer o futebol de praia, e vejo que cada vez mais estão reunidas as condições para os jogadores se focarem só naquilo que têm de fazer.

MF: Foi uma grande evolução.

Madjer: Quando eu cheguei, lembro-me de andar a montar campos em Carcavelos, a acartar águas, a lavar roupa… ao olhar para trás e ver toda esta evolução e termos conseguido chegar às entidades oficiais…

MF: A FPF tem apostado forte…

Madjer: Sim, mas também as federações mundiais, que na altura não abraçavam o futebol de praia. Havia muito pouca gente a acreditar que esta modalidade poderia vingar. E ver a FIFA já completamente envolvida, as federações, parece-me que a UEFA também vai abraçar a modalidade. Isso dá-me um orgulho imenso.

MF: Foi um longo caminho.

Madjer: Foi. E nós conseguimos construir uma modalidade na qual ninguém acreditava. Na altura até diziam que era um grupo de amigos que viajava, bebia umas caipirinhas e conhecia uns países novos. E ao fim de três anos da modalidade em Portugal, éramos campeões do mundo. Aqueles rapazinhos que andavam a brincar e a conhecer o mundo conseguiram tornar a brincadeira séria e conquistar títulos para Portugal.

MF: Três títulos mundiais e apenas o seu nome está em todos eles.

Madjer: Sou a única carcaça (gargalhada). Sou o único que está nos três, também fruto da longevidade da minha carreira. E isso traz-me um sentimento fantástico.

MF: Venceu também várias vezes o prémio de melhor jogador do mundo.

Madjer: Sim, fui considerado cinco vezes o melhor do mundo, quatro dos prémios são oficiais, o outro ainda não foi da FIFA.

MF: E foi considerado pela France Football o melhor jogador da história do futebol de praia. Que significado tem isso?

Madjer: Isso de ser o melhor da história, para ser honesto, eu nunca tive a noção do impacto que podia ter aquela publicação da France Football. Chegou a mim através de um amigo francês, que me mandou uma mensagem a felicitar, com imenso orgulho. Mas eu não tinha a noção do valor daquilo.

MF: Desde logo, é atribuído pela France Football…

Madjer: Sim, eu sabia que era uma coisa muito boa, porque eu lia a France Football ainda com o Jean Pierre Papin nas capas. E ver uma revista que eu lia em miúdo fazer-me uma homenagem daquelas, só mais tarde percebi o quão fantástica era aquela atribuição. E principalmente para o futebol de praia, que teve a France Football a valorizar a modalidade.

MF: O melhor do mundo continua a ser português, este ano foi o Jordan o eleito. Viu essa nomeação como a continuação do legado?

Madjer: Eu espero que o legado faça com que o melhor do mundo seja sempre português. Seja o Jordan ou outro, importante é que seja português. Ao Jordan está super bem entregue. Ele é daqueles jogadores fora de série, trabalhador nato e que se entregou à modalidade a 100 por cento. E que viu os esforços que fez serem compensados.

MF: O futuro da modalidade passa por ele?

Madjer: Ele já é o presente e um dos expoentes máximos desta modalidade. Eu fico grato por ter jogado ao lado dele e por ter visto o crescimento enquanto jogador e pessoa. Conheci o Jordan quando ele ainda era um miúdo, e ao fim destes anos vê-lo como uma das principais referências é ótimo. Mas também é fruto de trabalhar com os melhores. Quando estamos inseridos entre os melhores, torna-se mais fácil chegar aos prémios individuais.

MF: Como vê o futuro da seleção?

Madjer: Há um futuro brilhante. Aliás, temos o Brilhante, o jogador mais novo dos que estiveram no Mundial, com 19 anos (risos). Mas não só pelos jogadores que estiveram no Mundial. Quem vê o campeonato nacional percebe que existe muito valor em Portugal. Muito valor, mesmo. Sabemos que o futuro está bem entregue, apesar de ainda existir uma lacuna grande ao nível da formação.

MF: Disse recentemente que era muito importante a entrada do Benfica e do FC Porto no futebol de praia. Esse seria o passo determinante para o crescimento da modalidade?

Madjer: Seria um dos passos, sem dúvida. Nós vemos isso também aqui nas modalidades do Sporting, recentemente com a entrada no campeonato de basquetebol. É bom para toda a gente que tenhamos todos os clubes grandes nas modalidades. Pela visibilidade, pela seriedade que dão às competições. Todos teriam a ganhar com entrada do Benfica e do FC Porto no futebol de praia.

MF: Ainda há muitos atletas a fazerem carreiras paralelas?

Madjer: Sim, há muitos jogadores que andam ali numa luta com o futebol de 11 ou o futsal, quando aquilo que queremos é ter os jogadores talhados só para o futebol de praia. Mas mesmo com esse handicap, conseguimos ter grandes excelentes executantes da modalidade.

MF: O Madjer também fez durante algum tempo uma carreira no futsal…

Madjer: Sim. Joguei nos Ismaelitas, na CPCME, no Unidos do Cacém, Santa Susana… O futsal fez parte da minha vida, numa altura em que abracei a modalidade para me manter ativo fisicamente. Logo na primeira vez que experimentei, adorei. Mas foi para colmatar a falta de competição do futebol de praia.

MF: Quanto tempo durou?

Madjer: Foram cerca de quatro ou cinco anos. É engraçado que joguei em dois clubes que apostavam na subida e, na altura decisiva, eu nunca estava porque era mais perto do verão e lá ia eu para a praia (risos).

MF: O que lhe passa pela cabeça ao ver este vídeo [o do agradecimento de Madjer, que termina num choro compulsivo]?

Madjer: [sorri e respira fundo] Foi um misto de emoções muito grande. Foi o sentimento de dever cumprido por ganharmos; o cair da ficha de que era o meu último jogo; e rapidamente me veio também à cabeça todo o esforço que fazemos, não só a seleção, mas os clubes, para manter viva esta modalidade; lembrei-me da minha família, das ausências, dos passos dos meus filhos que eu já perdi… Não foi o tirarem-me o tapete, parecia que me estavam era a tirar a areia dos pés (risos). Foi um descarregar de energia, com sentimento de final realizado.

MF: Para esclarecer: foi o final da carreira, ou o do percurso na seleção?

Madjer: Isso é a pergunta que toda a gente me faz (risos). Contratualmente, tenho uma ligação de mais um ano ao Sporting. De qualquer forma, surgiram agora novas oportunidades e novas decisões que têm de ser tomadas, mesmo ao nível do clube. Mas o que é certo é que no presente eu sou jogador do Sporting.

MF: O que vai ser do Madjer quando deixar os areais?

Madjer: [respira fundo] Vocês estão a querer saber mais do que eu (risos). Isto foi uma saída bastante ponderada. Já tirei vários cursos, sou instrutor FIFA, tenho ligações fortes à FPF, à FIFA, à Beach Soccer Worldwide, que é a reguladora do futebol de praia mundial. E todas essas portas estão abertas, porque já tivemos projetos comuns. É por uma dessas portas abertas que vai passar o meu futuro. E também pelo Sporting, onde sou jogador e gestor da modalidade.

MF: Ou seja, vá para onde for, os passos seguintes vão continuar a deixar marca na areia.

Madjer: Sem dúvida. Ao fim de 22 anos ligado a esta modalidade, não faria sentido que não fosse assim.

 

Artigo original: 16/12; 23h50