Depois do Adeus é uma rubrica lançada no Maisfutebol em junho de 2013 e dedicada à vida de ex-jogadores após o final das suas carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem aqueles que não continuam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para valvarenga@mediacapital.pt.

Mouriscas, pequena localidade a cerca de 15 quilómetros de Abrantes. Em 2011, a freguesia tinha 1.832 habitantes. Marco Cadete caminhava para o final da carreira profissional e preparava o regresso à sua terra.

O Bergkamp português, assim conhecido por partilhar o medo de voar com o Non-Flying Dutchman, tem atualmente 38 anos.

Comecemos por aí.

Em cerca de quinze anos como jogador profissional, Marco Cadete nunca resolveu esse problema. Em 2002/03, ao serviço do Olivais e Moscavide, entrou pela primeira e última vez num avião. Anos mais tarde, recordou essa viagem numa reportagem do Maisfutebol.

«Íamos jogar à Madeira, dizem que a viagem foi tranquila, mas basta-me explicar que perdi muito quilos até chegar lá e nem joguei, tal o meu estado. Na semana seguinte, rescindi com o clube. Havia mais quatro equipas das ilhas naquela divisão!»

Marco prosseguiu a sua carreira e passou por clubes como Sp. Covilhã, Gondomar, Leixões e Feirense sem visitar Marítimo, Nacional, União da Madeira ou Santa Clara. Uma autêntica fobia que motivava cláusulas específicas nos contratos que assinava.

«Isso continua igual, nunca consegui viajar de avião. Não sei se foi algo que me prejudicou na carreira, se calhar sim, mas não me arrependo. Não consigo, simplesmente.»

Quando subiu com o Leixões ao escalão principal, em 2007, o ala direito ainda ponderou a entrada num avião (Marítimo e Nacional estavam na Liga) mas tal não se concretizou. Na reabertura do mercado de transferências regressou ao Gondomar, então na II Liga. Seguiram-se três anos no Feirense.

«Lembro-me de um ano em que o Feirense foi fazer um estágio da Alemanha. Eles chegaram lá rapidamente, eu demorei 26 horas! Mas sou assim, nada a fazer.»

Na reta final da carreira, Marco Cadete regressou a Mouriscas e o Maisfutebol reencontra-o à volta de um novo desafio: fazer regressar a Cerâmica Tejo, fábrica do avô - criada em 1955 -, aos seus tempos áureos.

Mouriscas chegou a ter mais de vinte empresas do género, sendo uma referência na área. Hoje em dia resta apenas a fábrica da família Cadete, que passou de mais de dez funcionários a apenas três.

«Trabalhava com os pés, agora trabalho com as mãos»

Joaquim Lopes Cadete passou o testemunho à filha Lázinha e ao filho desta, Marco. De ex-jogador profissional a gestor de uma empresa de cerâmica que mantém o fabrico artesanal.

«Neste momento é a minha atividade principal, o meu ganha-pão. Eu a minha mãe pegámos nisto e para mim é um regresso ao passado depois de vários anos longe da minha terra. A cerâmica representa a minha infância, os verões passados à volta de argila, barro e tijolos.»

Para Marco Cadete, que jogou oito épocas na II Liga e passou pelo escalão principal (com a camisola do Leixões), este não é certamente o futuro sonhado mas transmite satisfação. A Cerâmica Tejo está a recuperar fôlego e o mercado transmite sinais positivos. O antigo jogador gere o negócio mas coloca as mãos no barro se for preciso. 

«Antigamente trabalhava com os pés, agora trabalho com as mãos e os meus amigos ficam surpreendidos, dizem que isto é mais duro que trabalhar nas obras. A grande dificuldade é colocar todo o material à mão no forno, mas gosto disto e a empresa, que passou uma fase difícil, felizmente está bem.»

A empresa da família Cadete mantém a produção artesanal, a aposta no tijolo mais resistente, ideal para fornos e habitações de traça antiga.

«Há cada vez mais o desejo de voltar a fazer pão caseiro, de recuperar casas antigas, e isso é bom para o negócio. Mouriscas era conhecida pela produção de capachos, azeite e tijolos. Hoje em dia tudo mudou. Neste momento há mais procura que oferta e só não temos mais trabalho porque não conseguimos produzir ao ritmo a que chegam as encomendas.»

«A qualidade de vida aqui é maior»

Marco Cadete não vive apenas para a Cerâmica Tejo, ainda assim. Decidiu antes de mais regressar a Mouriscas, de onde saiu quando tinha 16 anos, para abraçar outro estilo de vida.

«Tenho saudades do futebol mas cheguei a estar seis meses sem cá vir. Hoje sinto-me bem aqui. Tenho uma casa, melhor dizendo uma pequena quinta, onde produzo vinho, azeite, tenho animais…é diferente do que morar nas grandes cidades mas sinto que a qualidade de vida é maior.»

A ligação ao futebol não se perdeu – bem pelo contrário – mas subsiste sem qualquer tipo de retorno financeiro. Marco corre por paixão.

«Tenho dois filhos no futebol. Ainda este fim-de-semana estivemos em Braga, porque a Inês já está na equipa principal do CP Pego e foram ganhar ao Pico de Regalados (0-1), para a Taça. O mais novo, o Guilherme, joga no Núcleo Sportinguista de Alferrarede, em Abrantes. Nesta altura, trabalho com essas duas equipas porque estão lá os meus filhos. Podia estar mais ligado ao desporto, mas a verdade é que infelizmente se trabalha mal no distrito de Santarém, ao nível da formação.»

Com formação na área do desporto, Marco Cadete espera que o cenário mude e vai fazendo a sua parte pelos jovens que crescem em Mouriscas

«Dou aulas extracurriculares aos miúdos de Mouriscas. Há cerca de 40 miúdos na terra, duas equipas de futebol, mas sem as condições que considero mínimas para a prática desportiva. É algo que me deixa triste. Por isso, tenho pegado em vários desses miúdos e levado para a equipa que treino em Abrantes.»

Apostado em desenvolver a sua freguesia e as suas gentes, o antigo jogador vai desenvolvendo conceitos que sente dificuldades em aplicar no contexto local.

«Cheguei a projetar a criação de um conjunto de percursos pedestres em Mouriscas, primeiro pela prática do desporto e mais tarde para mostrar o bonito património da freguesia. Mas infelizmente, não é fácil desenvolver projetos aqui, por questões políticas.»

Marco Cadete estará resignado? Longe disso. Tem como objetivo imediato a recuperação da Cerâmica Tejo mas não limita o futuro à produção de tijolos e tijoleiras.

«Temos de viver de sonhos. Tenho o sonho, por exemplo, de vir a treinar numa II Liga, mas sobretudo de ficar ligado ao desporto, nem digo apenas ao futebol, mas ao desporto. Para já, de qualquer forma, a prioridade é a revitalização da Cerâmica Tejo

Campeão da II Liga, da terceira e…do INATEL

A carreira de Marco Cadete começou por ali, em Mouriscas, com a camisola de Os Esparteiros. Seguiu-se o Sport Abrantes e Benfica antes da mudança forçada para a Covilhã, onde despontou no Sporting local depois de passar pelo Estação.

Foi no Sp. Covilhã que o ala direito, então com 20 anos, se sagrou Campeão da Zona Centro da II Divisão B – terceiro escalão do futebol português – em 1998/99. Seria mais tarde Campeão na Zona Norte, pelo Gondomar (2003/04), e completaria o mapa com a Zona Sul, pelo Fátima (2011/12).

Pelo meio, Marco Cadete esteve três épocas no Leixões e venceu o título da II Liga em 2007. Subiu ao escalão principal, começou a temporada como titular frente ao Benfica, marcou ao Paços, despediu-se frente ao FC Porto. O último jogo na Liga foi em outubro. No início de 2008, voltou a Gondomar.

Após quatro épocas consecutivas na divisão secundária (sobretudo no Feirense), o jogador rumou a Fátima para ser campeão da terceira mas estava já no seu caminho descendente. A carreira profissional terminou aí, em 2012, quando saiu para o Torres Novas.

Marco preparava-se para a despedida, embora nunca tenha deixado de jogar futebol. Aliás, este é um Depois do Adeus sobre um antigo profissional que continua a calçar as chuteiras. Mata saudades nos pelados e no Campeonato INATEL de Santarém. O CCD Amoreira é o seu novo amor.

«Na época passada ganhámos tudo menos o campeonato nacional! Vencemos o Campeonato de Santarém e a Taça de Santarém frente ao GDC Seiça, mas no Campeonato Nacional, em eliminatórias, fomos afastados em Paredes e o Seiça acabou por se sagrar campeão. Ainda tenho gosto em jogar, embora agora seja maioritariamente em pelados e apenas por prazer. Não é uma desonra para mim, as pessoas dão-me valor e mato saudades do que mais falta sinto no futebol: o balneário, o espírito de grupo. Sou feliz assim.»

Clubes representados por Marco Cadete: Os Esparteiros, Sport Abrantes e Benfica, Estação, Sp. Covilhã, Campomaiorense, Sanjoanense, Benfica Castelo Branco, Olivais e Moscavide, Gondomar, Leixões, Feirense, Fátima, Torres Novas, Mação, Casais Revelhos e CCD Amoreira.

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